Viver não dói, segundo a jornalista Leila Ferreira

Aquele dotado de sensibilidade, que capta os sinais do cotidiano e interpreta com benevolência os mistérios da vida – dos mais frívolos aos mais profundos, que envolvem vida e morte – não pode nunca, em hipótese alguma, deixar de ler “Viver Não Dói”, da jornalista mineira Leila Ferreira. O livro não é de auto-ajuda, vale de cara avisar. Como um sopro leve, porém imensamente perfumado, a publicação é composta por crônicas que tratam das coisas mais simples da vida e, invariavelmente, as mais complexas: o que é a felicidade, o verdadeiro prazer sexual, o que realmente importa, o ritmo acelerado que deixa tanta coisa valiosa de lado, as gentilezas, a educação pura e essencial, as relações amorosas, os padrões de comportamento ainda exigidos mas que não fazem mais o menor sentido, as dietas, como se vive mais a vida virtual do que a vida real e, por fim, o envelhecer, a solidão e a morte.

Leila_Ferreira

Não é que esse livro seja tão profundo assim, que vai encher de significados a vida dos que estão em busca de respostas. Ele é mais um simbólico, singelo e sublime ato de devolução dos pequenos valores – e tão imprescindíveis – e uma reflexão sobre esse tempo no qual pouco se para para perceber, sentir e refletir. “Viver Não Dói” é um presente a todos os seres humanos que sabem se assumir seres humanos, com todas as suas dores, sonhos e medos. Um livro para ler antes de dormir, quando acordar, na hora do almoço ou em qualquer outro momento de recolhimento. E não se adiante em pensar: “infelizmente, não tenho um tempo só para mim”. O maior luxo dessa era pós-moderna é o tempo. E por mais tentador que seja pensar que tempo é dinheiro, porque dinheiro é consumo e consumo é felicidade, verdade que habita o inconsciente da maior parte das pessoas, o tempo ainda é o bem mais gratuito e democrático que existe. Ricos e pobres recebem todos os dias as mesmíssimas 24 horas. Um alerta que soa meio auto-ajuda, talvez, mas que imbuído em histórias cotidianas muitíssimo bem escritas, chama à consciência aquilo que talvez tenha se perdido.

“O tecido da felicidade é feito de fios quase invisíveis. Quando deixamos de procurar aquela felicidade que promete se deixar avistar a quilômetros de distância e apuramos o olhar para enxergar a felicidade possível, que não faz alarde e vira e mexe se mistura à tristeza, aí, sim, a gente é feliz e sabe – ou pelo menos deveria saber”, reflete Leila no texto “Ser feliz (e saber)”.

Publicado pelo selo Principium, da Globo Livros, “Viver Não Dói” é o terceiro livro da jornalista mineira. Pelas 48 crônicas, Leila mostra sua experiência como entrevistadora sensível, que acumula em sua trajetória mais de mil entrevistas. Formada em Letras e em Jornalismo, com mestrado em Comunicação pela Universidade de Londres, Leila Ferreira foi repórter da Rede Globo Minas e durante 10 anos apresentou o programa “Leila Entrevista”, na Rede Minas e TV Alterosa. Mais do que saber fazer a pergunta certa, a maior habilidade de Leila revelada em “Viver Não Dói” é não ter medo de se mostrar, de se abrir, de falar sobre suas fragilidades e, dominando tão bem as palavras, tornar todos os grandes questionamentos da vida uma conversa leve, acompanhada de um simples café passado na hora e um bolo caseiro fresquinho.

Se ao folhear o livro em alguma livraria ou ao começar as primeiras crônicas se deparar com o pensamento: “isso, por acaso, é genial?”, acredite: os textos partem de um ponto tão, mas tão cotidiano, que talvez eles não o prendam, logo de cara. Mas continue. Esse, aliás, é um dos grandes méritos do livro. Como ele cresce em profundidade e sensibilidade a medida que se avança na leitura. Ao final, algumas lágrimas poderão se formar e mesmo que elas não caiam, refletirão o quanto todos nós sentimos tão profundamente as menores dores da existência humana. Mas nem por isso a felicidade deixa de estar ao alcance. Basta apurar o olhar.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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