Eduardo Oyakawa: “Kafka escreve na linguagem e no sangue inocente de mil Kafkas ensandecidos”

Os Sagrados Cães Dançarinos – Mística e Heresia em Franz Kafka é um belíssimo livro de Eduardo Oyakawa que apresenta e interpreta pontos obscuros de uma religiosidade contida na obra do escritor tcheco. Com o intuito de estender essa beleza em nossa casa e para os nossos, recebemos Oyakawa com enleio e entusiasmo. Pós-doutor em Filosofia da Arte pela Universidade Federal de São Paulo, além de mestre e doutor em Mística e Literatura pela PUC-SP, nos presenteia com minutos de pejada transcendência.

Kafka
Autor de “Os Sagrados Cães Dançarinos – Mística e Heresia em Franz Kafka”.

FAUSTO – A escrita, para Kafka, foi uma espécie de vórtice?
Eduardo Oyakawa: Creio ter sido Santo Agostinho o inventor da literatura como uma espécie de confissão oferecida a Deus, ou melhor dizendo, um pedido nascido das profundezas do coração humano para que Deus ilumine aquilo que de outro modo, permaneceria escondido para sempre. De forma esdrúxula, Rousseau tentou perseguir a senda inaugurada por Agostinho – a literatura como confissão –, inventando em seu livro homônimo, uns tantos pecados extraordinários para depois, garbosamente, regozijar-se de sua própria força moral para suplantá-los, declarando assim ao leitor incrédulo, suas grandes e inexpugnáveis virtudes de homem de bem… Podemos argumentar que, neste sentido estrito, o texto de Kafka é inteiramente agostiniano uma vez que, como ele próprio anotou em seus diários, a literatura engendra-se como símile de uma confissão velada, uma espécie de oração teúrgica consubstanciada pelo espírito e sangue daqueles que padecem de seu irresistível chamado. Veja, nos momentos em que Kafka era tomado por um élan criativo arrebatador – sempre à noite, quando o calor do sol se punha, diga-se de passagem –, o “espírito da literatura” capturava-o de maneira tão definitiva que ele se obrigava a colocar no papel imediatamente tudo o que sua (in) consciência deixava entrever. Foi assim na confecção do conto O Abutre, por exemplo. Kafka não era por certo um discípulo de Kardec e quejandos, mas, quando lemos com atenção sua obra, percebemos que estamos diante de um escritor atormentado, tocado pela sacralidade misteriosa da Cabala, estarrecido com a crueldade do mundo, mas pedindo a misericórdia de um Deus – o indestrutível como ele o nomeava – cuja presença é desejada com ardor, mas que permanece a maior parte do tempo, distante e inalcançável. Kafka faz suas personagens gritarem confissões e miasmas num cosmos indiferente e mau…

Alguns estudiosos de Kafka acreditam ser impossível discernir os verdadeiros pensamentos de Kafka de sua ficção. Em primeiro lugar, concorda com isso? Em segundo, acredita que Kafka tinha alguma “intenção” com isso?
Acho que nenhum crítico sério da obra Kafkiana, discordaria da tese de que vida pessoal e escrita ficcional se misturam de maneira inextrincável. Com exceção, talvez, do heideggeriano Gunther Anders ou do messiânico marxista Walter Benjamin, todos são unânimes em apontar essa convergência. O espantoso nesta obra, creio eu, é a generosidade e franqueza com as quais Kafka nos dá a conhecer seus demônios internos. Como no inquebrantável poema de Fernando Pessoa, “poema em linha reta”, ele nos brinda não apenas com o reconhecimento anódino de um erro moral ou a incapacidade psicológica em adaptar-se ao meio social circundante. Ao contrário dessa tendência moderna ao espalhafato e à histeria pública, Kafka nos brinda com verdades chocantes à sensibilidade classe média e puritana: trata-se do desvelar poético de imensas covardias engendradas ao calor do dia, do desejo premente de matar-se a si mesmo e aos outros, de assassínios sanguentos e sem remissão alguma, de vinganças filiais, de martírios pateticamente inúteis e de amores fracassados, seja por inapetência, fastio ou simples desfaçatez sexual. Por isso ele pode fazer Gregor Samsa, a personagem central da Metamorfose, imolar-se em seu quarto sujo e solitário num sacrifício mimético capaz de refazer a própria ordem familiar – que o esconjurava – e o próprio cosmos com a chegada de numa primavera cheia de luz, mas que denegava o cadáver deixado para trás, já escondido nas frestas das existências flacidamente vividas, nas ruínas do tempo histórico. Exatamente no mesmo diapasão, pôde Kafka colocar na boca do artista da fome, o seu próprio desconforto com a sociedade dos homens: “eu me alimentaria se assim quisesse, mas a questão é que nada que vocês podem me dar, mataria a minha fome”. Como fiz ver, a obra de Kafka é uma confissão no sentido agostiniano do termo.

Para ele, a literatura estava acima da vida concreta, da família e do amor por escolha ou por incapacidade?
Podemos afirmar que a literatura era o sangue e o espírito de Kafka e nesse sentido, tudo o mais era secundário, inclusive a busca pela construção de uma família estável, que ele tanto almejara durante as relações tempestuosas com as primeiras namoradas e mesmo depois com Dora, em Berlim. Como acontece com quase todos os grandes escritores, ele tinha dificuldade imensas com a vida cotidiana – era incapaz de controlar minimamente as finanças ou agendar uma corriqueira consulta médica – e por conta disso, a descoberta dos livros foi como uma teofania, um mysterium tremendum em sua existência. Goethe, Dostoiévski, Flaubert foram seus prediletos. E a eles Kafka sempre recorria quando a angústia ou a culpa, o grande tópos dos seus livros, ameaçavam cindir o atormentado coração em mil partes desconjuntadas. Seus olhos cinza azulados – assim está descrito no passaporte – chamuscavam um brilho intenso e comovente toda vez que se iniciava uma conversa sobre o misterioso dom de colocar em palavras os dramas e as perfídias da condição humana. Tomado por essa embriaguez dionisíaca, podemos acompanhá-lo radiante pelas ruas de Praga, correndo pressuroso, sempre atrasado para chegar aos compromissos com os amigos. Sim, como todos nós ele também conheceu dias de encantamento! Mas como salienta argutamente Pietro Citati, Kafka parecia guardar um segredo que ninguém mais conhecia, era um homem preso numa espessa cabine de vidro, observando a nós todos, seus devotos leitores, com um olhar de assombrosa ironia. Lembremo-nos que quando leu para os amigos as primeiras páginas de seu doloroso O Processo ele o fez às gargalhadas… Desconfio que ainda hoje os olhos rútilos de Kafka estão enformados num livro etéreo, transmundano, estelar, feito de sangue e espírito, a nos perguntar como Drummond naquele poema memorável: trouxeste a chave para me decifrar?

Kafka era inseguro em relação a sua escrita?
Nosso herói era inseguro em relação ao corpo, à sexualidade, ao talento como escritor, enfim podemos dizer que ele foi um dos escritores mais tíbios e claudicantes que o século XX conheceu. Entretanto, havia ao menos um télos no qual Kafka depositava todo o ardor espiritual e ambição pessoal: ser um escritor iconoclasta como um Robert Walser, por exemplo. Chega a ser tocante quando, ao longo dos abrasivos diário, ele nos conta sobre a importância das letras em sua história pessoal: nelas poderia, de bom grado, morrer e morreria mesmo feliz se pudesse escrever um livro que não tivesse fim, que medrasse ao longo do tempo e só acabasse no dia da grande tribulação quando bons e maus serão separados por um juiz honesto e imparcial, o único aliás que a humanidade terá conhecido ao longo de milênios de provações e desilusões judicativas. Kafka, como Dostoiévski, quase não corrigia os textos. Suas personagens – que mundo fantástico eu tenho na cabeça! Disse ele certa feita a um amigo – são todos explicitamente alter egos a explicitar seus inúmeros tormentos pessoais. Na lírica Kafkiana o estilo é aquele que prima não pelo beletrismo pequeno burguês, nem pela panfletagem esquizoide dos socialistas da época e muito menos pelos arroubos moralizantes de um Nietzsche et caterva – que ele admirava pela hybris… – mas pela desconcertante sinceridade com a qual retratava suas misérias e desesperanças pessoais. Kafka escreve na linguagem e no sangue inocente de mil Kafkas ensandecidos pela injustiça e crueldade entre os homens.

É possível tecer a noção que Kafka tinha da felicidade?
Kafka era perspicaz o suficiente para saber, como Santo Antão no deserto do Egito, que cabe ao ser humano a luta diária contra os demônios internos e externos e que, portanto, toda a ideia de felicidade, se entendermos esse termo por paz e alegria estáveis no tempo, traz consigo um total desconhecimento de nosso destino de entes solitários, fadados à ruina inexorável da morte. Lemos em suas confissões noturnas que ele, de maneira singela e despretensiosa, quis apenas ser bom pai e marido para ter o prazer comezinho de junto à esposa, levar os filhos pequeninos almoçar dando-lhes assim proteção e amor. Quando rompe pela segunda vez o noivado com Felice Bauer e constatada que esse desejo pequeno burguês nunca poderá se realizar, chora desesperadamente e de maneira compulsiva lembrando as crianças órfãs que avistamos, abandonadas e melancólicas, no coração de nossas cidades desencantadas, infestadas por ratos e malandros.

De maneira simples, o que significa Deus Absconditus?
Na tradição judaica e cristã há a percepção muito clara de que Deus não pode ser conhecido em essência, isto é, o ser humano jamais poderá penetrar no mistério de seu Ser. Em Êxodos, por exemplo, Moisés pede para ver o rosto de Deus e este lhe responde: “não podes ver a minha face porque nenhum homem me verá e viverá”. Portanto, Deus está, por assim dizer, distante, escondido do homem. Entretanto, ele se manifesta no mundo através de gestos contínuos na histórica, como no caso do judaísmo, ou na encarnação de seu filho Jesus, quando falamos de cristianismo. Kafka encantou-se pelo hassidismo, notadamente com Dora, sua última namorada, que é uma tradição mística do judaísmo que nos fala das energias de Deus escondidas nas coisas criadas, cabendo ao santo desvelar a face profana dos entes sensíveis para encontrá-las plenas de luz e promessa de união ontológica. Em sentido estrito esta tradição do Baal Shem Tov é demasiadamente otimista, uma vez que os efeitos do poder divino estão em todas as partes e em todos os lugares, apenas permanecem distantes do homem mergulhado no mundo objetivante do ISSO, como dirá Martin Buber.

A esperança que ele tinha numa intervenção divina era para esta vida ou uma vindoura?
Não há resposta precisa para essa pergunta. O máximo que podemos fazer é empreender a hermenêutica da parábola diante da lei, lócus maior de toda “teologia” Kafkiana. O brilho de Deus esconde-se atrás de portas que permanecem trancadas, inacessíveis ao homem comum que quer penetrá-las. Passam-se meses e anos e depois de muita insistência o alquebrado e miserável homem que veio do campo, pergunta ao guarda: por que ninguém mais veio até aqui, querendo entrar neste lugar? Esta porta foi feita apenas para você, diz o porteiro, mas agora eu vou trancá-la! Na “teologia de Kafka” Deus é desejo e falta.

É possível explicar de maneira simples e concisa o que é ser um “cabalista herético”?
Este termo foi cunhado pelo grande historiador do judaísmo Gershom Scholem, discutindo com Walter Benjamin acerca da religiosidade heterodoxa da obra Kafkiana. Notamos acima que para o hassidismo, Deus ou suas energias podem ser reconhecidos na criação através de gestos santos que tirem o véu da maldade que aparentemente enforma o mundo. Com efeito, para esta escola mística o mal não possui substância, ele é a rigor, ausência do bem. Nos escritos do Kafka hassídico ou cabalista a coisa é diferente. Assim como o homem do subterrâneo de Dostoiévski, Kafka desce aos infernos, lá onde reina a noite perpétua e desolada. A natureza nos textos praticamente não existe e as personagens habitam lugares claustrofóbicos onde o poder dos poderosos é exercido de maneira irracional e cômica. É assim nos três grandes romances inacabados e nos contos mais instigantes, como A Toca ou O Abutre, por exemplo. Seria fácil afirmar que a obra de Kafka representa de maneira paradigmática a morte de Deus. Em meu livro, recém-lançado pela É realizações, refuto esta hipótese apressada e inconsistente, mostrando que em alguns momentos hierofânicos, a face do Deus escondido mostra-se e é capaz de iluminar as trevas nas quais vivemos.

 

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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