Das fronteiras do pensamento

Este ensaio é uma expressão de encanto. Viajo por emoções recentes. Inigualáveis a quaisquer outras que senti. Emoções dificílimas porque me mostraram, pela primeira vez, que do pó nasci e ao pó voltarei. Evidente? Nem tanto.

É na juventude que vivemos a primeira camada espessa de compreensão da linguagem. Longe das fantasias da infância, mas ainda distante dos ceticismos e rabugices da velhice, vivemos o dia. Carpe diem! São tantos os que gostam dessa expressão e na certeza – ilusão? – vivem pensando nos sonhos de amanhã. Nada é para hoje.

Das fronteiras do pensamento.

Eu olhava para o monitor porque estava entediada. A sala era cinza escuro, vazia e fria. O aparelho de ultrassom e a mão plástica do médico passaram tão rápida quanto desalmada por meu seio esquerdo. Contudo, o tempo mudou no meu seio direito. Foi como uma suspensão. Desci mais uma camada de compreensão da linguagem.

Não foi a demora na averiguação. Foi porque eu vi. Eu vi o intruso. Não era meu, não fazia parte de mim. O coração acelerou, os olhos encheram d’água, o pavor deitou sobre mim e tão rápido quanto desalmado me tomou com violência.

É na juventude que vivemos a primeira camada espessa de compreensão da linguagem. Com sorte, o vocabulário de emoções já é suficiente para formar a base de dois ou três sentidos imprescindíveis para se viver bem. Com sorte. As demais camadas, penso, nascem nas fronteiras. Nas fronteiras do pensamento.

A linguagem não alcança determinados níveis do pensamento até que se experimente determinadas situações. Essa afirmação não é científica, evidentemente. Essa afirmação é visceral. Ninguém me convencerá do contrário. Ninguém apagará a agonia que senti ao discutir pela primeira vez, no divã, como quero morrer. É revés! Antinatural. Ou nada é mais natural e porque somos arrogantes deixamos que nossas convicções nos limitem a dois ou três sentidos.

Lembro então de outra lição de Montaigne. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade. Daí me pergunto, da forma mais dolorosamente honesta que consigo, quantos minutos vivi verdadeiramente livre.

De ímpeto, me lembro de dois: quando amei e quando compreendi que não sou vítima. De nada. De ninguém. Não espero nada. Não temo nada. Sou livre. Níkos.

Siddhartha Mukherjee é autor de O imperador de todos os males: uma biografia do câncer, livro vencedor do Prêmio Pulitzer, em 2011. Ao assistir sua conferência no Fronteiras do Pensamento, relembro essa visita às fronteiras de meu próprio pensamento, esse tão único, tão intransferível. Assistir a conferências, ler livros, conversar com os mais próximos sobre os mais variados temas não significa necessariamente ir às fronteiras de nossas próprias ideias. Fronteiras requerem mais coragem.

Fronteiras não significam abandono do conhecido, mas permitem vislumbrar o infinito adiante, totalmente desconhecido. Fronteiras não significam que temos de deixar de ser quem somos, mas avisam que para continuarmos sendo quem somos será preciso e imprescindível certo desaparecimento. Nossos pensamentos são a maior prova da Síndrome de Estocolmo.

Ainda que meus pensamentos sejam soma de tantos outros pensamentos, sei que tenho vida interior e tão rica ela é que me sinto solo fértil. Sementes caem e ganham vida em mim. E cuido de minha terra, as emoções, com o cuidado de uma virgem refém das ilusões do amor. Reservo-me e preservo-me em nome das letras. A escrita viva é resposta de experiência interior.

Este ensaio é uma expressão de encanto. Encanto por aqueles que dedicam suas vidas a ser instrumentos do avanço do pensamento, da descoberta do ser que somos. E por que somos? Que em meus momentos finais eu esteja abraçada à passagem literária de minha vida, tatuada. Tatuagens são formas ingênuas de não morrer só.

Quantas perguntas jamais conseguiremos responder? Naquela sala fria, vivi a passagem para outro nível de compressão da linguagem. Milímetros de espessura tinha esse nível, mas como para tão fundo em mim me levou.

Outros níveis menos fatais atravessamos quando vivemos a dor da traição. E é tão diferentemente absurda a traição de um amigo e a de um amor.

Outro nível ainda é quando se vive na mira de um algoz. Por isso sei a diferença entre ser vítima de uma circunstância e vítima de meus próprios medos. Enquanto um diz sobre contingência, o outro diz sobre poder de escolha.

É impressionante como os afetos se reorganizam na medida em que descemos mais camadas de compreensão da linguagem. O que era ódio passa a ser indiferença. O que era uma aparente capacidade de amar e perdoar provam ser permissividade nua a crua. A língua é mesmo um sistema de possibilidades.

As fronteiras do meu pensamento são lugares assombrosos, para o bem e para o mal. Atrás, está tudo o que conheço de expressões, de argumentos, de frases que se conectam com espantosa velocidade. Adiante, apenas o mistério, o que não sei dizer, o que sequer tenho certeza se existem palavras. O inefável.

Este ensaio é uma expressão de encanto diante desses tantos, homens e mulheres, que deixam a vida que pulsa de lado em razão da necessidade de explicação que todos temos para o que não cala. E, com sorte, acumularemos livros e mais livros e mais livros.

O desejo de ser livre permanecerá em nós apesar de nós. O desejo de ir além das fronteiras, também. Ainda que com medo. Ainda que já sentenciados. Espantoso e admirável é o pensamento.

 

Dedico a Eduardo Wolf e Fernando Schüler.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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