Para celebrar os 10 anos da FAUSTO, escolho começar um diálogo onde o teatro de Fredrik Brattberg costuma nos colocar: num ponto de suspensão, entre o familiar e o estranho, entre o que se repete e o que nunca se resolve por completo. O dramaturgo norueguês, encenado em mais de 30 países, tornou-se uma das vozes mais singulares do teatro contemporâneo ao investigar aquilo que insistimos em chamar de cotidiano: famílias que continuam existindo mesmo quando os laços parecem rompidos. Em O Retorno, peça que estreia no Brasil, a repetição não é apenas recurso formal, mas um modo de pensar o tempo, a memória e a capacidade humana de adaptação — talvez até de esquecimento. Há algo de profundamente filosófico em sua escrita, como o nobre leitor poderá perceber nesta entrevista, não no sentido de oferecer respostas, mas de insistir nas perguntas certas. Brattberg discorre sobre família, responsabilidade, silêncio, identidade e escolha, temas que atravessam sua obra e que também dialogam com a trajetória desta casa ao longo de uma década.
FAUSTO – Toda família — ao menos em certa medida — é disfuncional?
Fredrik Brattberg: Hesitaria em destacar a família em particular. Toda relação humana contém certa assimetria. Uma pessoa quer mais do que a outra; uma ama com mais intensidade, outra precisa mais. Ao mesmo tempo, toda relação tanto concede quanto restringe a liberdade. A amizade me dá segurança — e essa segurança me permite agir de forma mais livre e mais ousada. No entanto, ela também cria obrigações: preciso estar presente, lembrar aniversários, retribuir cuidado. Esse desequilíbrio é o motor básico da dramaturgia clássica. Um protagonista quer algo, e a peça se desenvolve por meio de encontros com outros cujos desejos interferem. O que geralmente se descreve como “famílias disfuncionais” me interessa menos como dramaturgo. Nas minhas peças você não encontrará alcoolismo, abuso, diagnósticos ou colapso econômico. Em vez disso, escrevo sobre pessoas comuns, capazes, bem-intencionadas, que — apesar de boas condições — ainda assim não conseguem fazer as coisas darem certo. Para mim, isso é muito mais perturbador e muito mais interessante.
É possível — psiquicamente — romper um vínculo familiar, ou, mesmo quando a convivência é interrompida, uma sombra sempre permanece nas emoções?
Em O Retorno o vínculo familiar é rompido — e ele não deixa uma sombra permanente. A peça explora como a repetição pode neutralizar até as situações mais extremas. Aquilo que inicialmente está carregado de emoção gradualmente se torna comum por meio da repetição e, com o tempo, esvazia-se de afeto. O que antes exigia uma resposta emocional acaba produzindo indiferença. Os seres humanos são profundamente adaptáveis. Somos capazes de estabelecer um novo cotidiano sob quase quaisquer condições. Momentos de clareza podem ocorrer — breves lampejos em que a verdade de uma situação se torna visível —, mas raramente duram. A vida tende a se reafirmar como rotina. Os laços familiares não são exceção. Eles podem ser quebrados, e um novo normal surgirá. O que resta do passado não persiste como uma sombra contínua, mas retorna apenas em momentos curtos e isolados — antes que o cotidiano se feche novamente em torno disso.
O silêncio é sempre uma forma de violência ou, em algumas famílias, é a única forma possível de cuidado?
Nas minhas peças há muito silêncio. Às vezes de maneira bastante literal, quando escrevo a palavra “pausa” no texto — um silêncio entre personagens. Em outras ocasiões, o silêncio aparece como ausência de palavras: os personagens raramente, se é que alguma vez, falam diretamente sobre a situação em que estão. Eles evitam o próprio tema. No drama, como na vida real, o silêncio pode significar quase qualquer coisa — desde algo próximo da violência até a forma mais delicada de cuidado. O silêncio pode ser brutal quando alguém busca reconhecimento e encontra o nada. Ou quando o silêncio aparece onde se deveria falar, intervir ou assumir responsabilidade. O silêncio também pode ser insuportável porque o confronta consigo mesmo. Heidegger, um filósofo a quem sempre retorno, escreve que a consciência fala apenas no modo do silêncio. Ela é facilmente abafada pelo ruído da vida cotidiana, mas emerge lentamente quando as coisas ficam quietas. Ao mesmo tempo, o silêncio pode ser uma das formas mais honestas de cuidado. Tenho um cachorro, e quando alguém da família está triste ou doente, ele se aproxima e se senta por perto, muitas vezes de costas, e fica. Ele não tenta resolver nada. Não toma partido nem explica. Simplesmente oferece sua presença. Esse tipo de silêncio me parece uma das formas mais despretensiosas e verdadeiras de amor que conheço.
Um pai ou uma mãe que machuca sem intenção é menos responsável do que aquele que machuca conscientemente?
É uma grande questão, e talvez não possa ser respondida focando apenas em atos isolados. Quando falamos de responsabilidade, muitas vezes isolamos o momento do dano — mas a moralidade raramente reside apenas ali. Ela está mais frequentemente embutida no tipo de vida que se escolhe viver. Se alguém dirige bêbado e fere outra pessoa, o dano não foi intencional. Ainda assim, a falha moral não ocorreu no momento do impacto. Ela ocorreu antes: quando a pessoa escolheu dirigir depois de beber, ou antes disso, quando evitou repetidamente confrontar um problema que tornou tal situação possível. A responsabilidade se desdobra ao longo do tempo; não pode ser reduzida ao instante em que o dano se torna visível. Nas minhas peças, você raramente encontrará personagens que buscam deliberadamente machucar os outros. O que me interessa muito mais são pessoas capazes e bem-intencionadas que, ainda assim, se ferem mutuamente. É aí que o drama começa — e, paradoxalmente, também onde o humor pode surgir. Uma mulher idosa e frágil que escorrega e cai não é engraçada. Um fisiculturista poderoso, recém-saído da academia, que de repente não consegue manter o equilíbrio — isso é. Não porque a queda seja pior, mas porque ela expõe uma contradição.
Quando uma família define quem você é desde cedo, o que ainda pode ser chamado de “identidade própria”?
Costumamos dividir o ser humano entre herança e ambiente — ou nascemos de certa maneira, ou nos tornamos assim. Entretanto, acredito que exista um terceiro lugar. Um lugar que não é nem genética nem criação, é onde reside o verdadeiro “eu”. Na maior parte do tempo, seguimos adiante como algo já em movimento. Agimos de acordo com aquilo para o qual estamos predispostos e respondemos quase inevitavelmente às circunstâncias em que somos colocados. Só que há momentos em que algo interrompe esse fluxo. Você passa por uma janela aberta e ouve uma sinfonia de Beethoven. De repente, se depara com um animal na floresta. Ou ocorre um evento que faz o mundo, por um instante, se abrir em fendas. Nesses momentos, é como se nos afastássemos ligeiramente da herança e do ambiente. Vemo-nos à distância. Estamos ali simplesmente como um “eu”. Essa posição — esse eu que observa — é uma identidade que nenhuma família pode definir completamente ou retirar. É também daí que surge a responsabilidade. Não responsabilizamos as pessoas pelo que estão determinadas a ser, mas por aqueles momentos em que se veem de fora — e ainda assim escolhem agir. A identidade, nesse sentido, não é o que nos molda, mas aquilo que ocasionalmente olha de volta para nós e nos pede uma resposta.
Perdoar a própria família é um ato de liberdade ou uma reação disfarçada de maturidade?
Perdão é uma palavra mais fácil de pronunciar do que de realmente significar. Nesse sentido, ela pode ser usada instrumentalmente — muitas vezes para convencer a si mesmo de que se seguiu em frente. O perdão genuíno, no entanto, não pode ser unilateral. Ele pressupõe que a outra parte reconheça o que fez, expresse remorso e torne crível que o mesmo dano não se repetirá. Só então o perdão pode ocorrer — não como um ato de generosidade, mas como o reconhecimento de que a outra pessoa de fato mudou. Sem isso, o que muitas vezes é chamado de perdão corre o risco de se tornar uma forma de adaptação, ou de colocar um rótulo moral na resistência. Não liberdade, mas sobrevivência travestida de maturidade.
A verdade tem valor absoluto dentro da família ou só é aceitável quando não ameaça sua sobrevivência?
Deixe-me responder a isso como dramaturgo. No teatro, a verdade é um tipo diferente de personagem do que em outras formas de literatura. Se você lê um romance e os pensamentos de um personagem são descritos, geralmente pode confiar que é isso mesmo que ele pensa. No palco, quando um personagem lhe diz o que pensa, você pode ter quase certeza de que não é toda a verdade. Quando uma plateia observa duas pessoas no palco e uma delas diz algo, raramente o interesse está no conteúdo da afirmação em si. O que importa é como a outra pessoa reage. A verdade no teatro não existe isoladamente — apenas em seus efeitos. Nesse sentido, o teatro é honesto em relação a algo que muitas vezes negamos também na vida familiar: não existe verdade “em si”. Existem apenas consequências do que é dito. É também por isso que um pedido de desculpas completamente sincero ou um perdão completamente inequívoco é quase impossível no palco. A plateia sempre lerá camadas, hesitação, resistência. E, assim, o teatro talvez esteja mais próximo da realidade do que gostaríamos de admitir: a verdade absoluta e o perdão absoluto são ideais sobre os quais falamos, mas que raramente — se é que alguma vez — encontramos.
Quem está mais aprisionado: aquele que foge da família ou aquele que fica para “consertá-la”?
Um estudante certa vez pediu conselho a Sartre: deveria ir para a guerra e servir ao seu país, ou ficar com a mãe doente que dependia dele? Sartre respondeu que qualquer escolha que fizesse seria a correta. Tendo escolhido, ele inevitavelmente começaria a viver a correção dessa decisão — quase como um ator — e não conseguiria mais distinguir entre o que era genuinamente sentido e o que era encenado. Se alguém rompe com a família ou permanece para tentar repará-la, isso se resolve no momento em que a escolha é feita. Em ambos os casos, provavelmente se experimentará tanto alívio quanto arrependimento. Agora, qual opção é realmente certa ou errada não é algo a que jamais chegaremos de forma conclusiva. Como dramaturgo, é precisamente aí que reside meu interesse. Não me interessa responder a essas perguntas na minha obra, mas observar o que acontece antes de uma escolha ser feita — ou o que acontece depois que ela foi feita — sem emitir julgamento. Muita literatura ruim diz às pessoas como elas deveriam viver. Eu me interesso por outra coisa: não dizer às pessoas como viver, mas dizer: é assim que vocês já estão vivendo.
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O Retorno, Sesc Santana.
Direção: José Roberto Jardim.
Com Helena Ranaldi, Leonardo Medeiros e Pedro Waddington.
