Todos temos uma La La Land particular

O mundo se rende aos encantos de La La Land: a terra onde tudo deveria ser como desejamos. Logo, a terra que não existe. O filme de Damien Chazelle começa com o episódio mais banal da vida de todos nós, em qualquer lugar do mundo: engarrafamento. Quem, submerso em um mar de carros, não sonha ser outra pessoa? São passagens corriqueiras que nos transportam à nossa La La Land particular. Você tem uma, certo? Eu tenho uma.

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A La La Land particular é uma tentativa de sobreviver com o que escapa às nossas escolhas. Então, você não vai ficar impressionado com a qualidade vocal das estrelas Emma Stone e Ryan Gosling. Você vai ficar maravilhado com a força de um sonho. Em Mia e Sebastian está o que em você e em mim habita escondido – ou habitou há muitos anos e foi sufocado. Esse fio de magia que envolve os sonhos é tão pueril quanto frágil. Por isso mesmo encantador, a beleza se manifesta mesmo em fagulhas.

Basta, porém, o primeiro presente da contingência para que passemos a visitar nossa La La Land particular. No filme, tudo é muito simbólico. As roupas coloridas, os cenários encantadores, as coincidências que levam a teorias românticas – esta última, algo que adotamos o tempo todo, sem sequer percebermos. Precisamos nos agarrar em algo, certo?

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Sebastian quer ser dono de um bar de jazz. Mia, uma atriz. Em determinada cena, a irmã de Sebastian o chama de romântico, num tom levemente sarcástico. Sebastian percebe e devolve perguntando se ser romântico é um problema. Ela não responde, mas eu sim. Hoje, um autêntico romântico pode viver à margem porque a vida determinada pelo espetáculo é incapaz de compreender e suportar quem só precisa de uma única realização. Nesta parte do filme, o romântico é visto como um ingênuo, o que não representa um real romântico. O significado real aparece quando Mia questiona Sebastian por estar ganhando muito dinheiro, porém, com o tipo de música que não o faz feliz – ainda que a motivação real dele seja ela mesma.

O encanto que uma vida autêntica é capaz de despertar é mesmo digno de Oscar. Na vida real, contudo, não resiste à força do dinheiro ou de uma vida de conforto. Sebastian vive sem sua paixão por amar Mia, que não percebe e espera dele um retorno ao plano original. O plano original de ambos os levam ao fim que tem o filme. E não há nada de romântico nisso, é apenas a vida.

Uma das cenas mais lindas de La La Land é quando Sebastian, ao piano, toca City Of Stars. A interação entre os atores – aposto – ultrapassou a arte de encenar. Ali – aposto outra vez – eram Emma e Ryan. E fica a pergunta: quem é capaz de chegar em casa e perceber-se feliz em sua própria pele? Se falta algo, vamos para nossa La La Land e adormecemos vestidos com roupas coloridas, dançando e cantando. Mas o relógio desperta junto com as escolhas que fizemos.

O mundo anda mesmo tão pesado que um filme como La La Land vem para nos lembrar dos pequenos encantos. Mostra-nos que, ainda que haja um preço, lutar por um sonho vale a pena a maior parte do tempo. Porque é claro – e nisso o filme é frio e perturbador – uma terra onde tudo deveria ser como desejamos não existe.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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