Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais

A canção Casa no campo, escrita pelo compositor mineiro Tavito e o carioca Zé Rodrix, é conhecida na voz de Elis Regina, e inspira o seguinte aforismo.

Dizer adeus aos milhares nas estações. Às segundas-feiras que perturbam como sapato novo e como todo começo. Dizer adeus à sensação de não ser singular em meio ao mar de gente triste. Esse aperto no coração se esvairá como falsa paixão. Eu quero uma casa no campo. Onde eu possa escrever muitas histórias de amor.

Foto: arquivo pessoal. Exemplar de Anna Kariênina em russo.

Eu quero uma casa no campo. Onde eu possa ficar do tamanho da paz. Desejo não correr mais atrás. Daquela imagem que fiz de mim. Lá no alto, onde todos possam me ver. Ilusão. Privilégio mesmo é quem ao redor me vê como sou e me lê mesmo assim. Eu, le misérable.

Eu [só] quero uma casa no campo. Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé. Com paredes cor de grilo verde para ter sorte todo dia. Assim me veio em sonho uma vez. Cortinas cor de creme em tecido rústico. Eu só quero um lugar onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais. 

Pé de Mariana. Ser Tolstói da manhã ao anoitecer. Dar vida a uma nova Anna. E fazer dela a medida da paz. Um toca discos de madeira e vinis de Scott Matthews. Na mesa, café passado na hora em coador de pano que eu mesma vou lavar. Pingar o colírio diário olhando para o céu limpo. O único medo lá fora será o de escorregar nas folhas molhadas de orvalho. Terra úmida cheira paz e paz tem sabor de erva doce.

Eu quero o silêncio das línguas cansadas. Da minha língua e das línguas que cansarei de pousar em mim. Em minha casa no campo meu canto será como sacrifício. E ao acordar, tanto faz se for chuva ou sol. Tudo será o Deus vivo.

“Próxima estação: Sé.”
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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