O apartamento: sobre justiça, vingança e perdão

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Não sei escrever sobre o que não sei definir. Como se define o perdão?

É difícil. Principalmente quando qualquer ideia que se tenha sobre ele se dissolve na mais banal tentativa de colocá-la em prática. Ou seja, quando é preciso de fato perdoar alguém.

Menos difícil, penso, é quando quem tem que receber o perdão é você. Autoindulgência é mais fácil de alcançar do que os sentimentos do outro.

Esta reflexão é a maior das provocações do filme iraniano O apartamento, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017. Do diretor Asghar Farhadi, o longa conta a história do casal Emad e Rana, vividos respectivamente por Shahab Hosseini e Taraneh Alidoosti.

Em dia comum, suas vidas são transformadas depois de um alerta do prédio onde moram, que corre o risco de desabar. Obrigados a sair às pressas, Rana e Emad passam a morar provisoriamente em outro lugar. É nesse novo apartamento que Rana é surpreendida com a invasão de um estranho.

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Apesar de a sinopse divulgada ir mais longe, paro por aqui. A contingência é o estranho que entra em nossas vidas todos os dias e às vezes é capaz de mudar tudo para sempre. Mas exemplos são desnecessários. No caso do filme, qualquer segundo é elementar para entender o impacto do que nunca se espera. A contingência pode tanto vir em forma de desgraça quanto na forma de justiça ou perdão – por mais estranho que possa parecer.

O que se assiste em O apartamento é a natureza humana flutuando pelos vários níveis do que acreditamos nos tornar melhores ou piores: amor, impotência, vingança, justiça. É filme de gente grande, e não há ideologia capaz de explicar facilmente cada um desses sentimentos. Razão e emoção nem sempre andam juntas – ou quase nunca, para alguns – e travam verdadeira guerra quando o assunto é fazer valer o direito ao respeito, à lealdade, integridade física ou moral em qualquer grau, em detrimento da humanidade do outro: displicência, covardia, mau-caratismo, seja lá o que for.

Perdão – como o amor – é dos conceitos mais desejados, mas pouco levado a cabo, porque o perdão – como o amor – pode ser facilmente confundido com negação, amnésia, ou moeda para subjugar. Quem deseja o perdão de alguém pode decidir pagar o preço que for, quem tem que perdoar pode vir a se tornar tão cruel quanto quem errou. Ou: dá-lo sem castigo algum pode ser uma das maiores injustiças.

Mas a quem se dá o perdão, afinal? A um ser divino, ao próximo que errou ou por si mesmo, porque ainda mostra o quão superior você pode ser? Difícil. Há níveis de perdão? Quem já foi muito ferido tem o direito de não mais se compadecer com o erro alheio? E quanto é muito? Ou, como ouvi certa vez, perdão pode ser a maneira mais eficaz de se livrar de alguém. Neste último caso, é uma virtude nobre?

Assistir O apartamento e tentar se colocar no lugar dos principais personagens é exercício brutal de sinceridade: para consigo e com o mundo. Reconhecer os próprios limites nos torna menos arrogantes neste jogo que é viver, porque estamos tanto sujeitos a faltas mil, o que nos torna necessitados do perdão; ou menos dispostos a proferir teorias ilusórias sobre a nobreza de tal valor, quando na verdade queremos justiça.

E mais ainda, assistir O apartamento é entender que é impossível evitar a contingência. Aceitá-la tampouco é fácil, principalmente quando você não é merecedor, nem da injustiça, nem do perdão.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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