Ávida – Alguns instantes com a mulher mais velha do mundo e com papai

Ávida — personagem do monólogo Ávida: Alguns instantes com a mulher mais velha do mundo — é igualzinha ao meu pai, que já partiu, mas só depois de ter criado intimidade com esta que lhe seria companheira a partir de então: a morte.

E ele também era desses, como a personagem, de galanteios. Em seus últimos anos de vida, dia sim, dia não — ligado a uma máquina de hemodiálise —, pedia alguma enfermeira em casamento.

Escrito por Ed Anderson, dirigido por Gonzaga Pedrosa, o monólogo é estrelado por Lucélia Machiavelli e está em cartaz no Sesc Pinheiros.

Estar diante de uma atriz como Machiavelli, tão charmosa e consciente de sua trajetória no teatro — em técnica e encanto, mesmo considerando encanto uma técnica, mas no caso de Machiavelli prefiro pensar que o encanto é inerente —, foi como estar diante de meu pai outra vez. 

Ou mais uma vez, que é o desejo de todos os que ficam e amam profundamente.

Na última vez em que vi meu pai vivo, ele já não me reconhecia.

Aproximei-me de sua cama no hospital e, mesmo me vendo, ele não me via.

Só quem já viveu essa experiência sabe a sensação de ter uma parte de si perdida no olhar de uma testemunha que nunca poderá ser substituída.

Papai, testemunha de que eu existo há 42 anos. Outros são de seis, oito, dez anos.

Eu estava há tempo demais naquela situação para, ali, me sentir atravessada pelo inominável.

Vesti-me da dignidade que me é característica, ainda que muitos a confunda com frieza.

Também não ousaria mentir e dizer que algo no fundo, bem lá no fundo do meu coração, me dizia que seria a última vez.

Eu estava há tempo demais naquela situação para, ali, me sentir atravessada pelo inominável.

Com nosso humor “de família”, perguntei a ele se sabia quem eu era. Ele riu, como quem pede desculpas pelo esquecimento, então eu disse: “Sou a mulher mais linda do mundo.”

Ele reconheceu a frase de definição de nossa relação. 

Assim, depois, me disse em sua simpatia: “Oi, minha princesa.”

No inominável não há reconhecimento facial, mas há frases que dizemos repetidas vezes.

Antes de partir, ele já não habitava entre nós. Via bolachas de água e sal gigantes no teto. Pedia para escondê-lo da polícia porque tinha matado um homem. Contou como foi resgatado de uma sala cheia de caixões, estando já morto, e acabou voltado para o quarto — e essa última eu acreditei.

Eu estava há tempo demais naquela situação para, ali, me sentir no direito de julgar qualquer história como verdade ou mentira — e para não tomar, umazinha, por direito, só para mim.

Destemida, Ávida narra suas aventuras pelo mundo. Sua forma de amar, de viver as amizades, de presenciar e interpretar os grandes acontecimentos da História.

Durante os 60 minutos de causos verosímeis e inverossímeis, vamos nos familiarizando com essa que também virá nos buscar, que manda sinais no esvaecimento da memória, na fraqueza das pernas.

Papai às vezes me dizia: “Minha memória está péssima, estou esquecendo tudo.” E sua princesa de ânimo semelhável a uma neblina da madrugada dizia: “Relaxa, pai, não há nada que valha a pena lembrar.”

Ele era Ávida, eu sou Afinco.

“Velhice: a primeira morte das cortesãs”, escreveu Alexandre Dumas Filho em A Dama das Camélias, romance de 1848, o meu preferido.

Não sei dizer com certeza, e nem por qual razão, mas essa foi a história de amor que mais me tocou de toda a literatura. Marguerite Gautier e Armando Duval sofreram juntos do início ao fim do livro, e eu também.

A Dama das Camélias foi para mim aquilo que Santo Agostinho escreveu sobre suas próprias leituras, e que eu partilho como vício na hora de escolher um livro: “Ler aquilo que me comovia até a dor.”

Marcou-me profundamente o processo de envelhecimento de Marguerite Gautier.

Um adendo que teço de forma livre, eu acredito que Armando teria amado Marguerite na saúde e na doença, na juventude e na velhice.

Greta Garbo interpretou Gautier no cinema, embora durante a leitura minha imaginação tenha elegido Ava Gardner, personificação da perfeição.

Curiosamente, Greta viveu na pele a pressão do envelhecimento e não a suportou com o humor de Ávida. Ela quis sair de cena antes que o público a visse velha: “I want to be alone”.

Sexualidade, sensualidade e idade ainda são itens de uma receita de gosto bastante duvidoso. O mais “sensato” é ter poucos amantes, esconder o corpo, interditar a sexualidade.

Beleza e juventude têm vãos. Não são bençãos absolutas.

Entre os muitos vãos, penso ser o maior deles a negligência do cultivo de uma vida interior.

Depois, a incapacidade de dialogar com profundidade sobre as dicotomias da existência: ser bom, ser mal, ser pecador, ser digno de perdão, ser transgressor e passível de indulgência — e autoindulgência!

Tudo isso, pensando alto, é o que diferencia, para mim, o que explica Roger Scruton, em seu magnífico Beleza: o interesse no corpo de uma pessoa e o interesse na pessoa corporificada.

Há reflexão para todos: estigmatizados e estigmatizadores. Para quem está envelhecendo de forma clara e para quem — com sorte ou azar, e respeito ambas as perspectivas — viverá muito.

Que seja como Ávida! E como meu pai.
***

Acompanhe as novidades da FAUSTO pelo Instagram!

Conheça também meu primeiro romance, NANA, um elegantíssimo convite ao autoconhecimento e à autorreflexão.

Disponível na Amazon!

NANA livro

Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.