Ed René Kivitz: “Inferno é o ego ensimesmado”

Inspirou-me o tema uma frase de Georges Bernanos: “A esperança é a maior e a mais difícil vitória que um homem pode ter sobre a alma.” Uma frase sombria, profunda, pungente. FAUSTO convida à reflexão a respeito da esperança Ed René Kivitz, teólogo, escritor e pastor da Igreja Batista de Água Branca. Refletimos sobre o hoje, sobre o íntimo, sobre o novo. Sobre o primeiro passo para os desesperançados.

Ed René Kivitz, teólogo, escritor e pastor da Igreja Batista de Água Branca.

FAUSTO – A existência humana é uma experiência maximizada de confinamento? Essa agonia que estamos experimentando com o isolamento social nada mais é do que o nosso estado-limite de humanidade?
Ed René Kivitz: O confinamento é o gosto existencial do inferno. Sartre diz que o inferno são os outros, mas não, o inferno é o ego ensimesmado. Quanto mais na solidão, mais infernal torna-se a vida. A pandemia está nos dando um gosto do inferno.

É onde entra toda forma de divertissement para o suportarmos?
No ensimesmamento do ego – quando ficamos presos em nós mesmos – perdemos as relações, os afetos, os contatos. E olha que interessante, a expressão que estamos usando é “isolamento social”, quando na verdade é distanciamento social. Não estamos isolados. Nós dois, por exemplo, estamos distantes, mas afetivamente conectados. Então, quando perdemos a conectividade afetiva e ficamos na solidão – a solidão forçada, e não a solitude que é a solidão escolhida, voluntária, intencional e saboreada – quando temos essa solidão forçada e o ego fica preso nele mesmo, ele vai se infernizando. É a isso que estou chamando de inferno – e isso é insuportável. Aí, sim, entra o divertissement. Começamos a tentar encontrar distrações externas ao ego para não ter que encarar o seu inferno, para não ter que encarar suas sombras.

Nesse momento, pode ser uma escolha não encarar nossas sombras? Podemos deixar esse encontro para depois?
Aí vamos a Nietzsche: quanta verdade o ser humano pode suportar. Talvez não seja, necessariamente, uma escolha, mas falta de condição de se encarar. Porque se é insuportável o inferno, atravessá-lo é um ato de coragem. Tem gente que não tem coragem de se encarar, de se auto-examinar, de olhar para a própria sombra. Creio que pode ser uma escolha, do tipo: sei que tenho que encarar isso, mas acho que não é agora, vou cuidar de sobreviver. Porque estamos falando de duas coisas, Eliana: de uma pandemia e de um confinamento do ego. Na pandemia, eu escolho sobreviver; e eu escolho, inclusive, conscientemente, o divertissement, quase como muleta provisória. Dou-me esse direito. Sei que tenho que encarar o meu inferno existencial, mas não agora. Agora tenho que sobreviver, e sobreviver com o mínimo de sanidade emocional, mental e espiritual. Posso escolher não visitar minhas sombras, o que será confundido, muito provavelmente, pelos mais radicais que você gosta, como covardia.

Estar bem, neste cenário, pode ser imoral?
Lembro-me de Jesus falando para aquele homem: “E direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come, bebe, e folga.” E aí Jesus disse: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” [Lucas 12:19-20] O comentário de Jesus é para todo aquele que é rico apenas para si. Então, a imoralidade não está no privilégio, mas em não compreender que o privilégio traz consigo responsabilidade para com o próximo.

Para termos esperança, precisamos superar qualquer tipo de narcisismo?
Nenhum ser humano tem dentro de si todos os recursos de que precisa para a experiência da vida. Então, sim, para ter esperança você precisa sair de você, vulnerabilizar-se para a existência e, especialmente, para as relações de afeto. Porque a esperança tem a ver com outra realidade, com algo diferente daquilo que é. O oposto da esperança é a satisfação com o que está.

É possível nos educar para a esperança?
Acredito que sim. A esperança tem a ver com suas convicções, com seus conteúdos interiores. A diferença entre esperança e otimismo é que o otimismo depende de notícia, a esperança depende de convicções interiores. Eu tenho esperança não porque as notícias que recebo dizem que as coisas vão melhorar – às vezes, inclusive, recebo notícias de que as coisas estão piorando, mas continuo tendo esperança. E por quê? Porque eu tenho conteúdos interiores que me empurram para a possibilidade do novo. Portanto, a educação para a esperança é o constante processo de avaliação dos seus próprios conteúdos interiores, é a autorreflexão permanente para o aprofundamento ou a transformação dessas crenças, convicções e conteúdos interiores. É, principalmente, estar aberto para que exista, fora de mim, alguma coisa diferente daquilo que sempre orientou a minha existência.

 

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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