Toda a alegria do “SamBRA”

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A alegria foi típica das rodas de samba de qualquer lugar do Brasil. Porque é isso que o samba tem de comum, em qualquer região. Basta começar para irradiar aquele sentimento nada comedido de felicidade. Como diz a letra famosíssima de Caymmi: “Quem não gosta do samba bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé.” Neste clima unânime, pelo menos dentro do Espaço das Américas, em São Paulo, foi que o musical “SamBRA” embalou os convidados festeiros, alegres e – que beleza! – em família, no último fim de semana. Liderado por Diogo Nogueira, um grande elenco apresentou repertório de clássicos intercalados por passagens ligeiras de texto. Como não poderia ser diferente, o primeiro grande sucesso apresentado foi “Pelo Telefone”, considerado o primeiro samba gravado no Brasil.

Muitas referências. Um pecado durar tão pouco, mesmo o espetáculo tendo pouco mais de duas horas. Mas foi um pecado bem cometido, diga-se. Mesmo um dia inteiro de show não daria conta de tantas canções. O desejo que ficou ao término da temporada curtíssima no Rio de Janeiro ficaria em São Paulo. Apenas três apresentações não! Sambra é sempre mais! Opa… Samba é sempre mais. Os produtores marcaram um golaço na criação desta peça que dá início às comemorações do centenário do ritmo mais brasileiro.

O projeto quem assina é a Musickeria Corp (responsável por grandes projetos da Brahma, Itaú, P&G, Gillette, Petrobras, Bradesco, entre outros) e Aventura Entretenimento (que assinou os musicais: “Rock in Rio – O musical”, “Elis, A musical”, “Se eu Fosse Você – O musical” e “Chacrinha – O musical”, e mais), de uma ideia de Washington Olivetto. Parte do time, sentado à mesa ao lado da nossa reportagem, assistia entusiasmada. Levantavam as mãos, cantavam alto, aplaudiam sem medida. A empolgação confirmaria a legitimidade da emoção que pairava na casa. Na mesa à frente, que reunia um grupo de mulheres de várias gerações, a mais moça gritou e suspirou quando Diogo Nogueira entrou no palco pela primeira vez. Com seus cabelos brancos, a senhora ao lado emocionou-se quando o primeiro clássico tocou. Tornou-se moça outra vez, e ao olhar para as companheiras para dividir a emoção, seus olhos brilharam. Tomamos nota: o olhar brilhante de quem viveu o samba do seu tempo.

Nesta avenida de alegria desfilariam todos: Dorival Caymmi, Pixinguinha, Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Donga, João da Baiana, Sinhô, Ismael, Tia Ciata, Francisco Alves, Carmen Miranda, Grande Otelo, Cartola, João Nogueira, Clara Nunes, Paulo Cesar Pinheiro, Noel Rosa, Chico Buarque, Billy Blanco, Martinho da Vila, o Cacique de Ramos, Jorge Aragão, Silas de Oliveira, Beth Carvalho e Paulinho da Viola. Também se falou de tudo, dos morros, dos bares, do teatro de revista e grande escolas de samba.

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Os figurinos apareciam impecáveis. Referências diretas ao candomblé homenageavam outro grande símbolo da identidade brasileira. Nas passagens e nos pequenos textos, veio à cena o preconceito, a novidade que até então não tinha nome, o vício que era compor versinhos que brigariam por corações. “SamBRA” emocionou pela unidade: o valor do samba está em sua origem orgânica, natural, pulsante do momento presente. Mais do que compor a imagem do Brasil, o ritmo conta sobre o seu povo, debaixo para cima, como é tudo que é verdadeiramente cultural. Sem imposições, sem mercado, sem produções lucrativas. A alegria da roda em cima do palco descia e alcançava as mesas que entendiam a vibração, e no escuro devolviam em palmas e corpos balançosos, requebrantes.

Escrito e dirigido por Gustavo Gasparani, “SamBRA” apresentou Diogo Nogueira como ator pela primeira vez. Sua missão, em cena, eram muitas, mesmo que não quisesse. Aplacar os ânimos das mulheres seria um, embora as mesmas tenham entendido, à medida que o espetáculo seguia, que havia algo maior por trás. Diogo impressiona pela beleza, e sem camisa despertaria olhares libidinosos – e ninguém culpa as mulheres por isso, é claro. Mas o todo era maior. Havia nomes muito maiores, sem diminuir sua importância. Seu próprio pai, João Nogueira, foi o responsável pelo primeiro grande arrepio do espetáculo. Aos primeiros acordes de “Espelho”, embalando um texto de Diogo, João aparecia no telão e embargava a voz de todos. “Espelho” tem o poder assustador de emocionar sempre. Segurou-se a respiração para reviver João. Lindo momento. A música não tocaria e nem seria cantada e o espetáculo seguiria. A mescla de musical e show tinha mais baluartes à espera. Pouco tempo para 100 anos.

Ao todo, “SamBRA” apresentou 14 quadros e cerca de 70 canções. Da Praça XI, no Rio de Janeiro, aos morros, o personagem que representa o próprio samba no espetáculo, com toda a sua malandragem e boemia, foi retratado brilhante e impecavelmente por Bruno Quixote. Uma estrela! A plateia não resistiu à sua dança e graça. Grande construção e apresentação. Não havia como não se render. Ponto altíssimo da produção.

Assista ao videoclipe da música tema “Sambra” com Diogo Nogueira!

Além de Diogo Nogueira e Bruno Quixote, o elenco contou com Izabella Bicalho, Ana Velloso, Beatriz Rabello, filha de Paulinho da Viola; Lilian Valeska, Patricia Costa, Edio Nunes, Wladimir Pinheiro, Alan Rocha, Cristiano Gualda, Catia Cabral, Patricia Ferrer, Pablo Dutra, Paulo Mazzoni, Shirlene Paixão e Isnard Manso.

Como resultado da expertise da Musickeria Corp da Aventura Entretenimento, “SamBRA” não se restringirá apenas ao musical. O plano do projeto multiplataforma é ainda lançar um portal integrado às redes sociais com infográficos que contarão os 100 anos do samba, além de uma Web Rádio e um livro de entrevistas, curiosidades e seleção ímpar de imagens históricas. O projeto culminará no Ciclo de Encontros Sambra, que contará com a presença de jornalistas, pesquisadores e compositores. Cansado? Bom sujeito você não é.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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