Nelson Motta: “As dores do abandono e da traição passam e as canções ficam”

A foto em página dupla que abre o livro “Noites Tropicais” prova que Nelson Motta é muito mais do que um jornalista, roteirista, produtor musical, compositor e escritor – como se tudo isso ainda fosse pouco. Nelson Motta é testemunha do mais radiante movimento da música brasileira. Inebriante, fascinante, impossível de ignorar, o arquivo de histórias que carrega leva todos estes adjetivos porque, afinal de contas, quem de nós negaria ser amigo de Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes, citando apenas a Santíssima Trindade. Seja em livros, artigos ou participações em programas de TV, Nelson Motta está sempre no centro da roda, pelas memórias que geraram os mais belos versos e melodias que continuarão emocionando o mundo por gerações. Ah, mas cada um sabe a dor e a delícia de ser quem se é, como canta Caetano. Sim, e para a Fausto, com exclusividade, “Nelsinho” conversa sobre algumas dessas dores e delícias. Junte-se a nós.

Nelson_Motta_Entrevista_Fausto

Fausto – Qual a impressão que “On The Road” deixou sobre você que nunca passou?
Nelson Motta: De liberdade e aventura – de viver para contar. Li este livro com vinte e poucos anos, em plena ditadura. Na época, eu também me encantei com o “new journalism” de Tom Wolf e Gay Talese.

Como testemunha viva de uma época histórica, teve ou tem dificuldade para lidar com a verdade de que tudo passa?
Pelo contrário. De certa forma, vivo disso. Meu “hino pessoal” “Como uma onda” é exatamente sobre isto, e foi feita em 1981. Nunca tive muito tempo para pensar no que estava passando porque estava sempre olhando para frente, querendo novidades, riscos, desafios – aprender coisas novas!

Para além de todas as canções, poesias ou características comportamentais típicas de movimentos culturais, o que você aprendeu verdadeiramente sobre o amor?
Ai, ai, ai, ai, ai… Algumas vezes saí de grandes rebordosas amorosas fazendo canções – as dores do abandono, da traição, passam – as canções ficam. Sobre o amor mesmo, cada vez que acho que aprendi alguma coisa, novas duvidas aparecem. Talvez porque eu ame mulheres – e todo mundo sabe que é difícil entendê-las, tenho três filhas que adoro. Tenho também um grande amor pelo meu gato Max, de oito anos. Mesmo! Um amor entre espécies, que pode dar mais alegria e conforto e ser mais retribuído do que por humanos.

Qual o lado mais obscuro que sempre assistiu da fama, do glamour e do métier?
A forte presença e permanente do ridículo, da inadequação, do excesso, do constrangimento. Gente exibida e metida me cansa muito. Ok. Grandes artistas têm egos gigantes, mas eles são poucos, não perseguem a fama e o glamour.

A Bossa Nova foi uma espécie de religião?
Para minha geração foi como uma seita. Em 1960, dizíamos bêbados e aos berros nas noites de Copacabana: João Gilberto é o nosso pastor, nada nos faltará! Eu era um fanático, porque aquela música era a trilha sonora de um modo de vida: de praia, leveza, garotas, pequenas boates em Copacabana, comédias italianas, Nelson Rodrigues todo dia no jornal… Tempos áureos do futebol no Maracanã numa cidade linda e pacífica. A Bossa Nova era a música que a juventude queria, mas ainda não sabia. Era ser moderno.

Tem receio de que o legado da Santíssima Trindade seja esquecido nas próximas gerações ou considera impossível essa possibilidade?
Impossível. A menos que se tire um pedaço, um dos mais bonitos e importantes da história do Brasil. A nossa música é a maior contribuição à beleza e à alegria do mundo. Inesquecível. Padrão de qualidade insuperável e influencia impossível de negar.

Qual “noite tropical” de sua trajetória é a memória mais viva em sua mente até hoje?
Como diria Roberto Carlos… “São tantas emoções”. As noites, felizmente, foram inúmeras, de amor, de paixão, de prazer, de alegria, de descobertas, de emoção. Uma noite especial foi a festa de réveillon no alto do Morro da Urca que fizemos com Joãozinho trinta, em 1979/80…

Ficou curioso para saber o porquê?

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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