Taty Aguiar: “O mercado tomou conta do poder existente na música”

Tudo o que se relaciona a ela é mais intenso e profundo. Ela, Taty Aguiar, relações públicas, DJ e produtora de trilhas sonoras. Considerada a melhor DJ mulher do Brasil em 2008 pela “DJ Sound Awards”, a maior premiação de música eletrônica do País, recentemente levou à banca da pós-graduação em Jornalismo Cultural da FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado a pesquisa “Ritmos Brasileiros e Tribais na Música Eletrônica”. Dos pick-ups às discussões acadêmicas, mergulhou no universo da Música, o que para ela sempre foi muito mais do que entretenimento. “Nunca me encantou a ideia de fazer por fazer, ou fazer porque é simplesmente legal.” Para coroar a dissertação, produziu o EP “Love Connection”, no qual prioriza a música eletrônica percussiva e conta com participações de Lan Lanh, Guga Machado, Ramilson Maia, Deeplick e Mad Zoo. O projeto sonoro, lançado pelo selo Remash Me, possui uma forte conexão espiritual e, segundo a produtora, é a sua “maior experiência pessoal”. Com exclusividade para o Eliana de Castro, Taty Aguiar fala sobre “Love Connection” e a dissertação que em breve vai virar um livro. Embarque nesta experiência!

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Eliana de Castro – Há uma ideia em Hegel de que a experiência de um compositor nunca é puramente musical, mas pessoal e social. Concorda?
Taty Aguiar: Muito legal trazer a filosofia de Hegel, sendo ele um alemão. O país é considerado berço da música eletrônica, já que de lá saíram nomes importantíssimos para o desenvolvimento da cena, como o Kraftwerk, por exemplo.

Voltando à pergunta, sim, concordo. Acredito que o compositor leva em consideração os aspectos socioculturais de sua época, e, em igual ou maior medida, a sua posição dentro desse contexto. Ainda que não dê conta disso. E um fato relevante aqui, é que a tecnologia presente em nossa época alterou completamente e de modo irreversível a forma como nos relacionamos com a música não apenas no que diz respeito à composição, mas também às possíveis e variadas formas de experimentá-la.

Claro que a questão em Hegel é mais profunda; toda a efervescência de um dado período social advém de um processo histórico que se vê identificado na música – música essa que é produzida por um artista que está imerso, querendo ou não, nessa mesma realidade. A construção do “eu”, seja de um artista ou pessoa comum, não é uma atividade inteiramente ativa, onde o sujeito define para si para o que compõe ou não sua identidade; é também uma atividade passiva, onde as influências externas têm sua participação. Desse modo, o compositor se utiliza de toda essa bagagem e formação interior para gestar as suas ideias. No momento da concepção de uma obra musical, o Geist hegeliano, processa e sintetiza todo esse repertório – consciente ou inconscientemente, creio eu.

Qual foi a experiência pessoal que desejou passar com “Love Connection”?
Love Connection é um E.P que prioriza a música eletrônica percussiva. Encontrei nisso uma forte conexão espiritual, transcendental e de amor. Essa é, sem dúvida, a maior experiência pessoal que desejei passar.

E social?
A experiência colaborativa que acredito ser a tônica dessa nova era e a mistura da música eletrônica com sons tribais e orgânicos. Chamo de “nova era” esse jeito novo de nos relacionarmos que está surgindo. Talvez nada ainda seja muito evidente, mas é claro que esse movimento está acontecendo no mundo. A criatividade nos torna mais unidos. Temas como economia criativa são recorrentes hoje em dia, pois, a velha forma de realizar as coisas está ficando para trás. Todas essas crises econômicas, sociais, ambientais, contribuíram para fazer nascer nas pessoas interesses mais profundos.

Essas pressões estão despertando novos valores nos indivíduos. Hoje em dia, todo mundo quer se sentir conectado a algo maior; todo mundo sabe que a sua ação impacta diretamente no todo; todo mundo tem o desejo que estabelecer um estilo de vida que traga mais realização, espiritual, me arrisco a dizer. E com o termo espiritual faço zero referência a qualquer tipo religião. Espiritual no sentido de conexão mesmo, consigo e com os outros.

Claro que ao dizer todo mundo, posso estar generalizando, mas acredito de verdade que esse seja um movimento sem volta. Essa experiência social está refletida nos financiamentos colaborativos que crescem cada dia mais, nos compartilhamentos das redes sociais, nas novas ações de marketing das empresas, entre várias outras coisas. No E.P, conto com a participação de artistas maravilhosos. Sem eles o trabalho não seria tão incrível e, digo mais, não seria nem possível. Essa é a grande força. O trabalho de produzir música eletrônica muitas vezes é solitário, é a relação do artista com um computador. Em diversas situações não existe a fisicalidade de um instrumento, de mais pessoas envolvidas fazendo a coisa acontecer. Existe muito preconceito na cena no fato de você lançar algo em colaboração ou com bastante gente. É como se existisse algo a se provar: se você não lança nada sozinho, é porque não sabe nada. Acaba restando muito ego e pouca coisa que valha a pena escutar. Claro que não é geral e para a nossa sorte isso representa uma parcela que está ficando cada vez menor. A única coisa que realmente quero provar, e digo isso no sentido pessoal, é a Love Connection, a conexão de amor. Cada dia mais.

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O mercado tomou conta desse “poder” que a música tem de levar ao sagrado?
O mercado tomou conta de todos os poderes existentes na música. E alguns ele tratou de esconder. A indústria musical produz muito mais com a intenção de entreter do que com a intenção de levar à uma experiência sagrada. E esse poder (sagrado) acaba por subverter-se em alienação. Existe uma citação do John Blacking que diz: “o fazer musical é um tipo especial de ação social que pode ter importantes consequências para os outros tipos de ação social. A música não é apenas reflexiva, mas também gerativa, tanto como sistema cultural quanto capacidade humana”. A indústria da música entendeu direitinho isso e manobrou tudo de forma a fazer valer seus interesses, sobretudo econômicos. Mas tenho estado otimista e não olho só o mercado, acho que o lado do artista tem muita força. Isto é, existem aí pelo menos três situações: o artista dentro de um mercado que dita as regras; o artista fora disso, sem tal influência ou sem o desejo de fazer parte do que convém aos interesses do mercado; e o artista que acaba por ditar as regras ao mercado. E o mercado que fique ligado, pois essa última situação tem cada vez mais potencial para se realizar. Principalmente se levarmos em consideração o poder de expressão proporcionado pelas redes sociais. Nesse ponto, acho que a mercado, por interesse próprio, vai deixar a música revelar o seu poder de conduzir ao sagrado, por assim dizer. Só que aí, estaremos em outro nível de evolução. Oremos então pelos verdadeiros artistas libertadores da humanidade (ri).

De onde veio a ideia de escrever a dissertação acadêmica “Ritmos Brasileiros e Tribais na Música Eletrônica”?
Veio de muitas forças internas. Tenho mania de estudar sobre tudo o que faço. Minha carreira de DJ sempre teve um peso enorme na minha formação pessoal e, por esse motivo, não poderia deixar de ir a fundo nisso. Nunca me encantou a ideia de fazer por fazer, ou fazer porque é simplesmente legal. Gosto de saber o porque faço aquilo, qual impacto que minha atividade tem nas pessoas, no mundo, no universo; como aquilo pode contribuir positivamente na vida dos outros e na sociedade; quem veio antes de mim e o que estava acontecendo; quem já pensou sobre isso e o que pensou; qual a função da música e como potencializar isso.

Na época, eu estava passando por um momento espiritual muito profundo e a música percussiva falou muito forte em mim. Posso somar à essa espiritualidade o fato de que sou brasileira e a influência música tribal advinda das tribos indígenas e afro-brasileiras estão no meu próprio DNA. A música brasileira tem essa aura de magia. Eu estava em uma pós-graduação de Jornalismo Cultural e precisava harmonizar meu interesse por música e cultura. Como gosto de várias áreas de conhecimento: sociologia, filosofia, antropologia, estudos culturais, semiologia, entre outras, esse tema me permitiu abranger tudo isso.

Convivo com músicos incríveis que me inspiram a cada dia e, portanto, acabam por me influenciar. Também acredito que falta mais estudo, mais conhecimento, mais teoria e mais luz nos caminhos da música eletrônica, no sentido de responder questões como “o que estamos fazendo”, “qual nossa identidade dentro desse fenômeno da música eletrônica, que é global por excelência”, “como criar algo novo sem reproduzir o que vem de fora”, “como contribuir positivamente para a reconstrução da identidade brasileira sem deixar morrer coisas tão valiosas na nossa tradição”, “como fazer a diferença”. Temos coisas maravilhosas acontecendo na cena eletrônica e pouca gente falando ou dando valor a isso, pelo menos com a seriedade que merece. A teoria precisa acompanhar a prática para não ficar tão para trás. E é preciso tomar cuidado, pois música eletrônica tem a tendência de estar sempre associada a festa, loucura, drogas e superficialidade. E não é nada disso. Pelo menos no que depender de mim, não é.

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Pretende transformá-la em uma publicação voltada ao leitor geral?
Sim, é um sonho! E já estou andando com isso. Talvez não com a velocidade que gostaria, mas estou no caminho. Isso é o que importa. E quero incluir novas pesquisas também. Meu Deus, vai dar um trabalhão.

Vê a música como um instrumento curativo?
Totalmente. A música tem esse poder. Claro que existem muitos aspectos que poderiam ser abordados nessa questão, como as frequências vibracionais, os estilos musicais, as harmonias, as letras. Não sou expert no tema, mas sei que ainda são tímidas as pesquisas sobre os efeitos da música no tratamento de doenças. Isso acontece, não tenho dúvidas. Nem precisamos ir tão longe, até casos de doenças graves. Tem aquele ditado que diz que de louco todo mundo tem um pouco, não é isso?

Então, a música opera nesse sentido como um elemento tranquilizar, por exemplo, impactando diretamente no nível emocional das pessoas. Algumas, são um verdadeiro passaporte para se vivenciar uma experiência transcendental, caso é o caso da música xamânica. Vale destacar que, essencialmente o que se busca na experiência transcendental, é justamente a cura. Algumas pessoas podem falar do uso de psicoativos, porém, grande parte dos neo-xamanistas, da linhagem do antropólogo Michael Harner, se posicionam “contra” o uso de substâncias para favorecer qualquer “viagem” – e aqui, subentende-se um estado alterado de consciência. Toda a força está na música e encaro isso como uma grande evolução. O que existe de mais forte nesses rituais são as curas realizadas – seja por uma reintegração completa do ser, pela expulsão de “espíritos ruins” ou pelo “resgate de alma”. Tudo isso dentro do universo xamânico, reforço. Mas, como esse mundo pode ser um tabu ou parecer assustador para muitas pessoas, vamos falar de coisas mais simples: a música pode nos elevar e simplesmente nos deixar felizes. E isso, já é um grande passo para a cura de qualquer coisa.

Ouça agora mesmo “Love Connection”: http://smarturl.it/LoveConnection

Taty-Aguiar

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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