Tudo começou com 007 contra o satânico Dr. No

O nome dele é Bond, James Bond. Atuando desde 1962, o agente secreto mais famoso do cinema começa sua trajetória com o filme Dr. No – ou 007 Contra o Satânico Dr. No. Nunca assistiu? Este é um convite!

Rever é imprescindível para entender o mito que nasceria ali. A série de origem britânica ganha o mundo ainda nos anos 1960 e ao longo dos mais de 50 anos tornaria o seu agente um sobrevivente.

Mas engana-se quem pensa que falamos apenas das aventuras, dos tiros e das emboscadas. Falamos, principalmente, de uma transformação cultural e comportamental que também afetaria o protagonista.

Ian Fleming, o escritor que criou o mito, ainda viveria para ver seu agente ganhar corpo com Sean Connery. Aos 32 anos, o ator escocês inaugurou esse arquétipo que só viria a sofrer drásticas mudanças quase 50 anos depois, na pele de Daniel Craig. James Bond, com Craig, revelou inéditas vulnerabilidades: do se apaixonar ao envelhecer. Há muito para falar sobre Bond. E Dr. No inaugura.

O cenário que dá início à trama de Dr. No é a Jamaica. Enviado para investigar o desaparecimento do colega John Strangways,  Bond descobre o misterioso e esquisito Dr. Julius No. Nesta aventura, James conta com a ajuda do agente da CIA Felix Leiter e o pescador Quarrel. No, então cientista que deseja destruir o programa espacial dos Estados Unidos, é o primeiro grande vilão que Bond enfrenta nas telonas.


É neste primeiro filme que o bordão “Bond, James Bond” se consagra. O seu drink preferido também aparece pela primeira vez em Dr. No: vodca Martini, meio seco, batido e não mexido.


De voz empostada e postura narcisista, Connery dá vida ao personagem petulante, que logo no início de Dr. No finge cair em uma armadilha pelo simples prazer de se livrar dos primeiros inimigos. Puro deboche. É quando Bond dirige o primeiro grande carro: o modelo Sunbeam Apine Series 2, de 1962. Desde então, tudo o que James Bond usou tornou-se altamente desejável – pelos bolsos mais capazes, é claro.

Tratando-se de roteiro, é evidente que não dá para comparar com as rebuscadas tramas atuais. Dr. No deve ser visto e entendido no seu tempo. Tanto no que diz respeito à tecnologia de produção e efeitos especiais como os próprios aparatos de Bond, que também são grandes expectativas de seu fiel público toda vez que um longa é anunciado. Este primeiro filme da série de livros de Ian Fleming foi lançado nove anos depois da publicação do primeiro livro. Mesmo tão rudimentar, é impressionante como funciona e se consagra.

Como dois mais dois são quatro, outra obviedade, hoje – mas que sempre causa ansiedade – é saber quem será a bondgirl da vez. A primeira bondgirl também surgiu em Dr. No. Das cenas clássicas, que compõem a trajetória cinematográfica de 007, a loira saindo do mar em seu biquíni bege (nude é uma invenção contemporânea), certamente está entre elas. Tanto que em 007 – Um Novo Dia para Morrer, Halle Berry, a bondgirl de 2002, repete a cena – também de maneira espetacular com seus cabelos curtíssimos.

Ursula-Andress

O nome dela é Ursula Andress. Belíssima! Considerada um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 1960, atualmente aos 80 anos, vive discretamente em Roma. Pela atuação em Dr. No, Ursula ganhou o Globo de Ouro do ano seguinte. Honey Ryder é sua personagem, uma caçadora de conchas. Uma pequena, porém rendosa curiosidade, o biquíni que virou ícone usado por Andress foi leiloado, em 2001, por US$ 80 mil.

Porque foi oficial da Inteligência Naval do Reino Unido, Fleming viveu na prática um pouco do que transportou para seus livros. Diferente do que foi apresentado por Connery, a personalidade de Bond, originalmente, não era atraente e corajosa. Fleming criou Bond como um sujeito desprovido de qualquer atributo pelo qual poderiam admirá-lo: os homens para copiá-lo, as mulheres para amá-lo. James foi a mescla de muitas pessoas que Fleming conheceu durante a Guerra. Como Sean Connery não foi a primeira opção dos produtores Albert Broccoli e Harry Saltzman para dar vida ao agente, e sua imponência no longa saiu bastante do script, Fleming foi “obrigado” a mudar as características do personagem nos livros seguintes.

Para além das posturas afetadas de Bond e demais personagens, assim como efeitos e fatos que não teriam a menor possibilidade de acontecer na vida real (vale muito entrar no clima e ignorar tudo isso, é claro), Dr. No é um emblemático filme, cheio de símbolos que atravessam gerações, como será visto nos próximos filmes.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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