Luiz Felipe Pondé: “Ser niilista é saber que nada fica de pé”

Niilismo é um cenário conhecido por Luiz Felipe Pondé. No contexto da literatura russa do século XIX e de “alguma filosofia que rompe com o modelo de homem ‘saudável’”, o filósofo escreveu o belíssimo Era do niilismo: notas de tristeza, ceticismo e ironia. Nesta casa que também carrega no coração o nada, o diálogo é sobre possíveis definições, equiparações e sobre o inesgotável mistério.

Luiz Felipe Pondé, filósofo autor de “Era do niilismo: notas de tristeza, ceticismo e ironia”.

FAUSTO – É justo chamar o niilismo de pensamento fraco?
Luiz Felipe Pondé: Não. Sei que isso é dito, mas, ao contrário, o niilismo tem pressupostos bastante fortes. A ideia de que viemos do acaso, da pura contingência, produz uma sensação de que existe um nada de significado, a priori, e essa ideia não tem nada de fraca. Do ponto de vista filosófico, é uma das questões mais debatidas, e o niilismo é tão não-fraco que todas as religiões tentam negá-lo. Agora, se olharmos o niilismo como uma modinha de meninos deprimidos, daí, sim, é possível considerá-lo um pensamento fraco, mas do ponto de vista de um Schopenhauer, de um Nietzsche, assim como na discussão dos russos do século XIX, não tem nada de fraco, pelo contrário. Foi o espírito do tempo.

O niilismo pode tirar os objetivos da vida?
Historicamente, na Rússia, o niilismo produziu um grande objetivo, que foi a revolução. Então, acho que não dá para fazer uma afirmação tão universalizante. O niilismo no plano da depressão psicológica, como se fosse uma espécie de nome filosófico chique para a depressão, pode tirar os objetivos. A pessoa acha que não vale nada porque, no fundo, ela veio do nada e vai para o nada, mas aí, certamente, a pessoa está passando por uma depressão. Do ponto de vista filosófico, o niilismo produziu críticas violentíssimas à ideia de que a História tinha sentido, como na teoria da história de Tolstói; assim como críticas duríssimas à crença no desejo como pilar do mundo, como em Schopenhauer. Então, é o contrário, o niilismo originou objetivos bem violentos ao longo da história da filosofia e da política.

Então, ao contrário, o niilismo pode enriquecer uma existência…
Voltando ao exemplo histórico, na Rússia, a segunda metade do século XIX e a primeira metade do XX é fruto desse enriquecimento, apesar de ser um enriquecimento mesclado com terror, como todo processo revolucionário. O niilismo também enriquece no sentido de uma melancolia inteligente a cerca da realidade. Ou ainda de uma coragem do Eros, como em Nietzsche. Pode produzir enriquecimento na desconfiança do desejo e na busca da superação da ilusão do desejo, como em Schopenhauer.

O niilismo “na terapia” é aquele que acredita que “tudo é possível”?
Pensadores como Tchernichevski e Bakunin acreditaram que tudo era possível. Eles entendiam que tudo era possível porque tudo era inventado. Então, se tudo era inventado – crença religiosa, crença moral, concepções de mundo, visões cosmológicas – tudo poderia ser recriado. Portanto, tudo era possível.

E o “tudo é possível” como vemos hoje, no sentido mais “coach” do termo?
Coach é um exemplo de niilismo gourmetizado [Dá risada]. A ideia de que você, seguramente, pode descobrir a fórmula de ser próspero é uma grande mentira. Quem vende essa ideia, mente; e quem acredita é ingênuo. Agora, quem apenas brinca de ser niilista sente medo. Ser niilista, no sentido filosófico, é saber que nada fica de pé.

Qual é a principal diferença entre ceticismo e niilismo?
O niilismo é parente do ceticismo – e o ceticismo é um conceito mais antigo. O cético tem a seguinte característica: “como não posso ter certeza de nada, vivo segundo o hábito e os costumes.” Por isso que o ceticismo, em política, é conservador, ao contrário do que a ignorância pensa. Já o niilismo é ancorado no nada do hábito, na destruição das tradições, das crenças e da impossibilidade de refazê-las. O niilismo seria uma espécie de ceticismo radicalizado. Para o cético: “como não dá para inventar o mundo, então vamos viver como sempre se viveu” ou “quando em Roma, aja como os romanos”. Só que hoje isso não é mais possível porque ninguém sabe mais o que fazer sobre coisa nenhuma.

Qual é a diferença entre niilismo e kenonis?
Esse é um terreno vastíssimo. Entraríamos numa discussão teológica e mística sobre o esvaziamento da alma – exposto por Paulo e, depois, tratado na mística medieval como denudáció; ou seja, o desnudamento, também chamado de aniquilamento por místicas como Marguerite Porete; o tal desprendimento, desapego, que levaria a essa forma de nada místico. Só que tudo isso tem uma ancestralidade diferente do conceito de niilismo, então não dá para dizer que é a mesma coisa. Agora, se você pegar um Berdiaev, que viveu entre XIX e XX, ele faz uma aproximação entre o niilismo e a possibilidade de ir ao deserto da alma, de viver uma experiência que até pode ser chamada de mística, mas o caminho para chegar a essa conclusão é muito longo. Niilismo é um conceito político, filosófico, cosmológico do século XIX e kenosis é um conceito teológico paulíneo que tem toda uma tradição na mística, tendo sido muito forte no século XVII, na França. Não dá para dizer que é a mesma coisa, mas dá para dizer que, em aulas de doutorado, durante um semestre, é possível relacionar os dois conceitos.

Os grandes mistérios acabaram? Porque não podemos nos dar ao luxo de perder o fio da vida concreta?
O mundo continua sendo um mistério. Talvez, como você diz, nós é que perdemos a capacidade do espanto. Há um debate sobre se a filosofia seria filha do espanto, como pensa Platão, ou filha da decepção com os deuses, com as explicações tradicionais, com o passado – da Grécia, no caso, onde começou. Nesse sentido, a própria filosofia teria sido a primeira ruptura com o hábito. Agora, eu posso me decepcionar com as explicações a minha volta, mas o mistério continua. Engraçado é que os céticos sempre foram aqueles que achavam que enxergavam aquilo que ninguém mais enxergava. Tudo é mistério, não conseguimos explicar direito como as coisas são.

 

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Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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