Sobre a Lua e a solidão

Quando estou só, converso com os mortos. Mais ainda de noite. Mais e mais ainda se tiver Lua. Converso muito com Tolstói sobre Anna e sobre Deus. Mas é verdade que gosto mesmo é de conversar com Cioran. Se tem Lua, Cioran me faz companhia e conversa sobre solidão. Um tipo distinto.

Foto: Roberto Naar.

Pode parecer estranha qualquer ideia de solidão com Lua e com os mortos. Mas há tanto o que dizer que nem sobra tempo para pensar. E a Lua dá lugar ao Sol sem sequer pedir licença. Não que deva, é claro. É tão elegante que entra e sai sem se fazer notar, mas nunca deixa de dizer a que veio.

Lua é convite para abrir a alma. E quando abrimos não queremos mais fechar. Com os vivos ou com os mortos. Com Tolstói ou Cioran. Alma é para se abrir com cerimônia. Alma é para se abrir com quem sabe fazer mesura.

A solidão que combina com a Lua, essa nunca faz chorar. Ou faz chorar de beleza. Já chorou de beleza? Nunca mais chore de dor, chore só de beleza. Nem que tenha de correr às pressas atrás de céu em tons de laranja e rosa. Se for Lua minguante, imagine-a nua.

Tolstói quando via Deus, sem dúvida chorava. Eu? Choro à toa. Quando vejo a Lua, quando falo com mortos. Aprendi tarde, mas aprendi: não insisto em ninguém, só no Belo, nos astros rei e rainha, nos meus mortos ou mortos que ainda não li. Não insisto em ninguém vivo. Insisto nos mortos.

Os vivos têm de viver à vontade, como eu vivo. Vivo à vontade e de vontades que me devoram. Os mortos me devoram. Tolstói, Cioran. Dia desses foi Nabokov. Outro russo, outro morto. Lascivo! Ele não me viu Lolita não. Não foi por isso que me devorou. Foi porque me ensinava Literatura. Ele arde dando aula. Também falamos sobre Anna.

Aprendi a deixar ir. Não penso mais em ausências, só nos excessos. E acessível sou apenas aos mortos. Desista de me alcançar. Talvez eu me deixe entrar quando eu me tornar letrinhas minúsculas, uma frase inesquecível como a das famílias infelizes à sua maneira. Serei uma morta de pérolas e perfume amadeirado.

Seria eu espécie de lobisomem? Loba, fêmea da Lua? Fêmea no cio, ele me disse certa vez. Se ouvir um gemido aí então, de seu mundo, sou eu conversando com um morto. É prazer quase místico. Tolstói, Cioran, Nabokov.

Não sei dizer não por qual razão é assim. Sei que solidão que se preze não é falta de qualquer gente. É na verdade falta de quem alcança bem lá no fundo.
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Dedico a Anthonio Jorge.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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