Bong Joon-ho: o garoto de Hollywood

Bong Joon-ho já está acostumado a quebrar recordes. Muitas vezes até de si mesmo. Na Coréia do Sul, é de praxe. Agora nos Estados Unidos, principalmente, mas também ao redor do mundo com o seu Parasita, o cineasta ganha as manchetes do mundo por ter feito a academia americana de cinema ceder em seu tradicionalismo.

É interessante, entretanto, saber que Bong, ainda jovem, devorou filmes de Steven Spielberg, Sidney Lumet e John Frankenheimer. Já era chamado nesta época, em seu entorno, de “garoto de Hollywood”, porque era apaixonado pelo cinema americano – o que, claro, gerou sentimentos contraditórios nele mesmo e em seu público nativo, depois de certa fama, devido à maneira como os americanos retratam conflitos militares em seu país.

Bong Joon-ho
Bong Joon-ho.

Bong Joon-ho nasceu em 1969, em Daegu, uma cidade conservadora, mas assim que pode se mudou para Seul. Os filmes americanos que via eram na televisão, especificamente no canal AFKN das forças armadas dos Estados Unidos. Tudo parece muito irônico, não?

Formado em Sociologia pela Universidade Yonsei, quando à época era um viveiro do movimento democrático, mantém ainda interesse nos protestos pró-democracia, além de tudo o mais que envolve seu grande amor, os filmes. Unir as duas coisas, de alguma forma, é o que faz. Afinal, quem é capaz de fazer outra leitura de Parasita que não a da desigualdade social bruta?

Sua alegria, então, não poderia ter sido maior quando, em 2009, Quentin Tarantino nomeou um de seus filmes como um de seus favoritos da década, além de ter comparado seu trabalho com o de Steven Spielberg da década de 1970.

O Hospedeiro foi reconhecido na Coréia como um dos primeiros filmes a protestar, abertamente, contra a presença militar dos Estados Unidos. Depois desse longa, é curioso que Bong Joon-ho tenha feito seus próximos dois filmes com atores americanos, dinheiro americano e, sim, criticou muito a América. Mais uma ironia? O garoto de Hollywood parece que pode tudo.

Parasita parece leve e até divertido, a princípio, mas não demora a aprofundar sua crítica, a ponto de transtornar. É impossível não se autoconfrontar no decorrer da história do garoto Kim Ki-woo, quem primeiro toca – a mim, pelo menos – pela vontade banal de parecer digno diante de uma menina bonita.

Ki-jung, a talentosa irmã artista gráfica é, para mim, o niilismo em ação. A cena em que senta na tampa da privada e acende um cigarro, no ponto alto do filme, é devastadora.

Aos poucos, o filme apresenta as particularidades de cada um. O pai, Ki-taek, é motorista desempregado. Já a mãe, Chung-sook, ex-estrela do atletismo. Todos estão desempregados e moram numa espécie de porão, cuja vista é para o chão de uma rua sem saída.

Parasita é um drama social realista, que não deixa margem para devanear. Entretanto, a genialidade de Bong Joon-ho não foi ter dado uma porrada como essa, mas com um sorriso malicioso?

Com elenco totalmente coreano, a trama foca em duas famílias: uma muito pobre e outra riquíssima. O filme fez sucesso no Festival de Cinema de Cannes antes e colocou Bong como o primeiro diretor coreano a ganhar a Palma de Ouro.

Imprevisibilidade é uma de suas marcas. Quase sempre se sabe como um filme acabará, mas não os de Bong.

As reviravoltas do filme se dão pela mesma contingência de todo dia, para milhões de pessoas. Espanto é apenas para quem tem poder de escolha.

É também uma memória que volta para quem, de maneira milagrosa, conseguiu romper o ciclo de pobreza à sua volta, estudando e trabalhando dia após dia. Os irmãos Kim não queriam estar na faculdade?

Nesta segunda premissa encontrei-me e por causa dessas memórias saí na chuva logo após assistir ao filme, porque eu precisava respirar, porque o medo invadiu-me como o esgoto na casa da família pobre. É o que acontece muitas vezes com quem carrega dentro de si a crença de ser o bairro em que mora, a roupa que veste ou tudo aquilo que não tem, mas deveria ter para não parecer uma vítima. Como descobrir quem sou sem aquilo que vejo? Ou ouço. Ou cheiro.

Como bem definiu Richard Brody, em seu artigo para a New Yorker, Parasita olha com amargo desânimo uma ordem que fica aquém, um senso de direito e de organização social que funciona de maneira eficiente, mas equivocada.

Que Bong Joon-ho não perca jamais esse olhar paradoxal que entretém, que diverte, que emociona, mas, que, principalmente, nos leva a um questionamento. Para agradecer ou para lutar.

 

Nobre dama, nobre cavalheiro,
Desejamos que tenha apreciado esse artigo sobre o filme Parasita. Se ainda não assistiu, se apresse! Enquanto isso, gostaríamos de deixar o singelo convite para nos acompanhar em nossas “redes sociais”, esse termo ainda estranho para nós, de tantos séculos atrás, assim como é estranho em sua totalidade pela família Kim. Doravante, temos de nos adaptar a esse tempo virtual! Estamos, portanto, no Facebook e inteirinho em preto e branco em um belíssimo perfil no Instagram. Será para nós uma alegria!

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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