Por que Tolstói vive há 190 anos?

Em 2018, comemoramos 190 anos do nascimento de Liev Tolstói.

Os grandes romances que escreveu – Guerra e Paz, Anna Kariênina e Ressurreição – não figuram entre as obras-primas da Literatura Universal apenas porque são histórias interessantíssimas, mas, principalmente, porque dizem sobre a natureza humana. Não a natureza do outro – ainda que possa vir a ser a natureza do outro –, mas a nossa.

Obras-primas da Literatura são então como espelhos. Ou melhor! Obras-primas da Literatura formam parte de nossa consciência.

Liev Tolstói.

No julgamento de George Steiner, crítico literário francês, quem dedicou uma obra inteira a comparar Tolstói e Dostoiévski – sem a finalidade de eleger o melhor, evidentemente – é possível considerar a “totalidade de vida” nesses três romances.

A totalidade da vida! Que exagero mais preciso, esse de Steiner!

Já Vladimir Nabokov, outro russo, autor de Lolita, elegeu Tolstói como “o maior prosador russo”.

Cremos ser possível dizer que ele é mais. Mais porque a própria “alma russa” é mais. Expansiva, expressiva, excruciante.

Excruciante! Interessante é também a própria ideia de “alma russa”. Aspiração de todos aqueles que, condenados pela geografia, encontram amparo na liberdade poética.

Por isso soa quase como um conluio essa coisa com Tolstói, porque não há quem se posicione contra o seu status. Ou há, mas apenas por predileção.

O pungente é o labirinto das emoções, parece que não há fim e dá vertigem. Nem todos apreciam isso. Porque Isso é vida real. Excruciante.

Mesmo o crítico russo Nicolai Mikhailovski, mencionado por Isaiah Berlin, quando classifica Tolstói como um “mau pensador”, ainda assim o exalta como prosador.

Em Ressurreição é o pensador sobre o amor que é sofrimento. Há um tipo de dor que se provoca em quem se ama que acaba por renortear a vida. É minúcia tão en passant, astuta, às vezes privilégio, quase sempre penúria.

Evidentemente, apenas o talento de contar histórias não bastaria para destacá-lo como o maior, principalmente porque houve e há outros escritores tão magistrais quanto: o próprio Fiódor Dostoiévski, Nikolai Gógol, Maksim Górki, Anton Tchekhov e Ivan Turguêniev, só para ficar entre os russos.

Então, qual seria o “diferencial” de Tolstói?

Um deles, certamente, é sua capacidade extraordinária de não deixar passar os temas que calam fundo na alma, temas como vida e morte, amor, paixão, pecado, perdão e, principalmente, redenção.

Parece simples, mas não é. Tolstói, neste caso, é como Bach nos cânones 1 e 2 de sua Oferenda Musical. Ou seja, os estados de nossa natureza podem ser lidos como acontecem – evolução ou involução, linearmente – mas também podem ser lidos de outras formas: de trás para frente, sobrepostos, ou em várias vozes simultâneas. Tolstói é o Bach das letras.

Tolstói soube como poucos que só quem vive consciente de sua própria insuficiência é incapaz de se orgulhar de qualquer progresso, moral ou seja lá o que for, porque sabe a força destruidora, por exemplo, de um simples cacho de cabelo.

Isaiah Berlin também diz sobre esse diferencial de Tolstói: “o que faz a excelência dos bons escritores é a capacidade de enxergar a verdade, social e individual, material e espiritual, e apresentá-la de modo que se torne impossível se esquivar a ela.”

Anna Kariênina falou a adúlteras ao longo de pouco mais de um século. Mas falou também àquelas quem sonharam com um amor vivíssimo, ainda que dilacerante, mas porque eram mulheres fiéis, como Dolly, só poderiam mesmo suspirar ao folhear cada página e, no fim, absolver Anna de seu pecado.

São muitas vozes, lineares e vacilantes, contraditórias em si mesmas, vozes incompreensíveis, confusas, vozes de choro e até mesmo vozes que não dizem nada. Pierre, de Guerra e Paz, em sua insegurança de filho não legítimo, o que dizia?

Por tudo isso então vozes humanas.

O que Isaiah Berlin quis dizer é que as experiências do escritor, seu caráter e seus sentimentos, permitem que a escrita “diga a verdade a um nível suficientemente profundo”. Leia outra vez e reflita minutos.

O que leva os leitores, inevitavelmente, a “questões morais fundamentais”. Mais uma pausa.

O que, por sua vez, os leitores não poderão respondê-las sem uma “autoanálise rigorosa e dolorosa.”

É, não poderão.

Alguém que exige de si mesmo experiências verdadeiras para então assim escrever é claro que passa a ter espectro muito maior de assuntos. E não só. Assuntos que são capazes de “enriquecer consciências”, como observou Steiner.

E não é a cilada de nosso tempo a “tentação da facilidade, da vulgaridade e do conforto efêmero”, como apontou o francês?

Por isso é que Tolstói continua vivíssimo. E necessário. Profeta ou apenas um homem profundo.

Não houve em suas letras comiseração pelos mais fracos, houve participação na dor. Não houve emoções melodramáticas sobre os grandes dramas humanos, houve a consciência de um papel a desempenhar.

Ainda que sejamos apenas pó, soprados por ventos que não têm rumo predestinado por Deus, na perspectiva de Tolstói podemos e devemos viver para além de nós mesmos.

Ainda que as situações que Tolstói narre em suas ficções tenham lições morais – exequíveis em todo o tempo, enquanto houver vida humana sobre a terra -, elas quase nunca deixam também de pontuar a inutilidade da busca pela vida perfeita. Ou não como a buscamos.

A vida perfeita para Tolstói é aquela em que nos deixamos de lado por amor a alguém.

Ainda que nem em Tolstói haja uma saída, em Tolstói ao menos não devemos abrir mão de nossas obrigações. E isso, claro, já é muito!

 

Dedicamos a Gustavo Filippi.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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