João Cezar de Castro Rocha: “A guerra cultural tem se transformado em um modo de vida”

João Cezar de Castro Rocha assina o urgente Guerra Cultural e Retórica do Ódio. O livro é uma análise do contexto brasileiro do transnacional e meta-histórico conceito que, nos últimos anos, foi para o topo das discussões em várias partes do mundo. O motivo é claro: o choque de culturas, de valores, de visões de mundo. É assim desde que o mundo é mundo? O Brasil mostra ter peculiaridades. O premiado escritor, doutor em Literatura Comparada pela Stanford e professor titular na UERJ, é o convidado da vez, nesta casa do diálogo.

João Cezar de Castro Rocha, autor de “Guerra Cultural e Retórica do Ódio”.

FAUSTO – O impulso que dá início à retórica do ódio é a pureza moral?
João Cezar de Castro Rocha: Interessante pergunta. A retórica do ódio, paradoxalmente, tem como ponto de partida uma ideia pervertida de virtude. Só utiliza a retórica do ódio aquele que acredita firmemente ter encontrado a essência de alguma coisa. E todo aquele que se opõe a essa essência é visto como ímpio, infiel, e por isso é desumanizado.

Trocar a retórica do ódio pela ética do diálogo não é um desejo quixotesco? O brasileiro é mal-formado e mal-informado…
É bastante quixotesco. Entretanto, não é a única alternativa viável. Trata-se mais, na verdade, de um pressuposto ético. A retórica do ódio principia-se pela desumanização do outro e o transforma em um inimigo a ser eliminado. Foi assim desde que o mundo é mundo.

Tem algum outro exemplo?
O caso terrível do Holocausto. Antes da violência física contra os judeus houve uma campanha de praticamente uma década na qual os judeus eram associados a ratos. Ou seja, houve todo um processo de desumanização linguística do outro. A ética do diálogo, ao contrário, vê nesse outro um “outro eu”. É quando eu vejo no outro o mesmo valor humano e subjetivo que vejo em mim. A diferença, nesse caso, somente me enriquece. Agora, é bastante importante que isso não pareça lugar-comum ou chavão. Eu me filio ao campo da esquerda democrática, mas dialogo ativamente com pessoas da direita, do centro e os liberais. Como minha visão de mundo é da esquerda democrática, sei que eles compreendem o mundo e propõem soluções que não me ocorreriam, porque meu ponto de partida é diferente. Então, reconhecer no outro um “outro eu” enriquece meu horizonte. Isso não quer dizer que deixarei de ter opiniões e convicções; mas quer dizer, no mínimo, que sou obrigado a aperfeiçoar meus argumentos.

Quais valores podemos usar como ponto comum para sairmos dessa guerra?
O primeiro valor básico é reconhecer o outro como um outro eu, uma subjetividade que tem os mesmos direitos e a mesma legitimidade. Se temos posições políticas diversas, é só mais uma razão pela qual precisamos dialogar. Precisamos recuperar essa noção civilizatória básica.

O cenário é menos tenso no mundo real – fora do virtual?
Infelizmente, não. Uma hipótese que venho desenvolvendo – de algo muito preocupante na guerra cultural trumpista e na guerra cultural bolsonarista – é que esses adeptos não mais se limitam ao que foi o princípio da guerra cultural: a disputa de narrativas para obter um ganho político imediato. A guerra cultural tem se transformado em um modo de vida. Hoje, confunde-se a narrativa com a própria realidade.

Pode nos dar um exemplo concreto?
No Brasil, hoje, não basta ser bolsonarista, é preciso não usar máscara. Não basta ser popularista, é preciso aglomerar. É o que aconteceu em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, quando um grupo de bolsonaristas perfilou-se diante de uma caixa gigantesca de cloroquina, colocando a mão no peito e cantando o hino nacional. Isso é muito preocupante. A consequência deve ser a recorrência, inédita no Brasil, de uma figura muito típica na sociedade americana: o lobo solitário. É o terrorismo doméstico praticado por um único indivíduo. Aquele sujeito que sai de casa armado, grita três ou quatro palavras de ordem e mata vinte pessoas. Ele age sozinho, motivado por uma causa. Tivemos, recentemente, três casos muito preocupantes: o primeiro, um policial militar em Salvador; o segundo, um bombeiro em São Paulo que incendiou um jornal que fazia oposição ao Bolsonaro; e teve um policial no Paraná que, numa escala de voo em Guarulhos, fez uma funcionária da Gol de refém. Nos três casos havia discurso desconexo que reunia elementos de teorias conspiratórias que circulam pelas redes bolsonaristas. Creio que esse será um fenômeno crescente no brasil.

E esse cenário duplica ou triplica quando começarem as campanhas presidenciais?
Sim, infelizmente. É uma situação seria. Veja, Eliana, sou especialista em Machado de Assis e William Shakespeare. Tenho livros traduzidos sobre ambos os autores. Se passei um ano inteiro dedicado a ler Olavo de Carvalho e a produção da direita e da extrema-direita é porque estou bastante preocupado. E parece que não compreendemos a gravidade da situação, perdemos muito tempo fazendo caricaturas dessas figuras históricas, perdemos tempo fazendo caricatura do capitão Bolsonaro e esquecemos que temos um Presidente da República que celebra a tortura e que venera um torturador abjeto como Carlos Alberto Brilhante Ustra. Nunca houve nada similar no Brasil. Mesmo na Ditadura Militar, nenhum general, em público, celebrou a tortura ou venerou um torturador. Vou repetir: mesmo na Ditadura Militar, nenhum general, em público, celebrou a tortura ou venerou um torturador. Agora, é bem importante o que vou dizer agora: não disputo narrativas, me atenho aos fatos. Quando digo que Carlos Alberto Brilhante Ustra é abjeto torturador, tenho como base um documento que qualquer um pode acessar. [Leia aqui]

É possível ficar de fora dessa guerra? Quem pensa estar fora pode estar mais dentro do que imagina?
Essa é uma ótima pergunta. No ano que vem, a partir de abril, quando as campanhas estiverem mais consolidadas e começarem a ir às ruas, será muito difícil. Em nenhuma circunstância, todavia, pretendo me dobrar. Não há nenhuma possibilidade de eu considerar que um intelectual de direita não mereça diálogo. Não há nenhuma possibilidade de eu romper amizade com alguém de centro ou liberal. Na minha vida, no meu repertório existencial, essa possibilidade não existe. Será difícil manter-se fora porque haverá muita pressão para assumir um lado, mas minha aposta, na medida do possível, é reconstruir um diálogo mínimo e objetivo.

É o que temos em mente também…
Seria desonestidade intelectual, por exemplo, afirmar que o governo Bolsonaro é culpado pela pandemia. Uma pandemia é uma peste. A primeira de que se tem notícia, do ponto de vista histórico, remonta ao Império Bizantino, que foi um entreposto comercial. A peste negra do século XIV circulou na chamada rota da seda, que na época era o maior entreposto comercial do mundo. Ninguém pode culpar um governo por uma pandemia. Seria oportunismo barato e inaceitável. No entanto, como cidadão brasileiro, tenho o direito de imaginar que, um dia – e espero que não esteja muito distante – o presidente, e sobretudo o general ex-ministro da saúde, respondam em cortes nacionais e internacionais pela condução criminosa da pandemia, pelo desestímulo ao uso da máscara, pela desinformação sistemática sobre a vacina, pelo boicote, principalmente da CoronaVac do Estado de São Paulo, que hoje corresponde a 80% da vacinação realizada no Brasil, que responda pela aglomeração, pelo que houve em Manaus nos dias 14 e 15 de janeiro deste ano. Quem venceu a guerra cultural durante a pandemia foi o Bolsonaro. Por isso vivemos, hoje, a maior tragédia da história brasileira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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