Roberto Naar: “Novelas têm o poder de reunir pessoas”

Bebel e Olavo, Petruchio e Catarina, Babalu e Raí, Jade e Lucas, Raj e Maya, Ana Raio e Zé Trovão, Juma e Jove. São muitos os casais que o Brasil não esquece. E todos são de novelas de grande sucesso. Brasileiro ama novela, brasileiro acredita em final feliz, brasileiro deseja viver um amor com música-tema. Mais um convidado da Série Amor Amor, exclusividade FAUSTORoberto Naar conta um pouco de sua experiência de mais de 35 anos atrás das câmeras como diretor de televisão – desde a TV Manchete à Rede Globo – e reflete sobre o único tema que não pode faltar numa boa trama. Em seu currículo, nada mais nada menos do que Pantanal, Ana Raio e Zé Trovão, História de Amor, Porto dos Milagres, Por Amor, A Favorita, entre outras. Enfim, uma reflexão por quem ajudou a construir a mais popular e brasileira forma de falar de amor.

Roberto Naar.

FAUSTO – Por que gostamos tanto de novela?
Roberto Naar: Gostamos de ouvir histórias. Ponto. Isso é indiscutível. Voltamos para aquele papo chavão de sentar em círculo ao redor de uma fogueira para contar e ouvir histórias. Creio que durante muito tempo – um pouco ainda hoje, embora não como antes – a novela cumpria esse papel.

Qual era esse papel?
Novelas têm o poder de reunir pessoas. Reunir em volta da fogueira, que nesse caso é a TV. Fundamentalmente é isso. Hoje, feliz ou infelizmente, elas não impõem mais esse poder. Como o mundo mudou, elas não desempenham mais esse papel.

Novelas são reflexos da vida ou revelam a vida como gostaríamos que fosse? Neal Gabler, no maravilhoso livro Vida, o filme, escreveu que o fascínio é devido à edição.
São as duas coisas. E concordo com ele. Quando contamos uma história, deixamos a rotina dos personagens de lado, não mostramos a louça para lavar, às vezes até o trabalho do personagem não mostramos. O que conta são outras coisas.

Quais coisas?
O que gostaríamos que fosse. Ao mesmo tempo, a novela nos ensina, por exemplo, o que é amar. Vamos voltar um pouco no tempo. O cinema dos anos 1950 nos ensinou determinada forma de amar, que passava, inclusive, por comportamentos como fumar um cigarro de forma elegante, ouvir um jazz – ou algo do gênero. Isso aconteceu, aliás, muito depois da tal invenção do amor romântico. Aprendemos então a criar um romance, aprendemos a colocar o disco na vitrola. Na década de 1950, quando um homem se oferecia para acender o cigarro de uma mulher, ela tinha determinada forma de deixar que ele acendesse esse cigarro. Ela colocava suas mãos sobre as mãos dele para chegar mais perto. Ele sentia o toque dela e então acendia o cigarro. Acendia o “fogo”. Então, somos treinados pelo cinema, pelas novelas, pela música.

Faz total sentido isso de acender o cigarro!
Quem me ensinou isso foi a Marília Pêra.

Um dos segredos da sedução é o enquadramento?
Ah, sim. Passa pelo enquadramento. O melhor lugar da festa, a melhor luz… Mesmo que não nos demos conta disso. A aproximação pelo baixar da voz… Conheci um cara, época de colégio, cujo melhor truque de sedução era ir falando cada vez mais baixo. Um dia perguntei por que fazia isso e ele respondeu: “Assim, a menina é obrigada a chegar mais perto.” Ou seja, eles entravam em quadro.

Qual foi a primeira história de amor que você gravou?
A de Juma e Jove, Pantanal, do Benedito Ruy Barbosa. Foram vividos por Marcos Winter e Cristiana Oliveira, a Crica.

Nesses 35 anos dirigindo novelas, quais foram as grandes mudanças na forma de contar histórias de amor? Se é que mudou alguma coisa…
Poderíamos falar de edição, algo mais técnico, mas creio que o “miolo” não mudou absolutamente nada. Voltando para o Neal Gabler, estamos procurando uma forma de deixar de fora as coisas que atrapalham as histórias de amor. Fazemos isso todos os dias na vida real também. E é cada vez mais difícil, na verdade, nos concentrarmos no que vivemos porque somos invadidos o tempo todo por tanta coisa.

Ainda hoje esperamos finais felizes? Mesmo sabendo que na vida real é mentira.
Quem disse que é mentira?

O que há depois do “e foram felizes para sempre?”
Existe um final que nunca contamos. E esse final não é necessariamente a rotina ou a “maldição” do cotidiano. O “e foram felizes para sempre” pode ser o começo da mudança do amor. Um psicanalista, com quem conversei há um tempo atrás, me disse que acreditava na transição do amor apaixonado para o amor companheiro. Eu, sinceramente, acho um pouco careta, mas gosto muito de pensar que o Woody Allen compartilha dessa mesma noção. Em determinado filme, que não me lembro agora, a esposa vira para ele muito revoltada e diz: “Você não é mais apaixonado por mim!” Aí ele responde: “Claro que não, estamos casados há 20 anos, se eu fosse apaixonado por você até hoje, eu teria morrido de infarto.” Depois do “e foram felizes para sempre” começa uma mudança.

Se essa mudança fosse contada numa novela daria ibope?
Boa pergunta… Acho que o cinema cumpre esse papel.

Porque gostamos de ver – e viver – o tormento…
Uma boa história precisa de conflitos. Nesse caso os conflitos seriam outros…

E talvez descambaria no tédio…
Não exatamente. Talvez só descambasse na ausência de um conflito maior. Ou nos tipos de obstáculos. O que separa esses dois apaixonados? Juma e Jove tiveram que enfrentar tanta coisa para terminar juntos. E um dos grandes baratos da novela é a repetição. Não dá, tentam de novo. Não dá, tentam de novo. E quando dá, acaba a novela.

Você hoje é psicanalista, então vale a pergunta: há pessoas viciadas em conflitos?
Sem dúvida. Há pessoas viciadas em tudo, na verdade. Há pessoas que não aceitam, por exemplo, que o amor pode dar certo. Provocando você de volta quando me perguntou o que acontece depois do “e foram felizes para sempre”. Quem disse que é impossível?

Não é ingênuo esperar viver um amor típico de novela?
Não, não acho. O que acho é que é cada vez mais raro. Porque tudo é cada vez mais rápido, tudo é cada vez mais volátil. Mas eu acredito no amor. E num relacionamento que dure. E no “e foram felizes para sempre”.

Há uma preparação especial dos atores antes da gravação das cenas mais dramáticas?
Hoje até há, mas no meu tempo não havia preparação alguma. A televisão sempre foi o meio da velocidade. Fazendo uma comparação: um longa é gravado, em média, de seis a oito semanas; na televisão produzimos a mesma quantidade de cenas em dois dias.

Qual é o maior desafio quando se transforma texto em imagem?
A interpretação. Existe um enorme mal-entendido com as palavras interpretação e atuação. Costumamos dizer: “Ele está interpretando tão bem!” Não, ele está atuando bem. Interpretar depende de muitas outras pessoas. Depende do ator, interpretando o texto em casa, quando o lê na tentativa de compreender o que vai dizer através daquele texto. Depende do diretor que vai interpretar o texto segundo suas ideias, segundo sua maneira de ver aquela situação. Depende do diretor de fotografia, do diretor de arte. Não assistimos, por exemplo, a cenas de rompimento em plena luz do dia, com o sol brilhando e flores em volta. O rompimento é sempre em dias de chuva e o encontro na primavera. Há um filme que gosto muito, Frankie e Johnny, com o Al Pacino e a Michelle Pfeiffer. Eles ficam naquele vai-não-vai; ela é muito resistente, ele é muito agressivo, apesar de romântico e sedutor é impetuoso, e ela fica sempre na defensiva. Tudo fica assim até o primeiro beijo. E quando acontece esse primeiro beijo, eles estão atrás de um caminhão. Quando as portas de trás do caminhão se abrem de uma só vez, vemos que se trata de um caminhão de flores. É uma das cenas de beijo mais lindas que já vi. Percebe? A interpretação, nessa cena, dependeu do diretor de arte, do diretor geral… Um lugar completamente inóspito se transformou em um lindo jardim.

Há conversas periódicas entre o diretor e o autor?
Diariamente.

Você dirigiu minha novela preferida – História de Amor, Manoel Carlos, 1995, 1996.  Eu era simplesmente apaixonada pela personagem Paula, vivida pela Carolina Ferraz, porque ela era impetuosa, vivia um amor visceral pelo Carlos, vivido pelo José Mayer. O contraponto, a Helena – Regina Duarte – revelava um amor mais maduro, tranquilo, também pelo Carlos. Veja bem, eu tinha 12, 13 anos, mas me lembro de que eu me comparava com uma e depois com a outra para tentar me “encaixar”. Novelas também são “espelhos”, ajudam na autodescoberta? Novelas têm essa função?
Qual é a função do espelho para você?

O espelho me ajuda a me perceber. Como eu sou? Quem eu sou é uma pergunta para ser respondida em longo prazo, mas como eu sou, o que me impacta… A Paula me despertava a vontade de ser como ela, ao mesmo tempo em que a Helena me mostrava o meu lado doce, gentil, mas um lado que eu odiava em mim, naquela época. Agora, aqui, refletindo com você, talvez eu acreditasse que jamais viveria um grande amor se eu fosse uma pessoa doce…
Olha que coisa bonita. A novela funciona como um espelho. O Manoel Carlos é um autor muito hábil. Há quem diga que ele é o Chico Buarque das telenovelas, que ele entende e descreve a mulher como poucos. O que o Maneco fez naquela novela foi apresentar a você duas formas de amar complementares, ou dois tipos de mulheres que poderiam se complementar. Não eram antíteses, não eram contraditórias, eram, sim, complementares. Vai saber por que aos 13 anos você odiava o seu lado plácido e gostava mais do seu lado revolucionário, mas fora essa brincadeira, que é algo típico de uma pré-adolescente, o Maneco apresenta as possibilidades. E é essa a forma como o ser humano se constitui, através do olhar do outro. Olha que lindo.

Nesses tempos de politicamente correto, colocar uma função nas novelas é amarrar a criatividade?
A função acaba sendo uma consequência. Agora, ter a novela como um meio é péssimo, péssimo. Como consequência, a novela já teve uma função gigantesca, tanto aqui, no Brasil, como fora.

Por exemplo?
Novelas brasileiras em Cuba mudaram estruturas sociais. A ideia dos paladares, restaurantes conhecidos em Havana, que é quando você vai almoçar ou jantar na casa de alguém e paga por isso, é de uma novela brasileira, Vale Tudo. As novelas brasileiras eram discutidas em Cuba. Eles assistiam ao capítulo e no final desligavam a televisão para discuti-lo, sob a ótica socioeconômica, cultural e política do país. Mas a novela não teve essa preocupação. Eu, dirigindo, não pensava que eu tinha que mudar qualquer coisa em Cuba. [Dá risada]

Seria muito chato se tivesse que ser assim…
Chato e inócuo. Simplesmente não aconteceria.

Uma verdadeira história de amor está acima da moral? Podemos pensar em vários personagens imorais, por exemplo, Bebel e Ovalo, de Paraíso Tropical.
O amor pode às vezes romper barreiras, quebrar paradigmas, até estar acima da moral. se isso é justificável ou correto, é outra enorme discussão.

 

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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