Thiago Pethit: “O fundamental não fica datado”

Falar de Thiago Pethit hoje é falar de música de vanguarda, de um artista que explora múltiplas linguagens e que mais do que um cantor ele é um criador de conteúdo. Alguém que está de olho no mundo e interessado em interferir nele. “Mais para destruir do que para construir”, como ele gosta de falar. Aos 29 anos, com dois discos gravados, “Berlim, Texas” (2010) e “Estrela Decadente” (2012), Pethit é aquele tipo de pessoa que não para nunca. Sua fala é cheia de referências e suas opiniões claramente bem estruturadas. Mesmo que pareça ácido em algumas colocações, o que pode intimidar em um primeiro momento, ele não passa de um belo rapaz cuja perspicácia e capacidade de codificar os sinais do cotidiano o tornam singular. Ele está à frente de seu tempo, se assim podemos descrevê-lo. Há apenas seis anos na carreira musical, tendo vindo do teatro e de suas limitadas áreas de atuação, o mundo que se abriu para Pethit o tem transformado completamente. E esse é só o começo, porque suas ideias não têm limites, sempre munidas de um certo cinismo. A literatura o inspira e o cinema proporciona à sua música deixas criativas para setlists memoráveis, como o que fez com as músicas dos filmes de David Lynch. Sobre tudo isso – e até astrologia – o cantor falou com o Eliana de Castro em um encontro exclusivo e envolvente.

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Eliana de Castro: É evidente a diferença do álbum “Berlim, Texas”, de 2010, para o “Estrela Decadente”, de 2012. Você também está interiormente tão diferente assim?
Thiago Pethit: Sinto que mudei muito, mas claramente é o Thiago. Não me transformei em alguém tão distante do que eu já era. Mas aconteceram, nesse meio tempo, algumas transformações na minha vida. Os últimos seis anos, precisamente quando comecei a trabalhar com música, foram anos muito turbulentos. Acabei de fazer 29 anos. Finalmente terminei o meu retorno de Saturno. Dos 25 aos 30, talvez seja um período turbulento na vida de todo mundo. Então, além de ter passado por essa fase “dos 25 aos 30”, tem todas essas mudanças ligadas à carreira musical. Foi tudo muito rápido. E tudo isso mexeu muito comigo, tanto para o bem quanto para o mal.

Eliana de Castro: O que foi para o bem?
Thiago Pethit: Me tornei uma pessoa muito mais madura, mais responsável. Descobri potencialidades que jamais tinha imaginado ter. Me descobri um fazedor de muitas coisas. Sou eu que gerencio tudo, que crio tudo. Até começar a fazer música, tenho a sensação de que eu vivia em coma, porque me sentia pouco conectado com o mundo, com a minha geração, com amigos da minha idade. Não sentia que eu tinha capacidade de construir coisas. Me via muito dependente dos grupos de teatro nos quais eu poderia trabalhar, dos diretores, das escolhas do mundo em relação a mim e não das minhas escolhas em relação ao mundo. De repente, me vi dando um giro de 180 graus. Agora, sou dono de um negócio só meu, que diz respeito só a mim. Arte é meio isso, algo que ninguém precisa, não para sobreviver literalmente. Então, viver de arte é: você está colocando no mundo um monte de coisas que o mundo não está pedindo, não está precisando, mas você monta uma mega estrutura para levantar o negócio que você quer. Não interessa, como no meu caso, quem vai ouvir ou não.

Eliana de Castro: Quando você fala isso de não precisar da arte é interessante porque… Nós precisamos, não é? É meio freudiano isso… De a arte ser uma fuga da realidade, um meio de preencher espaços que a vida cotidiana não satisfaz. E a partir do momento que você produz algo e isso cria identidade em outra pessoa, que ela se reconhece naquilo que você fez, de certa forma é uma responsabilidade também, não acha?
Thiago Pethit: Não diria que é uma responsabilidade, mas entendo que exista um lado que a palavra responsabilidade cabe bem. Neste caso, sou responsável em interferir no mundo. Isso não quer dizer que eu esteja usando a minha arte para construir coisas positivas ou belas. Por isso a palavra responsabilidade aqui é bastante perigosa. Esses dias li algo sensacional: “o rock morreu quando ganhou a responsabilidade de salvar o mundo”. Na verdade, o rock nasceu para destruir, para acabar com tudo aquilo que era considerado padrão. Então, sinto que tenho a responsabilidade de interferir no mundo. Mais para destruir do que para construir. E outras vezes para construir em cima de algo que foi destruído.

Eliana de Castro: Vê isso como contracultura?
Thiago Pethit: É muito difícil falar de contracultura hoje em dia. Esse é um dos maiores dilemas da minha geração. Algumas coisas pararam de fazer sentido. Quando passamos dos anos 70 para os anos 80, a contracultura também foi englobada pelo capitalismo. Ela também virou um artefato cultural. Ou seja, existe uma cultura vigente e aí vem algo que luta contra essa cultura, até que essa contracultura vira cultura. E hoje em dia é o que vivemos. Trabalho com muitos conceitos que um dia foram chamados de contracultura, mas que hoje em dia é cultura.

Eliana de Castro: O que sua carreira contribuiu para o mal?
Thiago Pethit: De algum jeito perdi minha ingenuidade. Me tornei uma pessoa maculada. É muito difícil ser artista, para mim, pelo menos. Trabalhar com coisas tão pessoais. Fiquei muito mais exposto. Eu tenho todos os distúrbios que se pode imaginar, desde pequeno. E eles só pioraram nos últimos seis anos. Não consigo dormir, não me alimento direito, tenho obsessão com magreza, tenho sociofobia e estou cada vez mais sociofóbico. Lidar com a vida pública e com a pessoal tem sido doloroso.

Eliana de Castro: Faz terapia?
Thiago Pethit: Há 20 anos (Ri alto).

Eliana de Castro: Gosta?
Thiago Pethit: Amo! Já ganhei alta três vezes, mas não consigo parar! (Ri alto).

Eliana de Castro: Toda essa carga emocional você consegue canalizar bem para a sua arte?
Thiago Pethit: Sim. Costumo dizer que arte não é terapia, por isso faço terapia. Arte, para mim, toca nas minhas feridas e não para me melhorar. Muitas vezes é para piorar. A arte vem também das feridas. O álbum “Estrela Decadente” foi todo sobre feridas. Minha arte vem dessas loucurinhas. Da minha cabeça complicada.

Eliana de Castro: Mais por curiosidade… Qual é o seu signo?
Thiago Pethit: Virgem, com ascendente em Capricórnio e Lua em Virgem. Sou o neurótico e paranóico em pessoa (ri alto). Racionalizo muito as coisas, mas não sinto que isso me torna uma pessoa fria… Bom, (pensa um pouco) sinto que não tenho um coração, né? Ou meu coração fica na minha cabeça. Uma vez a Anelis Assumpção, filha do [compositor] Itamar Assumpção, me disse que ele, que era do signo de Virgem com Lua em Virgem, tinha uma sensação – que eu me identifiquei profundamente – de que não relaxava nunca. Sinto exatamente isso. Nunca estou relaxado, mesmo quando estou relaxado.

Confira o videoclipe de “Moon”!



Eliana de Castro: Parece uma pergunta cretina, porque pressupõe-se que todo artista quer ser um estouro, vender muito, ser muito famoso, mas… Você tem esse sonho?
Thiago Pethit: Não. (Pensativo) É que também é muito difícil conceituar o que é estourar hoje em dia. Não tenho vontade de ser uma Ivete Sangalo, por exemplo. De ir ao Faustão. Aliás, não é nem vontade, é talento! Não falo de ser bom o suficiente para ser convidado a ir ao Faustão, mas de ser bom para fazer uma boa participação no palco. Não sou engraçado nesse tipo de situação, não sou espontâneo, não tenho talento mesmo. Então, não tenho esse sonho. Mas preciso ganhar dinheiro. Costumo até falar que hoje em dia não consigo gostar de nenhum artista que não seja minimamente cínico. Com o trabalho, com o dinheiro, com a vida… Não dá para pensar em ser artista e achar que arte também não é fetiche. Uma vez que se tabela o preço e que se vende, é produto. E produto é fetiche. É claro que a arte está além desse produto, e ela não precisa ser consumida em termos materiais, mas a verdade é que precisa, do ponto de vista do artista que tem que ter seu ganha pão. Isso é, se ele não quiser viver as custas do estado e de editais. Saber e lidar com isso, já é necessariamente ser um pouco cínico. Eu tenho esse cinismo. Ou talvez exista uma palavra melhor para isso.

Eliana de Castro: O que é mais cansativo no mainstream?
Thiago Pethit: Mais os meios do que os artistas. Alguns artistas não gosto de ouvir, mas acho interessante por alguma razão…

Eliana de Castro: Por exemplo?
Thiago Pethit: Anitta.

Eliana de Castro: Você gosta de ouvi-la?
Thiago Pethit: Não gosto, mas acho um fenômeno interessante. Como acho todas as “popozudas”. A Valesca Popozuda, por exemplo. Ela é um gênio. Ultra feminista. De um jeito completamente contracultural. E é mainstream. Agora, o meio onde tudo isso circula, a TV, o rádio… Não vejo a hora de tudo morrer. O mundo novo está pedindo outros espaços. Até porque esses artistas que estamos falando, que nasceram dos anos 2000 para cá, já são artistas do novo mundo, que é o da Internet, que não precisam mais da TV. As coisas acontecem no Facebook. Esse novo mundo está pedindo essa passagem.

Eliana de Castro: A literatura te inspira? Quais são seus autores preferidos?
Thiago Pethit: Muito! Julio Cortázar, mais do que qualquer outro. Tenho algumas obsessões. Por exemplo, quando descubro um cineasta e me identifico, ou mesmo um escritor ou músico, ele vira o meu preferido durante seis meses. Leio, vejo e ouço tudo. Até que venha outra obsessão. Fui obcecado a vida toda pelo Cortázar. O George Bataille também em algum momento da minha vida mexeu muito comigo. Gosto da Anaïs Nin e da Hilda Hilst.

Eliana de Castro: Sua relação com o cinema é bastante estreita?
Thiago Pethit: Sou um cinéfilo total! Quando criança, eu achava que ia me tornar um diretor de cinema. Sempre fui cinéfilo, de ver todos os tipos de filme. Agora, cada vez mais gosto menos dos blockbusters, que foram ficando muito parecidos. E amo todos os filmes do Gus Van Sant.

Eliana de Castro: E o setlist com as músicas dos filmes do David Lynch, de onde surgiu a ideia?
Thiago Pethit: Quando eu estava gravando o “Estrela Decadente”, mais de uma vez aconteceu de eu falar: “ah, essa guitarra é meio David Lynch”. E quando eu estava pensando no título do disco, pesquisei um pouco os títulos dos filmes do Lynch, um pouco sobre o universo do Lynch e aí surgiu o título do disco, “Estrela Decadente”. Aí, por uma casualidade, inclui no repertório do show “I Put a Spell on You”, que é uma música conhecida na voz da Nina Simone, mas que é do Screamin’ Jay Hawkins. Então, inclui essa música e pouco tempo depois coloquei “Wicked Game”, do Chris Isaak. E numa viagem da turnê, o meu guitarrista me fez ouvir uma música e falou: “você precisa cantar essa música um dia”. E era “In Dreams”, do Roy Orbison. E aí, quando caiu a ficha… “Meu, tenho que criar um repertório com músicas do universo do Lynch, que tem tudo a ver comigo”. É mais difícil eu me inspirar em outras sonoridades, outras bandas. É mais fácil eu me inspirar em universos. Por exemplo, eu amo o Elvis Presley, mas eu não amo o Elvis por si só, gosto do Elvis dentro do universo do Lynch, que é outra coisa.

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Eliana de Castro: Voltando àquele episódio do Feliciano, você acha que tem que desempenhar um papel político-social?
Thiago Pethit: Odeio essa ideia de batalhar por causas. Odeio, odeio, odeio. Odeio a patrulha, odeio a patrulha da patrulha. Odeio quem patrulha, odeio os que não patrulham. Odeio esse mundo no qual você tem que estar envolvido. Acho tudo isso um saco, antigo, ultrapassado, não leva a lugar nenhum. Mas, por outro lado, penso que a arte é fundamentalmente essencial quando fala sobre o aqui e o agora. Justamente por isso que foram considerados gênios artistas dos anos 50, 60, 30, 1800 que conseguiram dizer artisticamente o que era importante ali, naquele momento, e que até hoje é fundamental. Porque a linguagem artistica e o discurso estético são fundamentais. O fundamental não fica datado. O discursinho pró ou contra uma causa sempre se perde com o tempo. Essa história do Feliciano para mim foi algo muito louco. Felizmente e infelizmente, foi uma certificação de que eu estava no caminho certo. Eu lancei o “Estrela Decadente” por causa de todas essas questões, que trabalhei ao longo da turnê. Lembro de ter falado várias vezes: “olha, essa ascensão dos evangélicos retrógrados…”. Sempre fiz esse aviso com esse disco. E não existia essa Comissão de Direitos Humanos com ele. Acho que foi uma profecia… Quando se olha para o mundo, meio que é possível enxergar os próximos passos que ele vai dar.

Eliana de Castro: Sua maneira de falar permite especular que sua intuição é bastante aguçada, mais do que o normal, isso te faz sofrer?
Thiago Pethit: Totalmente. É angustiante. Sempre foi muito angustiante para mim. Sou muito mental. Parece que eu estou o tempo inteiro lendo sinais. Fico um pouco sufocado com isso.

Eliana de Castro: Isso é um espécie de Zeitgeist…
Thiago Pethit: Exatamente.

Eliana de Castro: O terceiro disco está a caminho?
Thiago Pethit: Não. Fazer um disco novo signifca matar o velho e sinto que o “Estrela Decadente” ainda tem muito fôlego. Não falo de músicas que possam render videoclipes, não é nesse sentido… Trabalhei com conceitos e ideias que têm muito fôlego. E tenho me visto com esse disco cada vez menos músico e cada vez mais criador de conteúdo, de qualquer espécie. Se estou trabalhando nessa área comportamental, mais do que qualquer outra coisa, posso explorá-la com fotos, vídeos, músicas e mais outras mil coisas que passam pela cabeça.

Eliana de Castro: A Lana Del Rey é uma artista assim, gosta dela?
Thiago Pethit: A Madonna fez uma série de coisas nesse sentido e a Lady Gaga ganhou pontos quando percebeu que seu trabalho poderia ir além da música e dos vídeos. Seja pelas roupas que ela usa ou associação com outros artistas. Acho a Lady Gaga muito ruim, e só nesse aspecto acho ela boa, quando ela começou a criar conteúdo para além da música. A Lana Del Rey é a artista que melhor soube explorar isso, porque ela não é só uma cantora. A foto dela diz algo sobre a música dela. O vídeo diz algo sobre a foto e aquilo tudo vai dizer algo sobre a entrevista que ela vai dar. Está tudo conectado. Acho isso sensacional! A beleza de mentira dela combina absolutamente com suas letras. As pessoas esperam dos artistas essa pureza de qualidade. E talvez a Lana Del Rey seja o mais próximo do que existe de contracultural hoje. O que é verdadeiro? É tudo mentirinha. Porque nada disso pode ser verdadeiro, porque vivemos em um mundo – desculpa – cruel. A verdade pode sim estar na mentira da Lana Del Rey.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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