Do rompimento

Ou melhor seria do irrompimento? Sem você não sei ser e ante a certeza de seguir só me sinto incapaz sequer de pronunciar meu nome.

É que você me tirou a amargura da voz, do andar, do gosto do sal do choro que nunca parou até aquela tarde fria em que desafiei meu destino.

Nessa dor, não sou mais a mesma. Sou única em um modo de vida em extinção. Vida que você admira tanto que não achou saída a não ser me matar dentro de você para não se ver em meus olhos.

Só que existimos juntos. Se me mata, se mata. Matar ou morrer, tanto faz, que faz de nós contingentes amargurados que não podem mais pronunciar os próprios nomes.

Do rompimento.

Onde reina o silêncio que ecoa por sua falta, morro do amor que viverá apenas no papel até o fim. Morro do amor que nunca saiu do papel. Um amor tão grande que não coube em sua covardia. Não coube em meu medo maior, o da diminuição.

Você é tão vivo! Tão vivo que irrompe em mim ainda que não me toque, que não fale comigo, que não pense em mim. E eu sou mística, resisto à sua subversão. Ao me matar todos os dias, ressuscito todos os dias mais forte sob o amor e o ódio. Sou mutante romântica. Torno-me mais forte à medida que morro. E rezo todos os dias porque não tenho vontade de viver.

Rezo não com fervor, mas com raiva. Minha fé é sustentada pela vontade de feri-lo com as palavras mais cruéis, talvez com as mesmas que abandonei logo depois da sorte de tê-lo encontrado. Como pode significar o nó e a soltura? Como pode significar a misericórdia de um Deus que me esqueceu e a condenação desse mesmo Deus porque ele simplesmente quis.

Você foi embora e o sono também. Não durmo mais na expectativa de um novo sol. Eis que faço novas todas as coisas? Deus me esqueceu.

Deus me esqueceu e você me deixou. Eu o deixei. Jamais nos deixaremos enquanto houver verbo anômalo. É difícil demais nos conjugarmos. Mas não será essa a beleza de existimos juntos? Nunca escolhemos o caminho mais fácil, por que agora?

Já temos passado, não mais o presente. Se você voltar, será que o meu sono volta? Preciso dormir.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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