Entre dois dedos

De repente começou a chover e não encontrei um canto para me resguardar. Caminhei um pouco mais, embora contra a chuva fosse impossível.

Exatamente como me sinto em relação a ele. Duas forças da natureza contra meu corpo.

Havia dois meses que não nos víamos. A chuva caía na mesma intensidade que voltavam as lembranças de ontem, numa quentura paradoxal aos pingos gélidos e grosseiros. Encontrei finalmente onde esperar, apesar de já molhada.

Com apenas dois dedos ele me conectou à potência do eixo do mundo. O que senti entre as pernas foi voluptuosidade espiritual.

Sussurrei em seu ouvido com sutileza. Abraçados, só desejei ser um canal pelo qual ele pudesse dominar aquilo que o apavorava. Desejei que liberasse toda a raiva que arde em seu fígado, numa transcendência rumo ao acolhimento, algo que só outro colo raivoso é capaz de proporcionar, por empatia na revolta. Supus tudo isso pela única confissão que me fez: “Sou um homem doente… Um homem mau.”

Quanto mais fundo iam em mim, mais eu me largava em suspiros encadeados de reverência. Ele, meu ferido Adonis, filho de um erro, erótico por gênio. Pedi para me deixar gozar dessa maneira, entre dois dedos.

Que fórmula encontramos de sermos íntegros e ainda sermos cúmplices degradados. A mistura de nossos cheiros nos deu a chance de nos tornarmos menos desgraçados. Com ele não tenho medo de ser mulher fácil.

Parece, mas não contamos uma história sexual, travamos é batalha do espírito. Somos coesão de desejo e rejeição. Por isso abrimos mão do sentimento de mentira.

A chuva não diminuía. Com frio, estiquei a saia e sentei de cócoras para descansar as costas naquele muro sujo. Tanto tecido cobria bem as pernas que abri enquanto o gelo da chuva me tocou com surpresa em sutil intensidade. Foi inevitável o ímpeto.

Dei jeito de me tocar entre as pernas, num impulso de trazê-lo de volta. Ele é como a natureza da chuva: gota a gota alcança todos os cantos e quando se vai deixa provas de regeneração.

Tive medo de ser vista, mas a chuva leva estranhamente a todos aos seus próprios lugares privados; se me vissem, era capaz de me perdoarem o despudor e até de verem beleza nessa obscena penúria de amor.

Deixe as palavras comigo, meu amor. Deixe que eu fale por nós dois. Se perceber mais uma vez meu coração batendo forte, tome minhas mãos e as beije. Acolha meus abalos no mais gentil gesto, como se eu fosse pétala. Deixe-me ficar entre suas melhores páginas.

Movi o que pude de meu ventre. A saia molhada grudava mais e travava disputa entre meus limites e a falta persistente que me causa seu cheiro. Então me lembrei de como me olhava através do espelho, logo atrás, e como queria, com aqueles olhos cingidos, me tomar por trás.

Imaginei que me quisesse dissolvida nesse seu desejo. Se assim fizéssemos, nunca mais seríamos descontínuos. Consumação de um sacrifício. Seríamos espiados das culpas que não sabemos bem quais são.

O consentimento que dei na imaginação foi o triz que me detia, então tomada por absoluto me lembrei da vontade de ontem, de esvaziá-lo. Lembrei-me de seu sorriso de demônio saciado que desistiu do mundo. Empurrei o muro com tanta força que não havia outro jeito a não ser gozar e chorar, um choro de exílio.

Foi-se o torpor. Dei-me conta da rua, do tempo prestes a estiar. Temi ser vista, ser apanhada amando sozinha.

Estranhamente, no entanto, provei sossego. Tirei da boca o resto de chuva do mesmo jeito que tirei, ontem, seu íntimo escorrido. Então me veio à consciência: por que não senti medo?

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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