Gertrude e Alice: uma história de amor

Gertrude Stein e Alice B. Toklas foram companheiras por trinta e sete anos.

A primeira é uma das figuras mais influentes da cultura do século XX; a segunda, quase foi sequestrada pelo anonimato.

A primeira destacou-se por um estilo pitoresco e lento de escrever. Curiosamente, sua obra mais famosa é A Autobiografia de Alice B. Toklas, de 1933.

A segunda datilografava tudo que a primeira escrevia.

Gertrude reteve fielmente a imagem de Alice. Uma escritora sem asas, foi inteligentíssima em enxergar em sua parceira a possibilidade do voo.

Ambas nasceram e foram educadas nos Estados Unidos, embora tenham se conhecido em Paris, em 1907, na era da efervescência. Após dois anos de relacionamento, decidiram morar juntas.

Gertrude Stein nasceu na Pensilvânia, foi filha caçula de empresários judeus, e perdeu sua mãe para o câncer, aos catorze anos. O pai, perdeu aos dezessete. Culta, morou na Áustria por um tempo; depois na França com o irmão mais velho.

De Paris não saiu. Quem sairia?

Diálogos com o trágico na Cidade Luz são deleite estético. Sabia Emil Cioran, sabia Woody Allen, dois de meus espelhos.

Elas construíram, assim, em rodas de conversa na sala de casa, um dos círculos sociais mais invejáveis da história das artes.

Todos têm inveja de Gertrude Stein e Alice B. Toklas.

Eu tenho.

Ou só não tenho tanto porque não gosto de festas. Mas tenho, na minha delicadeza furtiva.

Paris é uma festa, sentenciou Ernest Hemingway — que trágico! — e elas estavam em todas.

Alice B. Toklas nasceu na Califórnia, também numa família judia de classe média. Outra característica de trajetória que as unia: Toklas perdeu a mãe para o câncer aos vinte anos.

Alice apaixonou-se por Gertrude por sua imagem, por sua voz, por seu porte altivo.

Não.

Foi, sobretudo, por sua voz.

Situa-se no ouvido a maravilha do prazer, como nas significâncias da convivência.

Quando passaram a morar juntas, Alice assumiu o comando da vida pessoal e profissional de Gertrude. Foi secretária, amante, cuidadora do lar — vigilante, como cão de guarda. Era expulso todo aquele indigno da presença dos ilustres. Elas e todos eles.

Apenas parecia que Alice B. Toklas vivia à sombra de Gertrude Stein. Era, na verdade, o eixo. Só os seguros de si sabem ser eixo. Eixo é fonte espiritual de proteção dos que vivem em torno.

Eixo é um admirador e nada escapa a um admirador.

A autobiografia de Alice B. Toklas é uma jogada paradoxal de palavras, pois como uma autobiografia pode ser escrita por outra pessoa? Mas nisso quis dizer Gertrude que ela poderia falar por Alice.

Na ausência de uma literatura que fosse essencialmente sua, era Alice e seu cotidiano com ela seu maior e melhor estilo.

A vida doméstica das duas foi retratada de igual forma em O livro de cozinha de Alice B. Toklas, de 1954, esse, sim, escrito por Alice.

Ao sabor das memórias, Alice reuniu inúmeras receitas que temperaram a convivência das duas.

Sei disso, ao cozinhar vemos rostos sem máscaras, nos divertimos sendo juízes, nos sentimos deuses criando algo, afastamos o tédio, porque o fogo e os aromas alcançam o espírito, que não é matéria que apodrece.

Elas conversaram, possivelmente, sobre o que todos nós conversamos, com quem amamos, à mesa ou ao redor dela, em pé ou sentado, mexendo ou descascando: amor, ciúme, dinheiro, que fez Picasso, que fez Ernest, que fez eu, meu amor, meu amigo, meu leitor.

Gertrude Stein morreu.

Sim, de câncer.

Aos sessenta e oito anos.

O que ficou para Alice, além da desolação, foi o consolo da cozinha, de alguns poucos amigos que a sustentaram, porque a herança da primeira não ficou para a segunda.

Fim trágico na Cidade Luz.
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Alice, retrato de mulher que cozinha a fundo, espetáculo inspirado na vida de Gertrude Stein e Alice B. Toklas, traz aos holofotes do Circolo Italiano, no dia 20 de abril, a atriz Nicole Cordery.

Uma realização da Casa Galeria Experiência Cultural Nômade, juntos oferecem uma tripla experiência: exposição, teatro e jantar.

A peça tem texto de Marina Corazza e direção de Malú Bazán.

Imagine-se entendendo um pouco melhor tudo isso que escrevi, diante de uma representação primorosa de Cordery, com direito a aromas sem-fim de memórias de arte.

Para quem se alimenta de arte, a experiência é imperdível!

Faça sua reserva com Cézar Nascimento pelo telefone 11.97318.1331 e com Fábio Saltini: 11.99901.6930.

FAUSTO estará presente, claro!

Tenho inveja de Stein e de Toklas.
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Serviço:
Circolo Italiano
Edifício Italia
Av. Ipiranga, 344 — 1o Andar
Centro Histórico São Paulo — SP
Dia 20 de abril; às 19h, exposição; 20h, teatro; 21h, jantar.
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Eliana de Castro Escrito por:

Fundadora da FAUSTO, é escritora, mestre em Ciência da Religião e autora do romance NANA.