A espera de Patrick Modiano em “Remissão da Pena”

A sensível história de Remissão da Pena, de Patrick Modiano, logo no início pode dar uma sensação de: um, por qual razão o Prêmio Nobel foi parar nas mãos desse autor?

Mas é dúvida passageira. A história de Patrick e seu irmão – sim, o livro narra a história real de parte da infância do escritor – acontece na Paris após Segunda Guerra Mundial.

Patrick Modiano.
Patrick Modiano.

Os meninos têm suas vidas confiadas aos cuidados das amigas da mãe e a narração tem aquele gostinho de memória de infância. Como acontece com cada um quando algo significativo do passado volta à lembrança, a narração de Modiano, rápida e ingênua, envolve o leitor em sentimentos nostálgicos.

Remissão da Pena é o primeiro romance de Modiano publicado pela Record. Lançado em 1988, na França, apenas agora chega por aqui.

A narração parte do início da idade escolar do autor e carrega um tom levemente triste, dada a sensação de abandono que, por mais que as amigas da mãe tenham lhe dado de tudo – amor e carinho inclusive –, uma sensação latente de “este não é o meu lugar” permeia as frases.

O texto é escrito na primeira pessoa. Os sentimentos do garoto ficam submersos. Aos 10 anos, é praticamente impossível ter repertório emocional para descrever sentimentos. Por isso, Patrick apenas vive.

As linhas escritas preservam essa incompletude. Elas falam apenas sobre a rotina de um vilarejo onde quase nada inspirava, a não ser as histórias dos outros – das amigas da mãe e do dono do castelo abandonado que havia próximo da casa. Patrick e o irmão ouvem tudo e entretém-se dessas histórias.

Estão na história de Remissão da Pena Hélène, que foi uma artista de circo; Annie, uma moça doce e um pouco deprimida, quem os meninos sabiam que “chorava no Carroll’s”, e Mathilde, mãe de Annie, taciturna e fria.

O instigante do livro sem dúvida é o não revelado. Aquilo que se pressupõe ter marcado a alma de Modiano, mas que na memória de um garoto, em uma prosa, não é revelado. O leitor adivinha por empatia. Sente de algum jeito o que possivelmente eles sentiram, porque em todos nós há – guardado que seja – um quê de fragilidade da época da infância. É a beleza do livro. O contato com essa parte sensível em todos nós.

Filho de um comerciante judeu e de uma atriz, o escritor francês nasceu nos subúrbios de Paris. Cresceu nos primeiros anos com os avós, tendo ainda passado por um internato. O irmão a que se refere no livro, morreu aos 10 anos.

Patrick Modiano ganhou o Nobel de Literatura no ano passado e praticamente sua trajetória literária é construída em cima de memórias, quase sempre também centradas na Segunda Guerra Mundial, mais precisamente na ocupação da França pela Alemanha nazista.

Remissão da Pena merece ser a porta de entrada para a obra de Modiano, caso ainda não se conheça sua escrita e o seu jeito rápido, desprovido de longas descrições. Tudo é muito simples e por isso inquietante. Fatalmente o leitor se pegará pensando, fora do momento de leitura, no Patrick garoto.

 

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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