Rick Bonadio: “Não tenho o poder de decidir o que vai dar certo”

Fama de mau. Temido. Entendedor de música e fazedor de estrelas. Rick Bonadio é um dos nomes mais famosos entre os produtores musicais brasileiros e por várias razões. Pelas citadas acima, sem dúvida, mas principalmente pelos artistas que carrega no currículo. Dos Mamonas Assassinas foi o grande descobridor e responsável por jogar um dos maiores jatos de luz da história da música nacional. Um fenômeno! Mas tem mais: Titãs, Ultraje a Rigor, Los Hermanos, Charlie Brown Jr., Tihuana, CPM22, Planta & Raiz, Luiza Possi, Manu Gavassi, Rouge, Br’oz, IRA!, e por aí vai. Como diretor geral da Virgin Records Brasil, de 1997 a 2001, abriu as portas do país para nomes como: Backstreet Boys, Spice Girls, Britney Spears, Manu Chao, Lenny Kravitz, entre outros. Aos 43 anos, Rick então é produtor, compositor, músico e empresário. E é no Midas, hoje, considerado um dos maiores estúdios de gravação do país, que Bonadio dirige os seus artistas. Pela grande massa, Rick é conhecido por ter sido jurado de duas edições do programa Popstars, no SBT, em 2002 e 2003, e parte do quadro “Olha a Minha Banda”, do Caldeirão do Huck, na Rede Globo. Atencioso com o Eliana de Castro, Rick Bonadio conversa sobre cultura pop e um pouco de suas particularidades. Nada mau e nem de mau.

Rick Bonadio

Eliana de Castro: O que é extremamente fundamental para ser um sucesso de mercado: sorte, competência, oferecer o tipo de letra – mais que o tipo de ritmo – que as pessoas estão buscando no momento que estão vivendo ou simplesmente algo que nem você, em tantos anos de carreira, ainda consegue descrever com exatidão porque tem algo de sobrenatural, de zeitgeist?
Rick Bonadio: O sucesso está no destino de alguns artistas. Claro que é preciso ter talento e lutar muito, ser profissional, entre outras coisas. Mas acredito em estrela. O inexplicável faz a pessoa atingir o sucesso e a minha função é encontrar pessoas que tenham esse destino.

Eliana de Castro: Entender as tendências musicais que estão rolando em outros países ajuda a emplacar alguém no Brasil ou nossa cultura é impenetrável no que se refere ao consumo de música?
Rick Bonadio: O Brasil segue um pouco as tendências mundiais em alguns estilos. O pop, o dance e até mesmo o rock refletem o que está acontecendo no mundo. Mas o Brasil sempre encontra um jeito de fazer os estilos de um jeito mais local. Existe assim o rock brasileiro o pop, e assim por diante.

Eliana de Castro: O desejo de ser um artista famoso, aqui no Brasil, tem um pouco a ver com o igual desejo de muitos moleques em ser jogador de futebol; no caso, mais ligado ao culto às celebridades, às facilidades que derivam do “ser famoso” e, claro, ao dinheiro “fácil”, do que propriamente ao talento que a pessoa acredita ter?
Rick Bonadio: Acredito que primeiro nasce o gosto pela música. O talento é descoberto depois e logo a seguir, naturalmente, vem a vontade de tocar ou cantar para um grande público e de fazer sucesso. Claro que ser uma celebridade também faz parte dos desejos dos artistas. Uns mais outros menos.

Eliana de Castro: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Esse ditado popular se aplica a quem tenta a todo o custo viver de música?
Rick Bonadio: Não necessariamente. Mas viver de música hoje pode ser de várias formas. Até mesmo sendo produtor (risos). Vale ser feliz e viver próximo da música. Quem tem a música dentro da alma não será feliz fazendo outra coisa.

Eliana de Castro: Por quais razões é tão difícil emplacar um ídolo pop – no estilo pop music e não do termo popular – no Brasil? Se buscarmos na memória, talvez quem mais chegou perto foi o Vinny, nos anos 1990. Embora o Latino talvez possamos considerar como, no começo da carreira, uma proposta de pop music. Hoje, Wanessa tenta, mais voltado para o electro e cantando em inglês, mas ainda não temos um nome que represente o estilo – talvez seja ousado equiparar – Usher ou Justin Timberlake…
Rick Bonadio: O Brasil tem o seu próprio pop, não dá para comparar com os Estados Unidos. Aqui o rock é pop, o sertanejo está cada vez mais pop e o funk hoje em dia faz o papel do pop. É uma questão cultural, não temos Ushers e Justins aos rodos tentando carreira na música brasileira.

Eliana de Castro: O mundo jamais conhecerá artistas como Michael Jackson e Madonna?
Rick Bonadio: Sim, conhecerá, mas com certeza fazendo outro tipo de música.

Eliana de Castro: Você tem o hábito de ouvir tudo e ver tudo? Ou não mais?
Rick Bonadio: Sim eu ouço e vejo de tudo, shows aqui e fora do Brasil.

Eliana de Castro: O que faria diferente, por exemplo, no que a Miley Cyrus tem apresentado como proposta para gerar identidade?
Rick Bonadio: Sou suspeito porque sou um grande fã dela. Acredito que tudo está sendo feito muito bem e ela tem um talento absurdo. Será uma das grandes artistas do pop mundial em breve e ficará muito tempo no auge. Ela canta muito, é bonita, dança, interpreta e ainda faz rap! Talento de sobra.

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Eliana de Castro: Se o seu próximo projeto fosse produzir o disco novo do Justin Timberlake, hipoteticamente falando, o que um possivelmente aprenderia com o outro?
Rick Bonadio: (Dá risadas) Isso é coisa do momento, não dá pra viajar assim…

Eliana de Castro: Quem o emociona?
Rick Bonadio: Os Beach Boys.

Eliana de Castro: Consegue lembrar do exato momento em que começou a se tornar quem você é hoje, profissionalmente falando, do tipo, se não fosse aquilo, ou aquela pessoa, ou estar naquela hora naquele lugar, hoje teria sido tudo diferente?
Rick Bonadio: Foi quando entrei na Rádio Jovem Pan com uma demo na mão e o Arnaldo Sacomani me atendeu por engano. Ele me incentivou muito e até cheguei a gravar um disco de rap, em 1986. Foi ali que tudo começou.

Eliana de Castro: A posição que você ocupa o coloca hoje quase como um gênio da lâmpada mágica, alguém capaz de tornar um sonho real. Essa posição o incomoda?
Rick Bonadio: Não incomoda, mas gera muita responsabilidade. As pessoas muitas vezes acreditam que eu tenho o poder de decidir o que vai dar certo e o que não vai. Claro que não é assim. Se eu tivesse esse poder, eu estaria rico!

Eliana de Castro: Não sei se você viu o filme do Woody Allen “Meia-Noite em Paris”, mas se você fosse o personagem principal e pudesse voltar a um determinado tempo, em uma determinada gravação, qual indubitavelmente assistiria?
Rick Bonadio: Gostaria de ver a gravação do primeiro disco dos Beastie Boys, “Licensed to Ill”, com produção do Rick Rubin.

Eliana de Castro: No mais íntimo de suas emoções, qual música toca hoje?
Rick Bonadio: Kendrick Lamar e SchoolBoy Q.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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