Patrícia Melo: “O ciumento geralmente tem um ego esburacado”

Quem nunca sentiu ciúme, que atire a primeira pedra. O ciúme, essa força vulcânica que parece ser incontrolável chega sem pedir licença e sem levar em consideração o merecimento do terror que irrompe nas emoções. O ciúme é democrático, é incontrolável, é destruidor. A escritora e dramaturga Patrícia Melo tratou o tema em seu romance Valsa Negra e por isso conversa com a FAUSTO com exclusividade. Com mais de dez livros publicados, possui um Prêmio Jabuti pelo romance Inferno, além de ter escrito várias peças de teatro e séries de televisão. Se pensa que está livre do ciúme, não comemore muito. Seja ele cultural ou próprio da natureza humana, pouco importa quando chega e se instala.

Patrícia Melo. Foto: Adriano Heitmenn.

FAUSTO – Haverá – um dia, talvez – outra fonte de inspiração tão rica para a literatura do que a natureza humana?
Patrícia Melo: Na epígrafe do meu romance Matador, uso uma frase do dramaturgo e poeta Terêncio, que diz: Homo sum: nihil humani a me alienum puto. Sou homem: nada do que é humano me é alheio. A natureza humana é ambígua. Ao mesmo tempo em que nos parece conhecida, está sempre nos surpreendendo. Nossa capacidade de criação é igual a nossa capacidade destruição. Como inspiração para a literatura, além de fascinante e assustador, o tema é inesgotável.

Às vezes penso que o ciúme é como um iceberg. O que chamamos de ciúme é apenas a ponta, aquilo que vemos. Só que submerso existe uma imensidão de sentimentos, nem sempre fáceis de identificar. Ainda que falemos muito sobre ciúme, é difícil descer fundo às suas raízes?
Para escrever Valsa Negra tive que pesquisar um bocado. Não há paixão mais violenta e não é à toa que este é um tema tão recorrente na literatura. Há uma definição de ciúme de Schopenhauer que gosto muito: Eifersucht ist eine Leidenschaft die mit Eifer sucht was Leiden schaft. Traduzindo, sem a beleza do jogo de palavras do original, seria: O ciúme é uma paixão que busca com sofreguidão o que lhe provoca sofrimento. Há certamente um componente patológico em certo tipo de ciúme que, na minha opinião, está ligado a um processo de autodestruição. O ciumento geralmente tem um ego esburacado. Alguém que o ama, na sua percepção contaminada pela sua baixa autoestima, não pode ser uma boa pessoa, uma pessoa confiável. Mais ou menos como aquela história: não entro em clube que me aceita como sócio.

 

 

Refletindo sobre o maestro, personagem de seu romance Valsa Negra, me ocorreu que ciúme está mais para a inveja do que para o amor. O que acha?
Creio que o ciúme está mais para o ódio. Há nele uma força destrutiva imensa. No amor, mesmo em crise, há diálogo. O ciúme, na sua dimensão patológica, é o fim do diálogo. Mesmo porque o ciumento cria uma realidade interna – suspeitas, possibilidades, traições – que independe da realidade dos fatos.

Ciúme é cultural ou inerente à natureza humana?
As sociedades patriarcais, misóginas, são um ambiente perfeito para o desenvolvimento da patologia. Não é à toa que o Brasil, hoje, é um dos países com maiores índices de feminicídios.

Acredita que um dia deixaremos de ser ciumentos?
Não. Mas acredito numa sociedade onde há direitos iguais. Onde há o cumprimento das leis, onde há justiça, o ciúme provoca menos estrago.

O ciúme do homem é diferente do ciúme da mulher?
Sim. Geralmente, não há no ciúme feminino o componente violência. O homem ciumento pode matar. A mulher, geralmente, não.

Por que o ciumento precisa da constatação de suas suspeitas para ficar em paz? Por que seus movimentos são sempre rumo ao pior e não à solução pacífica?
É nesse sentido que Schopenhauer explica o ciúme com maestria. É como se todo o tormento do ciúme fosse “prazer” para o ciumento. Seu movimento está orientado para a autodestruição, e nesse sentido, a paz, o diálogo, a construção de pontes não lhe servem para nada. Claro que aqui estamos sempre falando da dimensão patológica do ciúme.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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