The Post: nem um, nem outro

The Post, de Steven Spielberg, não é um filme feminista. Ponto. Pode se frustrar quem for ao cinema esperando que o pouco mostrado da vida de Kay Graham, a dona do Washington Post, seja algo inspirador. Porque não é.

Diferente também de Spotlight, filme de 2015, The Post não é um filme empolgante sobre jornalismo. Ponto. Daí nem precisa dizer sobre Todos os homens do presidente, de 1976, certo? O clássico.

The Post.

Concluo então que o filme não é bom nos dois grandes temas que mais disseram que ele é bom? Não sei. Por minha ótica hermenêutica, sem dúvida.

O tanto de expectativa com que se vai ao cinema, interfere, é claro, na opinião “oficial” sobre o filme – ainda que esse “oficial” seja apenas para dizer aos amigos ou escrever uma ligeira resenha nas redes sociais.

Caixa_Belas_Artes

Era mesmo alta minha expectativa para ver The Post porque, sim, esperei de Meryl a inspiração para aquela semana estranha. A segunda razão, mais óbvia: sou jornalista.

Acontece mais do que se assume. Cinema é o simulacro, já disse Baudrillard, e digo que é o simulacro do coração, acariciado como bom pecado, quase uma esperança de que o tempo ali no escuro não apenas suspenda nossa realidade como a transforme, como um milagre.

Então, sem dúvida, fui vítima de dois sedutores: o próprio cinema e a mídia que hoje quase tudo baliza pela santíssima trindade: racismo, feminismos e luta de classes. Só me dei conta disso ao fim, quando frustrada saí do cinema pensando onde foi que errei? Ou melhor: o que foi que não entendi.

Não havia nada para entender em relação a isso. Ponto. Mas aí, tem outra coisa, esperar que ícones de qualquer área sejam modelos de conduta para acertarmos em nossas escolhas é infantil. Tão infantil que só me liberto de um tanto de vergonha porque torno público.

Nem Graham, nem Calcutá. Se o feminismo elege ícones, tira dessas mulheres a liberdade de errar, de ser humana, de voltar em suas escolhas, de titubear, de chorar a qualquer momento e, principalmente, de amar.

O que vi em The Post, em Meryl, foi uma mulher que sentiu mais inseguranças do que deveria, em sua posição, mas não entendi como uma questão de gênero. Homens podem ser tão inseguros quanto e convivo com alguns deles, em posições semelhantes, todos os dias. O feminismo dito, ali, era só o humano sendo humano.

 

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Comments are closed.