“Sabrina”: da singeleza pueril à segurança divertida

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Em “A Princesa e o Plebeu” (1953), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz, Audrey Hepburn (1929-1993) ganharia Hollywood e o mundo, e a partir de então seria um sucesso após o outro. Ou a maior parte deles seria um sucesso. Em seus 30 filmes, Audrey sempre foi muito bem recebida. Pudera! Ícone de estilo e elegância, além do talento como atriz, nos bastidores encantava por sua cultura, mulher poliglota, dos ares aristocráticos, além de bastante benevolente. A atriz seria, até sua morte, aos 63 anos, irresistível. Um modelo para muitas mulheres. “Sabrina” (1954), entre todos os títulos de sua filmografia, talvez seja um dos melhores. Uma joia do cinema para rever e se deixar encantar por vários motivos: belos cenários, figurinos elegantes, trilha sonora atemporal e, claro, o roteiro gracioso.

A bonequinha de luxo, apelido que pegou depois do filme “Breakfast at Tiffany’s” (1961), de Truman Capote (1924-1984), esbanjou graça e um tipo de sedução diferente na pele da filha do motorista de uma família rica. Baseado em uma peça de teatro, “Sabrina” é uma comédia dramática estrelada também por Humphrey Bogart (1899-1957). Eles são Sabrina e Linus. Que química! O olhar atraído de Bogart quase o desmoraliza, porque o seu sexappel é o do selvagem. Bogart e Bacall, vale até citar, formam a composição mais sexual da história do cinema (alguém aponta outra?).

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Vale citar porque o clima nas gravações de “Sabrina” não foi dos melhores. Bogart e Hepburn mal se falavam. E Bogart tentou de todo o jeito fazer com que Lauren Bacall (1924-2014) fosse a atriz principal. Inimaginável, para muitos. Ou para todos que amaram “Sabrina”. Lauren apresentava outro tipo de beleza, aquela selvagem, da mulher destemida, que causa medo e por isso atrai, magnetiza. Audrey e sua simpatia adoçava o olhar. Sabrina voltou de Paris outra mulher. E só Audrey faria essa transposição com tanta naturalidade, da singeleza pueril para uma segurança divertida. A segurança divertida (e não boba) que combinou perfeitamente com o olhar de Bogart (que jamais seria de um bobo).

Sabrina é filha do motorista Fairchild da família Larrabee, cujos dois herdeiros são os jovens David, o caçula playboy incorrigível; e Linus, o mais velho de sobrenome trabalho. A pobre, apaixonada por David, se desfalece a cada baile em que seu amado surge com alguma namorada, sempre mulheres lindas e ricas. Seu pai, um homem honrado, preocupado com o futuro de sua filha, resolve mandá-la para Paris, para estudar, a fim de que outra perspectiva se abra em sua vida. Sabrina sofre ainda mais com a notícia.

Assista ao trailer de “Sabrina”!

A beleza do filme está nas sutilezas. Como consegue ser interessante sem apelos. Como consegue falar tantas verdades apenas pelo olhar dos atores. A diferença de classes, a paixão não correspondida, o quanto não importa o quanto se galgue posições ou se adquira encantos, as relações – nem sempre amorosas – são estabelecidas pelos interesses. Audrey brilha quando sabe se sentir pequena por seu status, e mais ainda pela incapacidade de ser bela, atraente para o seu amor, e assim deseja a morte. O exagero de suas emoções, que é até divertidamente retratado na cena da garagem com todos os carros ligados e seus combustíveis poluentes, é um jeito gracioso de contar como é assim que todo mundo se sente ao ver alguém a quem se ama com outro alguém. E não discurso de autoestima que resolva. É a dor do amor.

“Sabrina” apresenta uma mulher interessante, diante do amor, assumindo posturas que toda mulher assume ao estar apaixonada. Suas pequenas posturas, contudo, é que dão o tom de dignidade que a tornam grande, apaixonante. Para Linus e para nós, até hoje.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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