Fina camada de pó

O recipiente de óleo de flor de laranjeira que ele usou antes de começar a me tocar ainda está sobre o móvel que agora já mostra fina camada de pó.

Passaram-se já alguns dias, mas o cheiro dele ainda chega a essa minha consciência traiçoeira, uma mistura de cigarro, suor e qualquer fragrância vigorosa de macho, o típico cheiro que praticamente se perdeu pelo caminho desse tempo ressentido dos corpos, como se o tempo fosse mesmo capaz de alterar até o aroma da pele, de tanto que esgarça a palavra que define quem somos.

Foto: Helmut Newton.

E quem sou eu mesmo? Perdi-me na fundição de nossos corpos com força e desejo de morte, nem sempre sabido.

Ambos desejávamos a morte, ali, nus e tomados mais de erotismo do que de pornografia, mais do desejo de encontrar o sentido de nossas vidas umbrosas do que de gozar e partir para a próxima experiência, o próximo corpo disposto a receber o que a natureza insiste em não deixar extinguir, o próximo que mantenha escondido essa nossa indecisão do amor. Não havia palavra proibida entre nós, mas falamos pouco. Protegemos nossa solidão moral.

Quem era aquela que se inebriava desse cheiro bruto, desse cheiro angustiante de medo, mas que não pedia para parar. Quem era aquela que queria, sem voz para suplicar, descobrir o limite da própria austeridade. Discernir se havia tumulto do outro lado do desejo pelo qual nunca fruiu. A travessia do desejo se dá primeiro na mente e não no corpo. Se nos metíamos com a mesma vontade secreta de sermos aceitos e lembrados nos dias em que não teríamos nada para oferecer, por que não conseguíamos acreditar um no olhar do outro?

No dia seguinte saí às ruas com o cheiro de nossa doença revelada por trás. Não sei qual imagem ele guardou de mim, mas quero que seja a de um detalhe. Uma gota de suor, algo viscoso que eu resisto em aceitar ser de minha selvageria.

Quem era aquela que queria desesperadamente assistir ao gozo dele, que jorrasse em tudo o grito que ele acorrenta sabe o diabo a razão. Eu era aquela que queria o que ele queria, que pedia para que mantivéssemos peito contra peito, por alguns minutos, para que alcançássemos o metafísico. Se fosse só pela carne seria como viver em um fio sobre o vazio. Eu queria o que ele queria, que passássemos a depender um do outro como prova de nosso valor.

Se ele tivesse gozado e acendido um cigarro, olhando pela janela em busca do que não estava ali, talvez eu fosse capaz de amá-lo para sempre. Se qualquer cinza tivesse caído em mim e feito cicatriz, eu me lembraria de nós no primeiro encontro de uma vida que nos permitiria viver em silêncio, sem medo de adeus.

Talvez eu deixe o recipiente de óleo de flor de laranjeira onde está. Que se forme uma marca mais funda e que eu perceba os dias que virão depois que ele se foi. Limpeza é constância. Constância é apavoramento.

De rijo, entre minhas pernas, pulsam batidas de Mojo Pin de Buckley. Eu estou deitada em minha cama. O lençol está quente. Esse corpo nunca estará a salvo de se machucar.

Talvez ele volte como prova de que não há nada de proibido em nós.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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