Sinto dizer, Pedro Herz, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional é dos paulistanos

O interfone tocou quase quatro da tarde. O envelope molhado e um pouco sujo era pela chuva que caia. São Paulo, terra da garoa, é também terra alucinada dos quatro tempos, que tumultua com jeitinho particular a vida de seus milhões.

Rasgo o envelope, vendo a chuva cair pela janela, e dentro está um exemplar de O livreiro, de Pedro Herz, dono da Livraria Cultura.

Pedro Herz.

Apenas 24 horas depois, o livro foi lido todinho e abraçado escondido. É empolgante assim? Não, é mais.

O que Pedro Herz faz é tornar-nos ainda mais donos da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Porque, sinto muito, caríssimo Pedro, todo paulistano é dono do seu dito espaço. Peço, contudo, que não nos julgue ladrões assim, quaisquer.

Não a tomamos por rebeldia, não. Tomamos por amor. Tomamos porque não é possível ser paulistano sem ela. Ela, abrigo para a solidão, ponto de encontro de amigos, de amores, de parceiros de trabalho, ponto de encontro com Deus. Quem nunca rezou em algum canto, segurando qualquer livro, que atire a primeira pedra. Em nome de Jesus, de Tolstói, de Hesse ou Roth, cada paulistano, pelo menos uma vez, se largou exausto de ser paulistano, de se sentir sozinho, de esperar que um milagre o tornasse talvez o seu personagem preferido. Não mais o inseto de Kafka.

Caro Pedro, o senhor apenas administra o santuário de todo paulistano que não sai de casa sem o seu livro sagrado.

Deuses se revelam ali, brincam de amarelinha em seu tapete xadrez. Os deuses gregos, os dos filósofos; o deus dos católicos, dos protestantes, o deus dos que fogem de religião. Possivelmente, a própria Literatura, a Grande Deusa.

Grande… Eva. O que O livreiro dá de presente a todos que vivem no pedacinho do céu em meio ao caos é a mulher que fugida da guerra responde ao mal com Literatura. Grande dama! Que resposta melhor para dar ao mundo que grita a não ser o silêncio de quem sabe ler.

Caro, Pedro. Ao publicar O livreiro, sinto dizer, o senhor perde de vez o que, sim, foi seu. Agora, todo paulistano também entrou em sua vida particular, em suas memórias, na casa da rua Augusta, número 2.557.

Não tem mais volta. Agora, todos nós seremos capazes de ver Eva ali, como vemos a bela Daisy Buchanan de Fitzgerald, Nástienka, de Dostoiévski e a personagem preferida de cada um que pisa no chão da sua história.

Que todo brasileiro em visita à cidade caótica e apaixonante que chamamos de nossa conheça a nossa livraria e saiba que Eva, criação de Deus, construiu um novo paraíso.

Sinto dizer, de nós paulistanos.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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