Tim Burton e a grande pergunta de “Grandes Olhos”

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Anos 1950. Para a classe média americana o divórcio era um escândalo, principalmente se a decisão partia da mulher. Fugir, então, estava fora de questão. Contribuiria ainda mais para a mulher ser mal vista. Em uma época em que não era possível ter outras vontades, além de ser esposa-mãe, estabelecer-se profissionalmente era quebrar paradigmas. Este é o ponto de partida de “Grandes Olhos”, filme de Tim Burton, protagonizado por Amy Adams, lançado em janeiro deste ano, que conta a história real da pintora Margaret Ulbrich. Um filme que surpreendeu os fãs de Tim Burton.

Margaret Ulbrich existiu. Famosa pelos quadros de crianças com olhos enormes, a pintora ganhou as manchetes principalmente pela apropriação indevida de seu trabalho por parte de seu então segundo marido Walter Keane, no filme vivido por Christoph Waltz. Margaret havia fugido de casa, de seu primeiro marido, com sua pequena filha Jane, e assim que se estabelece na nova cidade encontra Walter e aceita impulsivamente seu pedido de casamento. Primeiro ponto questionável: que encanto houve entre os dois?

Insegurança é uma característica forte da personagem de Amy que, sozinha, com uma filha para criar, acaba por tudo aceitar. Walter, um artista frustrado, sem grandes talentos, diz ser de sua autoria as criações da esposa quando percebe que elas chamam mais atenção do que as suas. Margaret aceita por acreditar que, por ser mulher, não conseguirá emplacar, o que faz certo sentido, quando na primeira empreitada, sozinha, antes de conhecer Walter, ao oferecer seu talento ao dono de uma fábrica de móveis, é olhada com preconceito quando responde que é separada.

Os Keane ficam ricos com os grandes olhos. O que dá início a mcdonaldização da criação de Ulbrich. Os dramas de cada um aumentam proporcionalmente ao sucesso, mas os personagens seguem insossos. Amy Adams e Christoph Waltz não têm química. O filme não empolga. Ela de tão submissa incomoda. Ele de tão falastrão incomoda o dobro. Dez anos se passam até que Margaret consegue romper esse laço. E mesmo essa virada não é suficiente para entusiasmar o espectador, sempre à espera de Tim Burton.

Conhecido pelos filmes fantasiosos, fantásticos e exuberantes, Tim Burton não se mostra em “Grandes Olhos”. Ou mostra-se pouquíssimo. A história morna é contada sem aprofundamento, submergindo no raso dos temas que poderiam provocar: os direitos da mulher além do esposa-mãe dos anos 1950 da classe média americana, o conceito de arte verdadeira e aquela que se oferece ao mercado, ou mesmo delírios românticos da mulher sonhadora e inocente que sonha ver sua obra nos quatro cantos do mundo. Quem é alguém para ensinar Burton a ir além? Ousadia para quem escreve aqui, para quem assiste ao filme ou qualquer outro ousado. “Grande Olhos” surpreende os fãs de Tim Burton porque à espera de algo tão bom quanto as últimas criações não entende onde ele quis chegar.

Assista ao trailer de “Grandes Olhos”!

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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