A definição do amor, de Jorge Reis-Sá

Sou do tema do amor. Ou melhor, sou também do tema do amor. Jorge Reis-Sá é. Vi que tem razão o filho de Dumas no livro mais lindo sobre sua dama, com ou sem camélias: “Quando a existência contrai um hábito como o do amor, parece impossível que esse hábito se rompa sem ao mesmo tempo quebrar todas as outras engrenagens da vida.”

Jorge Reis-Sá
Jorge Reis-Sá.

Lembrei-me disso por causa do desespero de Francisco, personagem de Jorge, em A definição do amor. Quem lê, duvido que não se veja ali, com Francisco, ou como Francisco, e não sinta toda a aflição dos dias que não passam da mesma forma que passam para os outros.

Acontece.

Francisco acompanha a jovem esposa dia a dia no hospital depois de ser acometida por um AVC.

AVC não é sigla que basta, certo? Acidente vascular cerebral é na vítima. Mas quem é vítima sozinha? Quem ama é vítima junto como mostram as letras de Jorge.

Pelo amor é que sei quem sou. Pelo amor do outro, pelo amor de mim quando estou só porque a solidão hiperdimensiona o que há em mim e o que falta em mim. Abastanças ou falências de amor. Silêncios de hospitais também hiperdimensionam tudo isso.

Quando mais sei de mim é quando o amor me nega atuar. Isso me identifiquei com Francisco. É de doer quando o amor nega atuar. Mesmo que na literatura. A definição do amor, do escritor português, trata dessa suspensão. Ou nas palavras de Jorge: “A suspensão da morte daquela que amamos suspende a vida daquele que ama.”

A história que se desenrola é em forma de diário. Francisco conta, às vezes pulando alguns dias, como é ver Suzana ali, deitada, inerte. Morta? Francisco conta sobre o amor pelo filho André, miúdo ainda, amor que se transforma com a fatalidade. Francisco conta, e é muito triste, sobre o amor pela Matilde que… que… difícil pensar em Matilde, até para mim que mãe sou apenas de letras vivíssimas.

Recomendo a leitura de A definição do amor porque se verá quão difícil é amar fora do amor que sorri. Há amores tristes, amores solitários, amores agônicos, amores que enlouquecem, amores que velam. As definições de Jorge ficam subtendidas assim como ao regalo e à sede do leitor que também seja do tema do amor.

Jorge Reis-Sá escreve em prosa poética. Por isso não é para todos – ainda que esteja disponível para todos e o incentivo seja para todos. Não é livro elitista, mas certamente é fina-flor.

Tenho cá comigo tantos versos preferidos que mostrá-los tornaria este relato uma loucura. Guardá-los-ei comigo, certamente, e para sempre, para ler e reler quando eu me sentir como Francisco: em suspensão.

Entretanto, deixo minha passagem preferida. Um dizer de Francisco em seu diário, como se conversasse com Suzana, que claro, estava habituada às maneiras alusivas de seu marido.

“Lembrar é um verbo demasiado intransitivo. Ensinaram-me no seminário – antes de te conhecer e trocar Deus pelo teu corpo – que a terminação que traz o diz transitivo. Mas isso foi certamente escrito, ponderado, decidido por quem pensava o futuro quando dissecava a lembrança.”

Li A definição do amor e sofri junto. Talvez eu sofra do mal de Santo Agostinho: “Ler aquilo que me comovia até a dor.”

 

Dedico a Maurício Seabra e à Scheila Ferreira.

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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