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Denise Weinberg: “Sou o prazer dos outros”

Há atrizes que radiografam o mundo. Denise Weinberg pertence à linhagem das que preferem o metrô ao carro blindado. Com uma carreira tecida no rigor do Grupo Tapa e na observação silenciosa das ruas, ela se define como “formiga”: operária de um ofício que não aceita o atalho da vaidade, mas exige o compromisso do tijolo por tijolo. No filme O Último Azul, de Gabriel Mascaro, sua protagonista, Tereza, nos convida à ousadia. Tereza também é Denise. Como uma artista que conhece o avesso do próprio bordado, ela nos ensina que, no cinema e na vida, resistência ao adestramento social e urgência em resgatar a imaginação são alternativas de sobrevivência nesse mundo de narrativas fáceis. Entre o calor da plateia do teatro e a solidão da lente, Weinberg é uma voz que clama por lirismo, provando que a autonomia é o único refúgio possível para quem escolhe a contramão como destino.

Foto: Bob de Sousa.


FAUSTO – Você acredita em livre-arbítrio?
Denise Weinberg: Acredito. Até a página dois. Acredito em opções. Eu não usaria a palavra “livre-arbítrio”. Para mim, tudo é opção. Você opta por aqui ou ali. Tudo é escolha. Às vezes você escolhe bem; outras, não. “Livre-arbítrio” é um conceito muito religioso. Vejo de forma mais mundana. Acredito muito, também, na intuição. Trabalho assim.

Você tem religião?
Não tenho religião. Não sou católica, não gosto de dogmas, mas tenho fé. Muita fé.

Acredita em energia?
Sim. Sou meio quântica. Acredito em sintonia. Quando você quer uma coisa e se sintoniza com o que quer, acontece. Falo por experiência. Não fico correndo atrás. Construí um caminho. E hoje — é incrível dizer isso — vivemos a época do fast food: tudo tem que ficar bom para ontem. Você ensaia um mês e já está ótimo. Não existe mais construção, só execução. Se você executa bem, está dentro; se demora, está fora. Então, no fim, trata-se da energia de cada um. Sintonia ruim atrai sintonia ruim. Conviver com pessoas ruins deixa a cabeça mal, você adoece, começa a fazer associações negativas. Falo assim, mas reconheço que é difícil manter uma sintonia sempre limpa, alegre. A vida, para mim, é uma luta para manter uma sintonia possível para sobreviver — agora mais do que nunca.

Isso de “escolher é renunciar” amplia ou reduz nossa liberdade?
Quando você escolhe, amplia as próprias possibilidades. Quando deixa passar, perde.

Como seus critérios de escolha se aplicam à sua vida de atriz?
Não escolhi ser atriz. Sou bióloga. Fui caminhando nesse meio porque gosto de arte; fui criada na arte. Quando me dei conta, estava sendo atriz. Andei muito pelos bastidores, produzi muito, fiquei 30 anos produzindo, já sendo atriz. Todas essas escolhas foram me levando para onde estou agora. Se eu tivesse escolhido ficar casada, continuar como bióloga, eu seria outra Denise. As escolhas de lá de trás, há uns 20 anos, me trouxeram até aqui. Saí do Rio de Janeiro e vim para São Paulo com o Grupo Tapa e, de repente, estava na China recebendo prêmio. Que loucura é essa? Por isso é importante escolher bem, embora, às vezes, escolhemos mal e nos arrebentemos — quem não?

Autoconhecimento aumenta nossa liberdade ou revela o quanto somos condicionados?
As duas coisas. Autoconhecimento aumenta a liberdade e revela o quanto somos condicionados. Também amplia a compreensão e a compaixão. Se as escolas dessem ferramentas para o autoconhecimento, o mundo seria outro. Antigamente, não se falava nisso. Na época da minha mãe, não existia essa noção, principalmente para as mulheres. Hoje, isso está mais presente — ainda bem. Na minha vida, é um trabalho mais quântico, de afinidades. Já não me choco com tanta coisa, não me deprimo facilmente, consigo buscar o famoso equilíbrio. Claro, há dias mais difíceis que outros, faz parte. A vida não é um mar de rosas, pelo contrário. Por isso vejo o autoconhecimento como forma de proteção. Não é se mostrar para o mundo, é se mover para dentro. Ficar quieto. Ficar em casa. Ficar em paz. As pessoas não se aguentam. Eu moro sozinha e acho inacreditável como pode ser uma tortura para algumas pessoas morar só. Tenho um amigo que chega em casa e liga a televisão — só para ter barulho. Autoconhecimento é esse exercício de estar consigo, de se sustentar no silêncio, e, a partir daí, ser mais livre.

Voltando ao começo, eu creio que o autoconhecimento é importante para fazer escolhas, claro, como você pontuou, mas renunciar também é legal.
Quanto mais você vai envelhecendo, mais liberdade tem para a renúncia. “Ah, Denise, venha aqui tirar foto.” Eu odeio tirar foto. Isso não é grosseria, é um limite que preciso impor. A Tereza [personagem do filme O Último Azul] me ensinou muito, sabe? Saí transformada desse trabalho. Quando recebi o roteiro do Gabriel [Mascaro], meu corpo tremeu. E eu tenho isso, se começo a ler e aquilo bate, sinto algo fisicamente. Sempre foi assim — com roteiro, com peça. É quase um “frisson”, não é só suar, é uma alteração física, o corpo reage. Revisitando minha carreira, sempre são histórias que acreditei. Não faço por fazer. Talvez por isso a televisão, para mim, seja um inferno, porque falta esse tempo de construção, de aprofundamento. E poder escolher assim é liberdade. Sei que tenho essa liberdade e faço questão de exercê-la.

A liberdade também tem seu preço, certo?
Um preço altíssimo. Porque você deixa de fazer o que a mídia quer. Hoje, o que parece importar é quantos seguidores você tem. E esse nunca foi o meu critério. O que me orienta é outra coisa: o que vou fazer, o que vou dizer, sobre o quê e com quem. Para quem? Isso me baliza desde que saí do Grupo Tapa. Durante 20 anos, o grupo foi minha família. Ali, eu sabia quem era quem; havia uma identidade, um chão comum. Quando você sai e vai “para a rua” e começa a “costurar para fora”, precisa olhar tudo de outra forma, mas nunca me afastei desse meu critério. Nunca foi “vou fazer por dinheiro”. Claro que não é simples; é difícil dizer não. Eu disse muitos nãos. Tanto que hoje, dependendo do projeto, nem me chamam. Faço muitos filmes de baixo orçamento, muito B.O. Praticamente todos os filmes que faço são assim. E são, quase sempre, as melhores histórias.

Que sigla maravilhosa!
É do cinema.

Compreendo bem esses critérios e o preço que cobram.
É difícil me chamarem para fazer uma coisa que não é a minha cara. Com todo respeito, fazer “Os Farofeiros”. Nem sei fazer isso. Não sei e não gosto. Vou me deprimir horrivelmente. E o problema é quando você volta de um trabalho como esse.

Como foi quando voltou da Amazônia?
Voltei plena! Não queria fazer mais nada. Cheguei em casa e fiquei olhando para o teto por semanas. Não era depressão, era satisfação. Sabe quando você come um prato maravilhoso e depois não quer mais nada? Eu precisava digerir tudo aquilo. A Amazônia tem uma força absurda. Mas também é um mundo paralelo, em processo de devastação, de uma miséria enorme. É bar, igreja evangélica, bar, igreja evangélica. A vida ali é cruel. As mulheres de 40 anos já estão exaustas. Sol o tempo inteiro. Viver na Amazônia não é fácil. Floresta tropical, você passa o dia com gelo no pescoço. A natureza afeta — pelo menos a mim, que sou muito ligada à natureza — corporal, mental e energeticamente. Aí você sai de lá e entra em São Paulo? É um choque! Não dá para sair fingindo que nada aconteceu. Fui voltando devagar, aos poucos, tentando entender o que ficou em mim. Demorei para conseguir ir ao teatro ou cinema, e olha que sou uma espectadora voraz. Embora esteja difícil…

Em que sentido?
A qualidade do teatro caiu muito, porque não há dinheiro. É tudo precário. Não dá para reunir as pessoas, ensaiar com tempo, pesquisar, construir cenário. E arte precisa disso. Precisa experimentar, jogar fora, tentar de novo. Quantos quadros o Leonardo da Vinci deve ter pintado e descartado? Gosto do artesanato. Gosto da feitura, de ensaiar, de estudar, de ler. Gosto de descansar de mim.

Por isso você é atriz?
Sou atriz por pretexto de não pirar, porque a função me cura, me salva. Sou o oposto de muitos atores famosos — que estão atrás do glamour, do dinheiro, e que compram coberturas não sei aonde, carros blindados. Eu acho isso uma doideira tão grande, porque eu sempre fui dura. Sempre fiz teatro. Então, eu não lido com isso. Não tenho gana de ter coisas materiais, porque daí vou ter que perder tempo cuidando de patrimônio e tal. Não quero isso para mim.

Acho esse desapego sensacional. Isso, para mim, é a verdadeira liberdade.
Adoro viajar, sabe? Trabalho e, com o que ganho, viajo. Estou acostumada a viver na contramão. Sou uma puta da cultura. Sou o prazer dos outros. E eu gosto. É muito gratificante. Esse filme foi um presente tão grande. O retorno que recebo, por exemplo tudo o que você disse [em off]. Recebo mensagens do Canadá, da Grécia. O cinema tem esse barato: você está no mundo inteiro sem sair de casa. Esse filme toca. E por que esse filme toca tanto? Eu me pergunto isso.

E a qual conclusão chega?
Acho que ele toca porque todo mundo vai envelhecer. “Ah, você vai fazer uma velha de 75 anos.” Caguei para os 75 anos. Sou velha. Sou idosa. Vou fazer 70. Teve cena em que me joguei da lancha no Rio Negro, nadando, fugindo. Eu parecia uma “Rambo”. Uma loucura! Tenho a garra que a Tereza tem. Ela não é agressiva, é dura, resoluta. Ela sabe, ela não elabora. Uma coisa que acho linda na personagem é que ela pega as coisas dos outros, absorve e recicla. Os encontros não são fortuitos. Ela pensa tanto para chegar ao final a que chega. É aquela… [pensa na palavra ideal].

Astúcia.
É, exatamente. Ela é inculta. Ela não é ignorante porque ela escreve e lê, mas ela tem a sabedoria dos simples, uma sabedoria rústica, que essas mulheres dessas regiões têm.

O que ela mudou em você?
Ela corroborou muita coisa que estava latente. Emprestei para a Tereza a Denise, mas da minha maneira fantasiosa, criando, não deixei de ser um pouco a Denise. Temos em comum a resolução, o foco. Ela me fortaleceu no sentido de que não devemos deixar que digam: “Ah, você está velha, encosta.”

Certamente o filme está contribuindo para uma mudança de mentalidade.
Sim, tenho participado de vários encontros falando com psicanalistas. Já fiz algumas palestras, fui para a China, para a Alemanha, França. Fortaleci a Tereza e ela me fortaleceu.

Nietzsche criou o conceito de “eterno retorno”. Se você tivesse que reviver a sua vida infinitamente, fazendo as mesmas escolhas, você reviveria?
Não me arrependo de nada. Faria, sim, o eterno retorno: sair do Rio de Janeiro, ter um filho, me casar. Casei-me muito cedo para sair de casa; tive filho muito cedo, não era madura o suficiente. Agora, se cada vez que eu retornasse eu pudesse melhorar um pouquinho, igual fazemos no teatro, seria ótimo.

Você é bastante crítica com a forma como o teatro é feito hoje em dia, certo?
Teatro é repetição. Você faz experiências durante a temporada. Por isso é que temporada de um mês é balela; não é teatro, é performance. Teatro se faz seis vezes por semana, com duas sessões no sábado. Isso é o ofício. Sábado e domingo você faz o quê? Joga tênis no clube. Teatro virou hobby. É raro uma temporada que fique mais de quatro semanas. Trabalhando para esses teatros de edital ou Sesc, você fica pulando de galho em galho — isso não é vida. Isso não é ofício, e ainda é indecente, perverso. O Sesc está vergonhoso.

Você sente que, no Brasil, o ator só é bem tratado se é famoso?
Sem dúvida. Aqui, o tratamento digno está estritamente atrelado à fama, e não ao talento ou ao ofício. Lá fora a realidade é outra. Quando fomos ao Festival de Berlim, o Rodrigo era o único realmente conhecido, mas a equipe do festival nos tratou com uma dignidade impressionante. Lembro-me da diretora do festival vindo falar comigo, agradecendo pelo que eu trouxe para o filme. Eles nos trataram como “porcelana”, com respeito profundo pelo artista. No Brasil, infelizmente, se você não é uma celebridade, o tratamento beira o descarte. Somos tratados como se vivêssemos na rua.

Esse tratamento “descarte” parte também da própria classe e da mídia?
Sim, e isso é o que mais dói. Existe uma separação nítida entre “quem interessa” e o resto. As estreias de teatro, por exemplo, viraram feiras de negócios e contratos fictícios, onde o lobby é mais importante do que a peça em si. A mídia só quer saber de quem está na novela ou de quem é famoso. Se não há registro de um rosto estourando na TV, parece que não houve estreia. Já perdi a conta de quantas vezes fui enviada para a fila da figuração em emissoras, porque nem sabiam quem eu era.

Como compreende essa busca incessante pelo patamar de “celebridade”?
É uma tentativa constante de separar o joio do trigo, baseada em critérios que nada têm a ver com arte. Criou-se esse patamar de “celebridade”, que é quase intocável, enquanto o ator que vive do seu trabalho, mas não está no holofote da vez, é invisibilizado. É uma diferença de tratamento brutal e completamente real. Enquanto em outros centros culturais estrangeiros o ator é respeitado por sua entrega, no Brasil ainda lutamos para sermos vistos como profissionais dignos de respeito, independentemente do número de seguidores que temos ou do tempo de tela na novela.

Você acredita que o desapego de coisas materiais acaba se tornando um critério de seleção social? Irônico, inclusive, porque muitos artistas vivem de imagem…
Com certeza! E isso é um plano deliberado. O sistema é alimentado pelo consumo; se não sou consumista, não interesso ao capitalismo. Eu não tenho carro, não tenho micro-ondas, não uso roupas de marca. Para o mercado, uma postura simples assim me torna invisível. O que interessa para eles é quem vai ao cabeleireiro e transforma um ato prosaico — como cortar o cabelo — em um evento para os outros verem.

Você sente que sua autonomia reflete nos seus processos criativos?
Sim, e a personagem Tereza me deu esse alento. No filme, inclusive, houve uma mudança importante na edição. Originalmente, a cena final era diferente, eu chegava a voar literalmente, e cheguei a filmar isso. No entanto, o editor [Sebastian Sepulveda] — um chileno bárbaro — e o Gabriel [Mascaro] perceberam que o pé no chão, aquela escolha final da edição, era muito mais potente.

Eu não tenho a menor dúvida disso! Achei o final poderosíssimo!
Às vezes, o desapego de uma ideia grandiosa em favor de algo mais humano e real é o que dá força à obra.

O que você mais aprendeu em seus anos de Grupo Tapa e em sua trajetória como protagonista?
Aprendi que ser protagonista traz uma responsabilidade que vai muito além do papel. No set ou no palco, você precisa ser o exemplo. Se o protagonista abre o precedente para o “piti”, o elenco inteiro esfacela; é como uma maçã podre que contamina a cesta. Já filmei na Amazônia, sob um calor de 40 graus, 12 horas por dia, e nunca reclamei. Se eu, que sou a protagonista, estou ali aguentando, ninguém tem coragem de criar um motim. O “piti” é, na verdade, uma resistência ao deslocamento. Quem sabe o que está fazendo, vai lá e executa. Quem dá showzinho é porque não sabe para onde está indo ou tem resistência em abrir mão do próprio glamour para servir ao personagem.

A vaidade é o grande obstáculo para o artista?
A vaidade é um pecado capital que a mídia e a sociedade adoram alimentar. O mundo tem essa necessidade de eleger “mitos”, de puxar o saco, e o ser humano se deixa seduzir facilmente. É por essa mesma lógica que ditaduras duram tanto: é muito mais fácil viver sob um regime ditatorial, no qual você só reclama do líder, do que em uma democracia, em que você tem liberdade e precisa arcar com suas escolhas. Maquiavel já falava sobre como o ser humano é seduzido pelo poder, pela vaidade e pelo dinheiro.

Como diferenciar uma escolha verdadeira, baseada na liberdade, de uma escolha influenciada pelo medo?
O medo é paralisante. Se você escolhe movida pelo receio — seja o medo de não ganhar dinheiro ou de não ser mais chamada — o fruto dessa escolha já nasce podre. É como ter um filho que você não quer; existe um rechaço imediato. Acredito no contrário: são as escolhas corajosas que valorizam o seu “passe”. Muitas pessoas me acham “chata” porque eu abro mão de projetos, mas eu só abro mão do que não me representa. Para mim, o trabalho do ator é como um bordado. Às vezes, a pessoa não é capaz de entender a complexidade desse bordado, nem o seu avesso, mas a beleza alcança. Não entrego trabalho malfeito só por conveniência. Meu compromisso é com a qualidade do que estou tecendo.

Durante nossa conversa, você mencionou a experiência de filmar em preto e branco com o diretor Sérgio Rezende, daí fiquei curiosa: como essa escolha estética afetou sua atuação?
Foi uma descoberta fantástica. Atuar em preto e branco é completamente diferente de atuar em cores. O preto e branco é alma; ele não aceita o excesso. As nuances de cinza revelam muito mais do que as cores, que muitas vezes distraem. Enquanto o mundo prefere a “Disneylandia”, o preto e branco entra como uma faca: ele radiografa a alma. Aprendi com o Sérgio que, no preto e branco, você precisa fazer menos ainda. Não é “não fazer nada” — ou ficar com cara de nada —, é o que eu chamo de “fazer nada com qualidade”. Existe uma vida pulsando ali dentro, um movimento nos olhos, um sístole e diástole do coração que a câmera capta. Sou alucinada pelo cinema do húngaro Béla Tarr, que trabalhava com takes longos e pouquíssimo diálogo. No filme que fizemos agora com o Sérgio, fomos cortando as falas durante o processo porque percebemos que não precisava de tanto barulho. Quando a vida está pulsando dentro do ator, o preto e branco capta essa textura de forma profunda e humana. O cinema é esse movimento interno. Se você tem verdade dentro de si, não precisa de muletas coloridas ou de muitas palavras para ser compreendida.

Qual é a principal diferença entre o fazer teatral e o fazer cinematográfico?
O teatro é alquimia pura; tem feedback, troca. Você sente o riso, o choro e a atenção do público. É uma energia que você espalha, colhe de volta no caldeirão e joga novamente para a plateia. Você sai do palco pilhada, com energia para fazer mais três sessões. O cinema é o oposto: as lentes “chupam” sua energia. A lente é solitária. No set, você grava o seu lado da cena, e o outro relaxa para gravar o dele. É um processo fragmentado e exaustivo. A câmera exige uma entrega que não tem retorno imediato. Saio de um dia de filmagem querendo apenas um banho e a minha cama.

Durante a peça, eu costumo observar quem não está falando. Não sei por qual razão tenho essa mania, mas pensei em dividir isso com você…
Porque o “não falar” é a coisa mais difícil no teatro. Quando você fala, é fácil; mas estar mudo e presente no jogo é onde a alma aparece. Eu também sempre olho para quem está em silêncio para entender se a história está andando. O espectador desvia o olhar do microfone para ver a reação do outro, e é essa reação que dá a compreensão real da trama. Se o ator que não fala não está presente, ele quebra a verdade de quem está falando.

Como o estudo da física quântica e do mindfulness ajudou você a lidar com a ansiedade da profissão?
O teatro é a arte que exige o maior mindfulness possível. Se você pensa na fala seguinte, você erra a atual, porque saiu do “aqui e agora”. Trazer essa presença para a vida me salvou da ansiedade. Hoje, se estou conversando com você, estou inteira aqui. O “depois” eu vejo depois. A ansiedade mata a criatividade.

Em algum momento da nossa conversa você se descreveu como uma “formiguinha”. Foi assim que você construiu uma carreira sólida?
Sim, sou uma formiga muito trabalhadora. Tudo o que eu construí foi tijolo por tijolo, sem a pretensão de “vou construir um império”. Aconteceu porque tive curiosidade e me aprofundei. No Grupo Tapa, aprendi a zerar tudo a cada novo trabalho. Não me fio nas ferramentas que já tenho; a graça é o frio na barriga de começar do nada. É um trabalho solitário, assim como o do escritor, mas é o que dá sentido à caminhada. Não acredito em mitos, acredito no trabalho de formiga.

Acredita que a falta de leitura interfere na compreensão de obras “mais complexas”, como o filme O Último Azul?
Com certeza. No Brasil, parece que nos acostumamos com tudo “mastigado”. É a estética da novela: aquele é o mau, aquele é o bom, e pronto. Só que a vida não é assim. Eu, que venho do século passado, percebo muito isso no teatro: o público perdeu a capacidade de abstração. As pessoas querem receber tudo pronto, sem precisar “preencher as lacunas”. Só que o barato da arte é justamente esse: o exercício de completar os espaços vazios com a sua própria imaginação.

E como a literatura entra nesse processo de exercitar a imaginação?
A literatura é a mais forte das artes nesse sentido, porque ela obriga a imaginar. Para mim, ler é um vício. Um vício nutritivo. A leitura abre mundos. No ano passado, fizemos um estudo sobre Dostoiévski, focando em Crime e Castigo, e abrimos para atores jovens. Foi fascinante ver como aquilo abriu a mente deles. A literatura é um exercício promotor; ela permite uma fuga boa, onde você descansa do peso do mundo real.

Sente que a realidade superou a ficção de maneira negativa?
A realidade hoje é tão fantástica, no sentido negativo, que nada mais impressiona. Tudo se tornou possível. Por isso, hoje sou muito seletiva: tem muita coisa que eu simplesmente digo que não vou ver. Não me interessa mais esse excesso que não deixa espaço para a imaginação.

Costuma manter-se informada acerca dos acontecimentos do mundo? Você acredita que tem uma função na ordem do mundo, no sentido macro?
A minha função é mostrar a beleza na arte. Eu vim para isso e ponto final. Não tenho essa obsessão de “chegar lá”. Para mim, chegar a algum lugar é só no caixão, e aí partimos para outra etapa. O grande problema é que o capitalismo do século XX nos impôs um mecanicismo absurdo que nos roubou a poesia, o lirismo e a imaginação. Hoje, tudo é feito para chocar, e o choque oblitera a capacidade de imaginar. As pessoas não se dão mais o tempo de deitar e simplesmente não fazer nada. É o exercício de olhar para o teto, de ter um refúgio de abstração. Não tenho carro, uso transporte público e sou uma observadora nata do ser humano. Vejo que hoje, no metrô, ninguém mais olha o mundo ou observa quem entra e sai. Todo mundo “tem que estar fazendo algo”. Quando me perguntam o que estou fazendo agora, eu digo: “Nada”. É preciso dar esse tempo ao pensamento, mas a sociedade atual exige produção ininterrupta.

Essa exigência de produção constante afeta a forma como a sociedade enxerga o envelhecimento?
Com certeza. O etarismo é um subproduto direto dessa lógica capitalista: se não faz dinheiro, não interessa e pode ser jogado fora. Quase vivemos uma distopia durante a pandemia, um plano de “deixar morrer” os mais velhos para não atrapalhar a produção. É uma mentalidade diabólica separar quem já não produz lucro, como se fossem descartáveis.

O que representa um esforço para você continuar sendo livre hoje?
O maior esforço é preservar minha autonomia em todos os níveis. Manter-me autônoma é um exercício de resistência, porque a sociedade não acha isso interessante; pelo contrário, ela tenta me projetar em moldes o tempo todo. Sempre fui resistente ao adestramento. Tenho pavor de ser “domesticada” ou forçada a caber em uma caixinha. Para mim, viver em uma caixa é como estar no chão, sem perspectiva.

Sente que essa liberdade causa algum tipo de estranhamento nas pessoas?
Sinto que preciso de um esforço extra para suportar o que vem de projeção externa. Lembro-me de uma situação emblemática: fui passar o Ano Novo sozinha em Machu Picchu. Adoro viajar assim, no meu ritmo. Fui casada por muito tempo, dos 20 aos 45 anos, até que descobri que não nasci para o casamento. Naquela viagem, peguei um micro-ônibus às quatro da manhã para ver o nascer do sol nos gêiseres. Quando entrei, havia uma mulher com o marido que não parava de me encarar com um olhar de: “O que essa mulher faz aqui sozinha, em pleno Ano Novo?”.

Como você reagiu a esse julgamento silencioso?
Foi quase cômico. Quando olhei de volta, ela agarrou o marido, como se eu fosse uma ameaça ou uma louca. É impressionante o incômodo que uma mulher sozinha causa. Nesses momentos, tenho que contar até cinco para não dizer: “Minha filha, pelo amor de Deus, daqui a cinco minutos você estará discutindo com ele, eu é que não quero esse nó na garganta!”. São essas pequenas situações que mostram como a sociedade tenta nos cobrar um encaixe. Manter minha liberdade é, acima de tudo, não permitir que ninguém me adestre.

A perda da capacidade de sonhar compromete a nossa capacidade de agir politicamente?
De alguma forma os nossos sonhos estão ligados ao agir, do agir politicamente. Sim, temos que sonhar. Temos que subir para depois descer, né? [Ri]
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