Nebraska: sobre a beleza dos laços resgatados

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É importante dizer logo de entrada que “Nebraska” é um filme incrível, mas para quem tem sensibilidade. O espectador distraído, ou pouco propenso a se abrir para profundas emoções, pode não só se perder no desenrolar da história como não perceber o riquíssimo resgate dos laços afetivos entre pai e filho. Entre Woody e David Grant. O longa de ritmo lento e todo feito em preto e branco exige um pouco mais de concentração, mas ela é recompensada no mergulho profundo em lembranças de família ao qual leva o espectador. Memórias talvez pungentes, mas ainda assim um mergulho sensível e bonito. A trama de Alexander Payne traz Bruce Dern em uma atuação brilhante como Woody Grant e concorre a seis estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Ator, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante.

Assista ao trailer de “Nebraska”!
http://www.youtube.com/watch?v=6oDqB15PjBY

Woody Grant, um idoso aposentado e “inútil”, acredita ter ganhado 1 milhão de dólares ao receber, via correio, uma propaganda. Dessas que hoje recebemos via SMS. E todos os dias nossas salas se enchem de TVs, videogames, entre outros objetos de desejo típicos do mundo moderno. Mas é propaganda. A família Grant toda sabe, menos Woody, que continua acreditando teimosamente em sua folha de papel, que dobrada e muito bem guardada em sua jaqueta torna-se inseparável de seu corpo. Como ninguém acredita em Woody, ele decide ir a pé de Montana até Nebraska, para resgatar o prêmio. Uns 1,3 mil quilômetros.

O quanto verdadeiramente somos responsáveis por nossos pais? Uma vez que eles fizeram suas próprias escolhas, quanto a nós ou não. Quanta culpa, na condição de filhos rejeitados, temos o direito de depositar nos ombros cansados de nossos pais? Culpa essa que nos impede de ser mais indulgentes com a dor de envelhecer, de perder o valor. Mas a pergunta mais importante talvez seja: o que não sabemos sobre nossos pais que mudaria completamente a visão que hoje temos deles? Eles, no fim da vida. E nós ainda podendo escolher, com alguma folga, alguns caminhos.

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Woody Grant, talvez, seja o papel da vida de Bruce Dern. Apostaríamos como o grande favorito ao prêmio de Melhor Ator se ele não concorresse com Matthew McConaughey que, não tem jeito, em “Clube de Compras Dallas” dá um show! O que chega a ser injusto porque Dern torna o pobre Woody tão robusto e determinado que será possível, em algum momento do filme, torcer para que ele finalmente receba o seu prêmio. Dern está impecável nas cenas em que não dá ouvidos a ninguém, como se fosse surdo mesmo, mas ouvindo e entendendo o quanto todos o acham imprestável. E algumas cenas são tão tocantes, do tipo que gera um nó na garganta.

Mas tão importante quanto Dern é Will Forte, quem faz o filho David. Sua complacência e generosidade ao encarar a velhice do pai e os problemas que vêm com ela – dos físicos aos psicológicos – com um olhar tão livre de culpa, é de emocionar! David embarca na ilusão do pai e devolve a dignidade que o tempo lhe tirou. A aventura de Montana até Nebraska não é em nada aquelas inesquecíveis, cheias de confissões, que aproxima naturalmente porque a troca aproxima mesmo. Os silêncios em “Nebraska” é que dizem tudo. E o que David vai recolhendo da vida do pai, em passagem pela cidade em que viveu na infância e juventude, religa-o cada vez mais ao velho.

“Nebraska” é um filme incrível, mas para quem tem sensibilidade. Para quem entende que os laços afetivos dentro de uma família são capazes de determinar o curso de toda uma vida. E para quem entende que os laços que são resgatados também são capazes de mudar. Talvez não uma trajetória, mas certamente muitos significados.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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