“Sono de Inverno”: o silêncio das palavras

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Chama-se hibernação o estado letárgico pelo qual os animais ficam inativos, conservando energia, gastando o absoluto necessário para a sobrevivência, sobretudo no inverno. É também no inverno que Aydin, um ator aposentado turco, herdeiro de algumas propriedades na Capadócia, entre elas o hotel em que reside, forçado a reclusão pelo clima austero da estação, entrará em choque moral com sua jovem esposa, Nihal e sua irmã Necla. “Hibernando”, terá que refletir sobre sua própria conduta. “Sono de Inverno” (2014) venceu a Palma de Ouro de Cannes 2014. O diretor, Nuri Bilge Ceylan, tido por alguns como um “Antonioni turco”, já havia levado o prêmio do júri no festival por “Era uma vez em Anatólia”. O turco tem em comum ao diretor da incomunicabilidade o ritmo cadenciado. A questão da comunicação surge de outra forma.

O espectador que resistir as mais de três horas de filme, dominadas por longos diálogos, será brindado com reflexões profundas sobre a moral, a dominação e a luta constantes dos mais fortes com os mais fracos, em referências a Tolstoy, Dostoyevsky e Voltaire. O cenário duro da Capadócia, onde a equipe filmou por dois meses – outro mês de filmagem ocorreu em estúdio, em Istambul –, porém rico em história, tendo sido povoado pelas mais distintas civilizações, emolduram com perfeição essas discussões filosóficas.

Aydin, sendo herdeiro e um bem sucedido ator, além de escritor para revistas, exerce sem culpa seu poder sobre sua família e seus inquilinos de vilarejos mais distantes, pessoas com vidas errantes, poucas esperanças e oportunidades. Esse super homem nietzchiniano se defende com uma armadura ética, de quem teve direitos, trabalhou e construiu.

Porém “Sono de Inverno” não é exatamente um estudo de personagem. Todos do entorno de Aydin, ele incluso, usam um falso altruísmo como arma para conquistar aquilo que realmente almejam: orgulho, dominação, controle ou liberdade. É na riqueza dos diálogos que as intenções e personalidades de cada um se revelam cada vez mais ambíguas e humanas. A grandiosidade do roteiro pode ser medida em números: suas quase 300 páginas, tendo levado seis meses para ser escrito. E ele cresce em qualidade, nos gestos, palavras e rostos dos atores, sobretudo Haluk Bilginer, que assim como seu personagem, vem do teatro.

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A coprodução entre países está em alta na Europa e “Sono de Inverno” não foge disso. Turquia, França e Alemanha emprestaram cenários à produção. O filme obteve aporte de 450 mil euros através do Eurimages, um conselho Europeu de Cinema, alternativo ao Euromedia, com similaridades ao nosso Ibermedia. O fundo criado em 1989 contempla exclusivamente coproduções cinematográficas, sendo longas de ficção, documentários e animações. As produções inscritas devem ter pelo menos um país membro do fundo, sendo que hoje somam 47, e já ter captado ao menos 50% do orçamento total, tratando-se, portanto, de um financiamento complementar, que pode atender a produção, a distribuição e mesmo a digitalização da obra, que no momento da inscrição precisa ter um distribuidor ou uma pré-venda em televisão, garantindo assim a exibição da obra e bom uso do fundo.

Os resultados são mais que positivos e não pense que se restringe a nomes pouco conhecidos. O vencedor do Oscar do ano passado “A Grande Beleza” foi contemplado pelo fundo, assim como o novo filme de seu diretor, Paolo Sorrentino, “Il Futuro”; o filme dos irmãos Dardenne que recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, “Dois Dias, Uma Noite”; e mesmo o polêmico “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, recebeu um aporte. Em torno de 20 milhões de euros contemplam por volta de 70 produções, em chamadas trimestrais. Sono de Inverno tem estreia prevista para o segundo semestre de 2015, distribuído pela Pandora.

Denise Balesteros Written by:

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