Na sacralidade do meu ofício de escrever

Tenho mesmo meu ofício como algo sagrado. Se quando escrevo comovo, convenço, liberto ou faço mudar de opinião é porque meu ofício tem beleza, força, poder e vida.

Não só é pobre aquele não percebe o mover da vida nas linhas que escreve – ou que lê – como é incapaz para a felicidade possível.

A felicidade possível! Essa que é tão difícil de enxergar, como é difícil enxergar o diabo em seu afã de segurar o passado diante de nossos olhos. Caminhamos todos os dias rumo ao que já foi em busca do que fomos ou deveríamos ter sido.

Meu ofício é sagrado porque através dele enxergo o que meus pensamentos soberbos ignoram. Minha escrita ultrassensível instaura subversivo acesso ao escorregadio eu. E como em um dia de partida, passa uma a uma as tristezas das escolhas feitas.

Quando escrevo equalizo minhas desigualdades, faço escoar dores fugidias que teimam em não ir. E nas frases que ouso repetir, me livro dos estados sugestionados por aqueles que nada sabem de meus olhos d’água.

Escrevo porque tenho escondidos. Escrevo quando assumo a falta. Escrevo quando sonhos imploram chance. E escrevo para estar diante de mim.

Escrever é meu ofício e meu exercício. Um trabalho inacabável de adequação das minhas aparências.

Escreveu sabiamente Ana Maria Netto Machado: “Assim que minha pena levanta do papel e olho para o produto de meu ato, já é outro o ato que exercito, já é outro o lugar que ocupo.” Ocupo todos os lugares que posso, só não posso ocupar o mesmo lugar.

Assim escrevo sobre os sonhos das noites mal dormidas para acordar de vez minhas inconsciências. Escrevo sobre as lágrimas que caem de saudade para manter o elo com aquele que se foi, embora não de dentro de mim.

Escrevo sobre as grandes belezas do cotidiano, a maior delas o sorriso de meu cachorro, o qual abriu as portas do perfeito mundo em que sempre desejei viver. Ele, a única coisa maior do que minha escrita.

Das causas do morrer, só não quero a da falta de imaginação. Quero ir até o fim e tecer escritos finos sobre os efêmeros que me vêm e vão, depois de escritos.

Como milagre, o que se escreve ganha novo sentido. Para quem escreve e para aquele que lê. O milagre tem sua própria linguagem, certamente a poética.

Na sacralidade do meu ofício Deus não é sujeito oculto. Hoje sofro mais na tentativa das grandes frases.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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