Billie Eilish e o romantismo sombrio

Billie Eilish. O fenômeno pop da vez é o fenômeno das desclassificações. Fenômeno do anti. Sintoma romântico.

No dizer do filósofo francês Rüdiger Safranski, o romantismo acabou enquanto época, mas o romântico permaneceu como postura.

Seria Billie Eilish uma romântica?

Billie Eilish.

Os temas da moça continuam os mesmos, desde a fundação do mundo: amor e desamor. O que então é tão cativante em sua música?

Nascida em Los Angeles, Billie Eilish é de uma família bem estruturada e das artes. Compõe com seu irmão Finneas. E seus pais, Maggie Baird e Patrick O’Connell, são atores regionais. Família unida.

O novo símbolo da cultura jovem hiper conectada traz em sua imagem e em suas letras temas da agenda contemporânea: identidade melancólica, pungente desorientação, excesso de egocentrismo, além de um novo jeito feminino de ser.

A propósito, o que é o feminino no tempo de Eilish?

Billie Eilish é anti-silhueta.

Billie Eilish é anti-loira.

Da canção, idontwannabeyouanymore:

Disseram: Um vestido justo é o que te torna uma puta

Sobre questões de gênero, é o seu estilo que fala mais alto, não sua voz.

Suas roupas são largas, um tipo de streetwear. É tão parte da moda como qualquer peça sensual do início da carreira de Madonna. Bem a verdade, a rua nunca foi novidade nesse namoro entre a moda e o pop.

Provam isso as grandes marcas que a acompanham: Chanel e Calvin Klein, mas não só. Billie Eilish tem sua própria grife – e fatura muito com ela.

Não se faz mais românticos como Victor Hugo. Billie Eilish ama o dinheiro.

Mas, sim, há nela uma medida maior de autoconsciência. E esse movimento de sensibilidade que encabeça tem verniz romântico sombrio.

Absorver-se em si mesmo.

Tristeza aguda.

Fascínio pelo obscuro.

Por abstrações que duram, duram, duram… E ainda tem os olhos borrados de delineador, mas que não são por causa de amores desfeitos.

Em Everything I wanted, escreve:

Eu pensei que podia voar

Então eu pulei da ponte Golden Gate,

Ninguém chorou

Ninguém nem percebeu

Eu os vi parados ali

Meio que pensei que eles poderiam se importar

É por isso que seus shows estão cada vez maiores e se tornaram experiências quase religiosas. Porque eu sou demais pra lidar. No romantismo, quanto mais fundo se desce, mais contato se tem com a essência do próprio ser.

Billie Eilish canta a falta de um abrigo metafísico.

Nada novo. Antes de 1800, Ludwig Tieck escreveu:

Eu apenas vou ao encontro de mim mesmo

Num deserto vazio

A geração de Eilish, contudo, é rica. O impasse contemporâneo é essa conta que não fecha entre riqueza material e pobreza de sentido. E a instabilidade interior gerada leva a muitos para o vitimismo.

Ainda que em Eilish haja apenas um verniz romântico sombrio, contudo é um verniz espesso, de fortes referências. Por exemplo, sua inclinação à natureza, uma inclinação para o “mão na massa” – o que anteriormente era chamado de artesanato e hoje de did yourself.

Os assuntos de suas letras são angustiantes, sombrios, tratam de assassinos, de dominação, de monstros debaixo da cama. Em seu álbum de estreia, as batidas são trêmulas e os efeitos sonoros assustadores. A estética visual de seus videoclipes acentua esse quê de sombrio.

Há uma categoria estética típica do romantismo que contempla e cultua o belo-horrível. Estética do grotesco. Edgar Allan Poe sabia disso. Assim como Byron e Mary Shelley, outros nomes do romantismo das trevas.

Para o romântico, palavras de ordem podem ser tanto “mágico”, “nostálgico”, “desequilíbrio” e “extravagante” como “macabro” e “sobrenatural”. O olhar romântico se fixa num tipo de beleza traiçoeira e insinuante.

O que Eilish traz não é novo em nada. O gótico é filho dessa veia romântica. Vampiros e monstros; Frankenstein e Drácula. O que há no pós-morte é assunto inabitado, porém, tão sedutor que nenhuma época deixou de atravessá-lo, principalmente o romantismo. Os românticos contemplam a morte para encontrar o significado mais profundo da vida.

No imaginário de Billie Eilish há elementos claros de Edgar Alan Poe: presságios, premonições, sonambulismo, almas penadas, assombrações diversas. Na obra de Poe está a resposta da pergunta de Eilish: “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” Quando todos adormecemos, para onde vamos?

Talvez, para um lugar seguro. Um lugar onde não há o duplo. Onde a dificuldade do encaixe social não fale mais alto a ponto de necessitar da fantasia.

 

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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