Notas sobre os meus trinta e seis

Na verdade seis. Apenas seis anos. Nasci aos trinta. O que havia antes, não sei. Gestei a mim mesma e recusei nascer antes por medo.

Vítima veste preto, come pouco e fala baixo. Pode passar de elegante entre os que nada têm dentro porque não é reconhecida.

Acontece, há quem receie ser feliz. Há quem receie ser livre porque a liberdade é imensidão. Poucos foram feitos para a imensidão.

Assim fui. Não sou mais. Triste mesmo é que não é toda a vida que se vive consciente. Talvez apenas alguns minutos. Com certeza só se faz café. O resto é dúvida de gosto amargo, mas que não se vive sem. Se se vive, é triste, torna-se inútil.

Foto: Roberto Naar.

De tudo o que fugi, fugi mais da inutilidade. Se desde cedo gravei versos a sangue é porque cri ter serventia a minha dor. Vaidade? Certamente. A utilidade tem a graça de conectar ao mundo. Sou útil, logo existo. Se muito útil, envaideço. Aprendi a rascunhar versos em uma máquina de escrever de teclas duras.

Entretanto, desde quando nasci, vivi lições, a grande pauta das religiões. Vivi porque tais lições me engoliram. No verbo aprender há um pouco de passividade, ter que ouvir parado e em silêncio e tal. No verbo viver é ser o próprio experimento. E ouve-se risinhos de fundo, como em toda banal sala de aula com sabichões e mulheres tristes.

Escrever é ser experimento. Veja bem, não é a escrita experimento, é o escritor.

Ouço risinhos dos que, ao contrário da aparência de desdém, sonham dilacerar-se em meu lugar. Escrever é dilacerar-se.

Covardes dizem ser a tristeza, neste caso, apenas prazer estético.

Convicções são pântanos. Viver de dúvidas tem lá suas vantagens. A primeira delas é impressionar-se para, ventos depois, cair no ostracismo de si mesmo. De espanto em espanto tornei minha forma de ver o mundo um lugar de aconchego.

Então, é preciso recomeçar apenas uma vez para se ter certeza de ser capaz de recomeçar sempre que for preciso. Recomeçar pode ser doloroso, mas pior é a sensação de jamais começar.

Outra coisa. Escolher o verbo certo em toda ação é privilégio. Na maior parte do tempo, ou a maior parte das pessoas, vive apenas de três verbos: comer, beber e rir. Escreveu Zafón, o argentino, que o mundo não acabará em guerra, mas de riso, de banalidade. Não parece Cioran? Parece Cioran dizendo isso, e rindo.

Não amadureço com sanidade sem Cioran. Não me torno elegante sem Bessa-Luís. Não sei de paixão sem Pondé. Três aedos meus chãos. Meios estranhos de me manter erguida.

É bom viver de inúmeros verbos. Conjugá-los em todas as pessoas. Ser subjetivo e ter alteridade. Eu sei, é demais para uma única vida.

Ainda Zafón também escreveu que uma das armadilhas da infância é que não é preciso compreender para sentir. É verdade, e nela mora a parte mais difícil dos meus anos: o perdão. Perdoe-se pelo que não pode decidir porque não soube elaborar. Sei bem que uma emoção pode trancar a porta por anos. A minha, por trinta. Por isso só seis anos de vida.

O perdão, contudo, não é estrela que um dia passa no céu escuro de uma vida triste e então torna tudo claro e feliz. Perdão não tem som, não brilha, não arrepia ou inspira. Perdão é desprendimento de toda a necessidade de justiça.

Sobre os amigos, é imprescindível desconfiar quando não houver liberdade para dizer não. Creia em mim: amigo é milagre.

Lidar com a inveja. Lidar porque fugir não há como. Inveja é como os cinco elementos da natureza. Como o ar está em tudo. Como água escapa. Como fogo deixa cicatrizes eternas. Na terra gemina e produz mais e mais.

Enfim, sobre o amor. O amor pode ser pecado ao mesmo tempo em que é sagrado? Pode ser graça quando é proibido? É metafísico? É místico? É religião? É mesmo Deus? O amor é quando não me enxergo mais?

O amor é um sentido autônomo. O único que dispensa outros sentidos. A lenda. Quem conta sobre o amor corre o risco de ser apenas um bom prosador.

Um tempo, amei um homem que notava os fios nas ruas, nos postes. Eu morria de medo e vergonha que notasse que em minha rua havia muitos. Na rua dele não havia. Libertei-me do medo da rejeição por coisas ínfimas. Grande mesmo é ver beleza em poste cheio de fios. Uma fotografia pode libertar, um verso pode libertar, um canto pode libertar. A arte é libertadora. Se se libertar, não volte a ser vítima. A maior parte das vezes, sim, é uma escolha.

Por fim, aconselho o enfeitar-se o tempo todo. É como mapear-se. Beleza é redenção. Principalmente as mínimas. É o meu único desejo kantiano. Desejo que se torne lei universal. A Beleza.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é jornalista e ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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