Vário do Andaraí: “Estar entre Manuel Bandeira e Nelson Rodrigues é algo que jamais sonhei na vida”

Além de passageiros, Vário do Andaraí, o taxista carioca, leva pelas ruas do Rio de Janeiro o título de vencedor do Prêmio Jabuti. Foi em 2013 por “Máquina de Revelar Destinos Não Cumpridos”, livro de contos e crônicas. Diz ele, é escritor apenas nas horas vagas, embora haja inúmeras razões para duvidar. O texto é maravilhoso; as ideias, argutas. Tempo para refiná-los? Talvez enquanto observa a vida dentro e fora de seu veículo, o número 055. Para conhecer mais e melhor, vale visitar o site oficial ou segui-lo no Facebook. Nascido Elder Antônio de Mendonça Figueiredo, Vário do Andaraí também é conhecido por Dedé. Para a Fausto, com exclusividade, o escritor-taxista ou taxista-escritor fala sobre os personagens da literatura que se parecem com seus passageiros, suas obras preferidas e, claro, sobre a dor (não, só delícia) de ter no currículo um Prêmio Jabuti. Excelente embarque!

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Fausto – Concorda com Nelson Rodrigues de que não se fez literatura, política e futebol com bons sentimentos?
Vario do Andaraí: Discordo. Discordo porque a afirmação do Nelson – afirmação que é uma licença poética, ou um arroubo meio cênico, típico dele – de alguma maneira nos guia a pensar a literatura de forma dualista. Quer dizer, se não se faz literatura com bons sentimentos, se faz apenas com maus? O que são os bons sentimentos? Quais os maus? Os Evangelhos são bons ou maus sentimentos? Os Sermões do Padre Vieira são escritos com bons ou maus sentimentos? “Os Irmãos Karamázov” são o quê? Acho que tudo na vida é um mosaico de cores morais, imorais e amorais em movimento. Mas acho, contudo, a frase do Nelson Rodrigues um lance de efeito, uma frase que desconforta, uma assertiva com um quê de literatura. Os arroubos são, em última instância, literatura.

Em seu taxi já entraram muitas Annas Kariêninas, James Bonds ou Bentinhos? Qual foi o paralelo mais interessante que já traçou entre um passageiro e um personagem da literatura?
Já levei todos os personagens do mundo escrito e vivido às pencas: Annas, sim, de monte; James Bonds, sim, e às pencas; Bentinhos, também, à mancheia. Todo o elenco humano passa pelos assentos da viatura 055. Um passageiro muito comumente acontece de ser literatura, porque todo mundo é um tipo. O conjunto de passageiros é literatura. Eu mesmo sou um tipo literário, uma caricatura de mim mesmo. A vida à solta dentro do globo é literatura. A vida limitada na quadratura da folha de papel ou na tela de um tablet é também literatura.

É uma característica do nosso tempo um indivíduo ter duas funções – ou mais – tão diferentes entre si. Antes, o comum era escolher uma profissão e passava-se 30, 40 anos executando-a até a aposentadoria. Hoje está melhor do que ontem?
Não sei se hoje está melhor do que ontem nesse sentido, porque não vivi o ontem (ri). Tem muita gente que ainda se aposenta exercendo apenas um ofício. Tenho apenas um: taxista. Escrever é mais um amadorismo de quem ama do que um ofício de fato pelo qual se pague imposto de renda (ri).

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Como concilia a rotina do taxista e a do escritor?
Sou escritor de horas vagas. Sou leitor de horas vagas. Na verdade, quando estou no táxi, exerço a função de escritor matutando compulsoriamente sobre a vida e sobre o caos e sobre o enredo do mundo. Pensar é compulsório. Se pensar é compulsório, o texto, sob a sintaxe do pensamento, está sendo produzido o tempo todo.

Um prêmio Jabuti no currículo é um bálsamo ou um peso sobre os ombros?
O prêmio dá visibilidade. Mas mais do que dar visibilidade, saber que meu livro entrou numa fila com Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues, Moacir Scliar, Mário Chamie e outros do porte… Entrar nessa fila já é algo com que jamais sonhei na vida.

Quais obras mais o influenciaram?
“Dom Quixote”, “O Estrangeiro”, a Bíblia. Entre os autores: Machado de Assis, Dostoiévski, João Antônio, Rubem Braga… Oh, grande Velho Braga! Carlos Drummond, Nabokov, Hemingway, Padre Antônio Vieira… Muita coisa… Muita poesia de vários autores, textos acadêmicos também. Enfim, é muita coisa para conseguir enumerar. Ah! Federico Fellini, Visconti e Ettore Scola também são referências de literatura audiovisual.

Um livro te salva quando…
Quando estou desarvorado, meio descrente do mundo, a literatura me salva do afogamento, mas não me salve da… hum…não me salva da…da…hum…da deriva, não me salva da deriva. Mas tem horas que só o táxi me salva, só a literatura semovente das ruas me salva nas horas de sufo-cão.

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Vário do Andaraí recomenda:
Dom Quixote – Miguel de Cervantes.
Os Sertões – Euclides da Cunha.
O Estrangeiro – Albert Camus.
A Máquina de Revelar Destinos Não Cumpridos – Vário do Andaraí.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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