AmarElo, de Emicida: toda obra-prima é insuficiente

Termino de ouvir AmarElo, de Emicida, e me vem à mente Adélia – sempre ela, Adélia: “Toda obra-prima é insuficiente.”

O argumento de Adélia quando usa “insuficiente” é que ainda que haja uma unidade em si mesma numa obra-prima, ela sempre remete ao Absoluto. Em sua visão religiosa: Deus.

Emicida. Foto: José de Holanda.

No caminho da luz, todo mundo é preto”, canta Emicida, o rapper paulista, o poeta da insustentável leveza.

Neste trecho, ele se refere à origem africana de todos nós.

Só que a licença interpretativa que tomo, com respeito e espanto, diz sobre a escuridão que nos veste toda vez que buscamos o sentido dessa nossa vidinha de todo dia, essa vida que quase sempre enxergamos distante da “Vida”, com “V” maiúsculo, essa que deveria ser um conjunto significativo incapaz de ser ultrapassado. E no caminho da luz todo mundo é preto porque passamos insignificantes pelo olhar de Deus na procura de uma justiça própria.

É meio assim que me soam as canções de AmarElo: como salmos modernos.

Versos que remetem ao Absoluto, sim, mas não só.

Que remetem também ao Absurdo.

Quem não é Sísifo no contexto de Emicida é oprimido ainda mais. Quem não peita os deuses – ainda que pague por isso – é desprovido ainda mais.

“Amar” e “elo”, nativas de um poema de Leminski, são duas palavras importantes para o nosso tempo, mas não são as únicas sacadas deste trabalho tão belo.

Na voz contundente de Emicida, significa também uma mão estendida para o diálogo.

Arrisco, então, que seja essa volta tão singela – que não muda nada, mas muda tudo – a profunda beleza do terceiro álbum do rapper: o retorno do homem à proposta inexata do Criador.

De alguma forma, a poesia das canções de AmarElo resgatam a espiritualidade cotidiana sem a qual não sairíamos da experiência da aflição.

Por isso AmarElo pode funcionar como um mantra.

A reza nossa de cada dia, para nós descrentes. Mas nunca uma reza tola, porque não engole o que não deve ser engolido.

O sentido religioso é a última palavra.

E já que a fé sem obras é morta, sorrir é a atitude mais revolucionária.

As participações especiais em AmarElo são interessantes, é claro. Reafirmam a proposta de diálogo, combinando perfeitamente mensagem e mensageiro. Referências dão profundidade a qualquer trabalho. Referências são os ramos do conhecimento que formam a árvore que produz o ar puro sem o qual ninguém pode viver. Isso é muito forte, mas nem de longe é o melhor do álbum.

A carta de amor que Emicida escreve para um mundo em decomposição é atitude radical de quem arranca sentido do chão.

É a teima de Jacó que não deixa o anjo subir até que seja abençoado.

O sentido da vida é tão misterioso que não cabe apenas à religião o achar das respostas. À arte também, e, sobretudo.

O homem tenta compreender a vida para dominá-la. Descansar no Mistério é dificílimo.

AmarElo, contudo, é um horizonte de significado que se avista e, graças a Deus, chega a tempo.

É insuficiente. Mas chega a tempo.

 

Dedico à Christina Galvão.

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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