O Cinquentenário de Jornada nas Estrelas

Criada pelo roteirista e produtor norte-americano Gene Roddenberry (1921-1991), a franquia de seriados e de filmes “Jornada nas Estrelas” (Star Trek) ocupa um lugar de destaque no cenário cultural das últimas cinco décadas. O “Sal da Terra” (The Man Trap), quinto episódio produzido, foi exibido pela rede de televisão NBC em 8 de setembro de 1966, marcando a estreia da série original. Ao longo de três temporadas foram produzidos 79 episódios, tendo sido o último, “O Intruso” (Turnabout Intrude), exibido em 3 de junho de 1969.

A série original legou personagens e episódios que fazem parte do imaginário contemporâneo. Não acredito que existam muitas pessoas que desconheçam por completo o enredo do seriado, que narra algumas das missões da espaçonave USS Enterprise, da Federação Unida dos Planetas, sob o comando do capitão James T. Kirk, interpretado pelo ator William Shatner. Narrada por Shatner, acompanhada pela trilha sonora de Alexander Courage (1919-2008), a famosa chamada de abertura da série clássica resume o espírito de “Jornada nas Estrelas”:

“Espaço: a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise. Em sua missão de cinco anos… para explorar novos mundos… para pesquisar novas vidas… novas civilizações… audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”.

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De acordo com o próprio criador Gene Roddenberry, a série é um “Space Western”, um subgênero da ficção científica, do qual também fazem parte as sagas dos heróis Northwest Smith de Catherine L. Moore (1911-1987), Buck Rogers de Philip Francis Nowlan (1888-1940) e Flash Gordon de Alex Raymond (1909-1956). O estilo de cowboy espacial marcante no capitão Kirk em “Jornada nas Estrelas” foi utilizado por George Lucas para caracterizar a personagem Han Solo, interpretada por Harrison Ford, em “Guerra nas Estrelas” (Star Wars).

As estórias de faroeste faziam parte do universo de Gene Roddenbery pois, além de ter sido fã dos clássicos filmes do gênero do cineasta John Ford (1894-1973), foi roteirista do seriado “Paladino do Oeste” (Have Gun – Will Travel). Outra grande inspiração para a caracterização do capitão James Kirk e para a ideia de explorar “a fronteira final” foi uma personagem histórica: o então recém assassinado presidente norte-americano John F. Kennedy (1917-1963).

Como um herói do velho oeste, o presidente Kennedy era visto por parcela significativa dos cidadãos norte-americanos como defensor da justiça e da liberdade, alguém que se preocupava com as pessoas comuns. Assim como o cowboy Ronald Reagan (1911-2004) anos depois, a imagem política de John Kennedy transmitia para a maioria das pessoas os ideais de boa aparência, masculinidade, vigor juvenil e forte liderança. Mesmo tendo promovido algumas medidas mais progressistas, Kennedy foi indubitavelmente o último grande conservador do Partido Democrata, que, ao mesmo tempo em que defendia a paz, confrontou agressivamente o poderio comunista.

Ao lado do capitão James Kirk, a tripulação principal da Enterprise era formada pelo imediato e oficial de ciências Spock, pelo médico Leonard McCoy, pelo engenheiro-chefe Montgomery Scott, pela oficial chefe de comunicações Nyota Uhura, pelo piloto Hikaru Sulu e pelo navegador Pavel Chekov, este incluído na segunda temporada. Tais personagens foram interpretadas, respectivamente, pelos atores Leonard Nimoy (1931-2015), DeForest Kelley (1920-1999), James Doohan (1920-2005), Nichelle Nichols, George Takei e Walter Koenig.

Talvez uma parcela da audiência em nossos dias, acostumada com os avanços da computação gráfica e com o dinamismo introduzidos por “Guerra nas Estrelas”, não consiga apreciar a riqueza dos temas e diálogos da versão original de “Jornada nas Estrelas”, certamente por causa dos cenários e dos figurinos precários, bem como do ritmo da narrativa. Entretanto, os fãs do seriado clássico ainda o consideram insuperável por qualquer um dos spin-offs criados a partir dele.

O aclamado livro “Gilligan Unbound: Pop Culture in the Age of Globalization” de Paul A. Cantor argumenta que, juntamente com o seriado “A Ilha dos Birutas” (Gilligan’s Island), “Jornada nas Estrelas” é a melhor representação da ideologia democrática norte-americana. Por outro lado, a mesma obra defende que as séries “Os Simpsons” e “Arquivo X” (The X-Files) marcam o declínio cultural dos ideais do Estado-nação e o crescimento da desconfiança da maioria das pessoas em relação aos governantes e à própria identidade nacional.

Seria tarefa para um longo tratado acadêmico dissertar acerca da miríade de questões abordadas ao longo dos 79 episódios de “Jornada nas Estrelas”, pois estas tangenciam os campos da Teologia, da Filosofia, da História, da Sociologia, da Ciência Política, do Direito, das Relações Internacionais e da Ciência Econômica. Algumas estórias propiciam discussões acerca de diferentes temas morais e políticos cruciais para os nossos dias.

As narrativas e os diálogos dos episódios, com raras exceções, são excelentes. Um tema recorrente em diversas estórias é o conflito entre a chamada “Primeira Diretriz” da Federação Unida dos Planetas, que impede a tripulação de interferir em outras civilizações, e os ditames éticos que muitas vezes acarretam desta forma de omissão. Acima de qualquer temática específica, o núcleo das estórias está centrado nos ditames éticos pelos quais um verdadeiro líder deve orientar a ação prática e, também, em como a amizade verdadeira, o compromisso com a verdade e o senso de justiça estão acima das normas burocráticas.

Dentre as fontes que foram utilizadas por Gene Roddenberry na criação de “Jornada nas Estrelas”, além das supracitadas, devemos acrescentar o romance satírico “As Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift (1667-1745), a série de contos militares sobre o capitão Horatio Hornblower escritos por Cecil Scott Forester (1899-1966), as obras de ficção científica de Alfred Elton van Vogt (1912-2000) e o filme “O Planeta Proibido” (Forbidden Planet) do cineasta Fred M. Wilcox (1907-1964). O próprio Roddenberry definiu a série como sendo um “vagão de trem para as estrelas”, além de com senso de humor se referir em inúmeras ocasiões à personagem James Kirk como um “Horatio Hornblower do espaço”.

O já mencionado Paul A. Cantor, uma das maiores autoridades contemporâneas na obra de William Shakespeare (1564-1616), defende que existem inúmeros elementos shakespearianos em “Jornada nas Estrelas”. De fato, há uma combinação de tragédia e de comédia que perpassa algumas das aventuras da tripulação da Enterprise. O trio principal de personagens, formado pelo capitão Kirk, pelo Sr. Spock e pelo Dr. McCoy, representa os arquétipos de determinados tipos ideais que nos ajudam a compreender melhor a natureza humana, de modo análogo às peças do bardo inglês.

Provavelmente por causa de todas estas características aqui narradas, a série tenha atraído uma audiência não muito ampla quanto a esperada pela emissora de televisão, mas, ao mesmo tempo congregou um público extremamente qualificado. As mais de 6.000 cartas que chegavam por semana em apoio ao não cancelamento do seriado de televisão, demostram que “Jornada nas Estrelas” era assistido não apenas por jovens, mas também por adultos com elevada formação intelectual, incluindo cientistas, professores universitários, curadores de museus, engenheiros e muitos profissionais liberais, como psiquiatras, médicos e advogados.

Uma metodologia inapropriada para a medição da audiência foi o principal fator que levou o seriado a ser prematuramente cancelado. Ao longo da década de 1970, entretanto, devido às reprises na televisão e de novas técnicas de auferir a audiência, a série se tornou um sucesso de público, fazendo com que a franquia fosse ressuscitada com filmes e novas séries. O elenco clássico estrelou, também, seis longas metragens de Jornada nas Estrelas para o cinema, lançados entre 1979 e 1991.

Tal como relatado pelo “Livro Guinness dos Recordes”, a versão original de “Jornada nas Estrelas” foi a série que teve o maior número de spin-offs, tendo legado até o momento outras cinco séries e treze longa metragens para o cinema. Foram criadas duas temporadas de uma série animada, produzidas entre 1973 e 1974, tendo todo o elenco clássico exceto o alferes Chekov. Com novas tripulações e em séculos distintos da série clássica foram produzidas sete temporadas de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração” entre 1987 e 1994, sete temporadas de “Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine” de 1993 a 1999, sete temporadas de “Jornada nas Estrelas: Voyager” entre 1995 e 2001, e quatro temporadas de “Jornada nas Estrelas: Enterprise” de 2001 a 2005.

Além dos seis longas metragens com o elenco clássico, foram lançados entre 1994 e 2002, quatro filmes com as personagens de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”. O cancelamento prematuro durante a quarta temporada de “Jornada nas Estrelas: Enterprise”, em 2005, parecia marcar o fim definitivo da franquia. O lançamento dos filmes “Star Trek”, em 2009, e “Além da Escuridão: Star Trek”, em 2013, revitalizou o interesse da audiência pelo universo ficcional criado por Gene Roddenberry na década de 1960. As duas películas cinematográficas, dirigidas por J. J. Abrams, reúnem a tripulação clássica da Enterprise, interpretada por novos atores, em um universo paralelo numa época anterior às estórias da série clássica, mas com a carismática participação do recém falecido Leonard Nimoy no papel de um idoso Spock que veio do futuro.

No ano em que é celebrado o cinquentenário do lançamento do primeiro episódio de “Jornada nas Estrelas”, os fãs foram brindados com “Star Trek: Sem Fronteiras”, o terceiro filme desta nova fase, agora dirigido por Justin Lin. Já foi anunciada a produção para 2017 de um novo seriado da franquia, denominado “Star Trek: Discovery”. Aguardemos as novidades.

Após cinquenta anos, a franquia “Jornada nas Estrelas” não envelheceu. A narrativa das estórias, os diálogos e a caracterização das personagens, os cenários, os efeitos especiais e o ritmo das aventuras dos filmes mais recentes podem ser mais adequados para a audiência de nossos dias. Mas a série clássica ainda não perdeu a magia original nem o rico conteúdo de “imaginação moral”, definida pelo pensador Russell Kirk (1918-1994) como “o poder de percepção ética que atravessa as barreiras da experiência individual e de eventos momentâneos”, ao aspirar a “apreensão da ordem correta da alma e da ordem correta da comunidade política” e, simultaneamente, informar “sobre a dignidade da natureza humana”.

Por intermédio de metáforas, expressas em contos de fadas, romances, poemas, narrativas históricas ou reflexões filosóficas e teológicas, bem como de experiências concretas, descobrimos os padrões éticos que devem nortear os julgamentos morais na realidade cotidiana, orientando nossa ação. Em nossos dias, os filmes e seriados de televisão cumprem um importante papel nesse processo. Dentre as grandes produções televisivas e cinematográficas dotadas de “imaginação moral” se destaca “Jornada nas Estrelas”.

As diferentes narrativas de “Jornada nas Estrelas”, contudo, não devem ser assistidas apenas pelo caráter moralizante inerente, mas, principalmente, por serem uma sadia e divertida forma de entretenimento. Como um trekkie, que há anos se delicia com tais séries e filmes, espero que a franquia tenha uma “vida longa e próspera”.

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Leonard Nimoy, George Takei, Walter Koenig, James Doohan, DeForest Kelley e Nichelle Nichols, no filme “Jornada nas Estrelas: A Última Fronteira” (1989).

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Alex Catharino Written by:

Pesquisador do Russell Kirk Center for Cultural Renewal, gerente editorial do periódico COMMUNIO: Revista Internacional de Teologia e Cultura, e autor do livro "Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada".

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