Whiplash: o sangue, o suor e o jazz

001

O termo “visceral” faz referência às vísceras. Em sentido figurado, é algo que está enraizado dentro do ser, com teor extremamente particular e profundo, sentimentalmente forte. No jornalismo cultural, é uma palavra usada sem parcimônia, quase uma muleta, para descrever tudo que é bom aos olhos de um crítico. Pode-se afirmar que, até então, qualquer coisa dita visceral, no fundo, nada tinha em particular com as vísceras. Mas isso mudou, os críticos podem escrever tranquilos: “Whiplash” é um filme visceral.

Mas para chegar a esse nível, a produção independente passou por provações. Inicialmente, não conseguiu financiamento. Foi transformado em curta-metragem e apresentado para o Festival de Sundance, em 2013. O curta venceu o Prêmio do Júri para Curta-Metragens. Só depois virou longa. E mesmo com baixo orçamento, conseguiu ser um dos favoritos ao Oscar 2015. Concorre a Melhor Filme, Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Montagem e Mixagem de Som.

A culpa é da boa direção e roteiro de Damien Chazelle, que ainda na casa dos 30 conseguiu produzir uma das histórias mais intensas que o cinema já exibiu. Colaboraram também as fortes atuações de Miles Teller e J.K. Simmon, a dupla que dá vida para situações extremas, em um trabalho bonito de se ver na tela grande.

CaixaBelasArtesLogo

Teller, em especial, saiu-se muito bem, já que pratica bateria desde os 15 anos. Para as cenas, recebeu aulas adicionais de quatro horas por dia, três dias por semana, deixando realmente seu sangue nas baquetas.

No drama, ele interpreta Andrew Neiman, estudante de um prestigiado conservatório musical de Nova York. Sua meta é ser um profissional da bateria, esforçando-se tanto a ponto de deixar de lado a família, os amigos e amores. Seu talento é reconhecido pelo professor perfeccionista (quase psicopata) Terence Fletcher vivido por Simmons, que o convida para integrar a banda de jazz do mestre, composta apenas de estudantes excepcionais.

Desse momento em diante, o filme se mostra intenso. Acompanhamos a luta e sacrifícios vividos por Andrew em busca da perfeição, com seu professor/carrasco usando métodos nada convencionais para que o pupilo chegue ao patamar desejado: gritos, tapas e humilhações são as suas ferramentas preferidas.

A fotografia dá gosto aos olhos. A trilha dinâmica marca os momentos mais fortes. As boas cenas não dão descanso. O espectador fica em êxtase. O que Andrew faz na tela, fazemos juntos na poltrona. O coração bate forte com seus temores e sua bateria. Odiamos o professor, nos regozijamos com o talento e auto superação de Andrew. Mas nada aqui é piegas, muito pelo contrário.

No jornalismo convencional, principalmente nos manuais das redações mais conceituadas do país, não é de bom tom usar adjetivos. Mas para o leitor sentir a vibração deste clássico instantâneo, impossível não adjetivar: não procure agulhas de significados no palheiro da opinião egóica.

“Whiplash” é um filme sobre um baterista que quer vencer a si mesmo; e não é somente visceral, também é grande, incrível, literalmente sanguinário, com um final espetacularmente apoteótico. “Whiplash” é sangue, suor e jazz.

Daniel Quirino Written by:

Comments are closed.