“O Abutre” e o espetáculo que se tornou a vida e a morte

Se Louis Bloom fosse uma pessoa real, e vivesse entre nós, possivelmente o acharíamos um tremendo de um esquisito. Logo no início de “O Abutre”, já dá para perceber que o personagem fabuloso, interpretado por Jake Gyllenhaal, relativiza ao máximo o conceito de normalidade. Afinal, o que é ser normal e quem é normal? Até o fim do longa, contudo, o espectador se surpreenderá muitas e muitas vezes.

O que é ótimo, do ponto de vista narrativo. O filme prende, causa indignação. Dirigido por Dan Gilroy, a produção concorreu injustamente em uma única categoria no Oscar 2015 – a de Melhor Roteiro Original. Mas é que a história de Louis Bloom é mesmo para mais do que uma única indicação. Poderia ter concorrido como Melhor Filme e Melhor Ator. Sem falar que se trata de uma crítica muito atual sobre o mundo “invasivo” no qual vivemos.

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Louis Bloom está sem trabalho. Enfrentando dificuldades para conseguir um novo emprego, percebe em um corriqueiro acidente de trânsito, na noite de Los Angeles, a chance de mudar sua vida. Ao observar um cinegrafista amador capturando cenas do acidente – e no breve diálogo que travam, quando descobre que essas imagens serão vendidas a um canal de televisão – Louis conclui ser capaz de encarar o trabalho e propõe ao videomaker ser seu assistente. O profissional, contudo, declina a proposta. Louis, então, sai à conquista de sua própria câmera e começa como freelancer.

Madrugada adentro, todos os dias, sem descolar os ouvidos de radioescutas da polícia, Louis entende que só ganha quem chega primeiro e quem for frio o suficiente para tirar o maior lucro da tragédia do outro. E é já a partir do primeiro registro que o rapaz se dá bem. O telejornal matutino dirigido por Nina Romina, personagem de Rene Russo, começa também a crescer em audiência. A ocasião fez o ladrão.

O “injustamente” citado acima é, primeiramente, porque Jake Gyllenhaal atua brilhantemente. O personagem cresce no desenrolar da trama e assistimos a um fato curiosíssimo, porém, familiar em nossa mídia ou comportamento diante da mídia. Pode ser que muitos espectadores sequer se espantem. Bom, é assistir para descobrir.

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O ator, que perdeu dez quilos para chegar ao perfil ideal de Louis, poderá causar certa compaixão no espectador – pela aparência raquítica e pela solidão que parece sentir. Ao recitar aforismos de gurus do empreendedorismo, quando busca firmar sua posição de profissional competente, faz parecer um talento autentico e dedicado que apenas não teve a sorte de encontrar uma oportunidade em sua vida. Mas o que revela é mais profundo.

A excelente direção de Gilroy fez de “O Abutre” um filme ágil e muitíssimo competente na empreitada de segurar o espectador. As cenas consomem a atenção como um abutre se alimenta da decomposição de qualquer cadáver. Assiste-se com vontade, com sabor. É impossível desligar-se um instante sequer. Louis avança insaciável em cima de qualquer acontecimento que possa lhe dar reconhecimento ou dinheiro. Ambicioso, tenta envolver Nina a cada strike na audiência. Falta de escrúpulos é algo que os unem diametralmente. Louis se alimenta do maior medo de Nina e a torna refém. Este, que não teme qualquer tipo de julgamento, se apresenta como o profissional mais competente, e não se importa em não apresentar, junto com suas credenciais, qualquer tipo de ética – este também um conceito tão relativo, principalmente quando se “apenas fazendo o seu trabalho”.

Tudo praticamente gira em torno da ética em “O Abutre”. Em um único episódio questiona-se a natureza do crime. Seu assistente Rick, vivido por Riz Ahmed, é culpado ou inocente, réu ou vítima? Louis deve ou não ser punido? “O Abutre” joga luz sobre o espetáculo que se tornou tudo, a vida e a morte, a onipresença da câmera e o seu poder mercantil. Um filme genial, instigante e aterrador.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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