Livros, emoções, trajetórias: na hora de limpar os livros

Quando reorganizo meus livros, reorganizo minhas emoções, só que de maneira mais profunda, diferentemente de quando faxino – atividade infalível na reorganização dos pensamentos e dos sentimentos.

Com os livros não é mero gesto doméstico passar o pano ali e acolá. É, de alguma forma, revisitar quem fui a cada leitura.

Limpo exemplares que comprei sem um motivo. Outros que me indicaram, e é incrível como os rostos vêm à mente, um a um! Quase posso ouvi-los, em seus entusiasmos, desejando que eu vivesse a mesma emoção que viveram.

Alguns livros guardam ainda vívidas lembranças de quem os presentearam. Abri-los seria demais. Separo-os para doação, sem culpa. Livros também devem ir quando não há mais conexão – como os objetos e as pessoas. Li em Agustina que a culpa impede a justiça.

Sorte que há as edições que guardam os sonhos que ainda não se realizaram. Edições monumentais, que parecem saber que são espelho pelo qual vemos todo o nosso potencial.

Limpei um, depois outro. Então empilhei todos conforme o cuidado e o amor que me deram enquanto em minhas mãos estavam, oferecendo com generosidade palavras que bastavam para me salvar do insuportável da vida. Os trajetos sem fim, as filas sem fim, as dores que pareciam não ter fim.

Ao lado da cafeteira vermelha que tanto amo, ficarão agora três títulos que renovaram minhas certezas sobre o cotidiano: enquanto eu puder ler, nenhum dia será igual ao outro, ainda que nada, absolutamente nada, aconteça de diferente em minha rotina.

Viver uma vida inteira em um único dia só é possível com um livro. Assim como se apaixonar três vezes em menos de cem páginas e desejar infantilmente viver como os personagens. Suas tragédias sempre parecem mais respeitáveis do que as nossas.

Nas prateleiras dispersas do meu cantinho, guardo com carinho os contos que alimentaram minha alma que não sabe nunca quando parar. Esse ardor que só deram conta os livros românticos, encontra razão e vazão nos critérios de cada pilha que se forma ao lado de vasos, flores e caixas nas quais não guardo mais nada.

Os poucos livros que folheio numa tentativa absorta de recuperar uma época, fazem-me sorrir e abraçar a saudade que nunca vai passar. Em nossos livros também ficam o não dito.

Alguns grifos ainda fazem sentido. Outros relevam o quanto já amadureci. Frases outrora tocantes ainda tocam e as poucas lágrimas que se formam é constatação do quão é difícil agir conforme aquilo que lemos e acreditamos, mesmo que por segundos, que aquilo foi escrito para nós.

Quando reorganizamos nossos livros, de alguma forma repassamos nossa trajetória. Em um código único e intransferível, estão ali, nas páginas sem-fim, parte do que vivemos, sentimos, pensamos, sonhamos, projetamos, discordamos e até negamos, porque somos seres inacabados e pode ser que haja alguma chance.

Depois de tudo limpo, vem aquela sensação de leveza na alma, algo que faz mesmo sentido: os livros são tão mágicos que, mesmo fechados, cumprem seu papel de revelar quem somos. E, melhor ainda, quem podemos vir a ser.

 

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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