Do tempo

Trago em meu espírito algumas imagens. São elas de meu passado; logo, não existem mais. O que existem são palavras que determinam como me sinto em relação ao que existiu um dia.

Diz assim Santo Agostinho. Dito que gosto de refletir quando sinto que o tempo não passa; ou quando o passado me esmaga como pedra que sustenta o mundo. Às vezes o passado não é como Deus? Assombroso, senhor dos sonhos e pesadelos, um pêndulo que joga para lá e para cá?

É assim que às vezes me sinto, motivo de riso, quantas vezes. Quantas vezes! Quando o passado faz de mim escrava do que existiu um dia, o tempo deixa de passar. Assisto, parada, a tudo que passa por meus olhos, eles marejados, como esquecida de Deus.

Do tempo.

Santo Agostinho. O santo da libertação das palavras que formam o meu entendimento de quem fui, sou e serei. Não é pouco.

Essa ideia liberta porque me faz ver que nada do que vivi, e ainda dói, existe mais. Ficaram apenas as palavras.

Mas o que fazer com palavras que parecem indestrutíveis? E indefiníveis.

Se ficaram apenas palavras, por que não consigo mudá-las? Poderia esquecê-las, zombar delas escrevendo qualquer história que lhes tirassem todo o sentido. Minha alma é de concreto em base de areia. Endureço em meio ao que jamais será firme.

Foi assim que passou o tempo enquanto eu cria que o tempo vagaroso era o esquecimento de Deus de mim triste. Se o orgulho transformou anjos em demônios, a mim deu a oportunidade da dignidade. Dignidade é oportunidade de amar um sonho como a um filho prometido.

Contudo, aprendi a apreciar o tempo que não passa. A espera tornou-se mágica. Agora é como estar numa literatura cujo título é meu nome.

Quando o tempo que passa devagar é apreciado, as oportunidades se multiplicam. Não sei dizer como, mas sei dizer que é dessa forma que me sinto um pequeno deus em minhas criações.

Saiba então, creia em mim, que é privilegiado quando diz, sem pensar, “ainda é quarta?”.

Ainda, qualquer coisa, é oportunidade a mais. Em minha forma de ver o mundo, é como presente proibido de tornar público, porque denunciaria predileção. Deus presenteia com mais tempo, às vezes. Alguns.

E um dia então, chega o tempo em que o tempo não dá mais conta do que vivemos e sentimos. E não deixa de ser uma espécie de triunfo porque todo o tempo é o tempo que vence.

Mas quanta sabedoria é preciso para perceber isso?

Não sei se é nova forma de pensar ou forma triste, mas é fato que hoje aprecio o tempo que passa devagar e quase sempre recebo essa vagareza como oportunidade de ser mais em outras peles. Ainda que peles de mim mesma escondida, envergonhada.

Quantas vidas vivi quando tudo demorava?

Amo o tempo que passa devagar e creio nisso a oportunidade da vida, de Deus, de ressignificar palavra doída. Porque a dor mesmo não existe mais.

 

Fausto

Fausto

Fausto

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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