O Jogo da Imitação: obstinação e solidão

Para além de tudo, a solidão de Alan Turing. Além de uma história magnífica, de muita petulância sim, mas também de muita autoconfiança e risco, a solidão de Alan Turing é um dos pontos mais tocantes de O Jogo da Imitação.

Benedict Cumberbatch é quem vive o matemático que, aos 27 anos, teve uma ideia brilhante que ajudou a decifrar os códigos militares usados pelos nazistas, auxiliando os aliados a vencerem a Segunda Guerra Mundial.

Frio e para lá de focado em sua arte – é possível dizer que não é arte? – Alan Turing é retratado assim neste longa de Morten Tyldum, que concorreu em oito categorias, incluindo Melhor Filme, ao Oscar de 2015.

O Jogo da Imitação.

A história é essa: o governo britânico monta uma equipe com os melhores matemáticos e cientistas, em Bletchley Park, a fim de desvendar a famosa Enigma. A indecifrável máquina que os alemães usavam para enviar mensagens era também o desejo visceral de Turing, que se apresenta ao Comandante Denniston, vivido por Charles Dance, de maneira prepotente, impondo-se como a extraordinária solução para decifrá-la.

Este primeiro diálogo é muito interessante. Uma vez parte da equipe, surgem os conflitos, é claro. Justamente porque Turing constrói sua engenhoca sozinho, alheio aos outros, acreditando piamente que a lógica triunfará.

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O roteirista Graham Moore escolheu mostrar apenas um lado de Alan Turing, que foi um homem mais afável do que o mostrado no filme.

Em cena, o gênio chega a ser cruel com os colegas, de tão obstinado pela missão a que foi designado. O que provoca inimizades, é claro.

O refrigério surge com a personagem de Keira Knightley, um geniozinho, super graciosa, de nome Joan Clarke. Turing, gay – embora muitos soubessem, era algo impossível de ser assumido, e caso viesse a público Turing seria punido de alguma forma – pede Joan em casamento, que não se importa com a orientação sexual do noivo, principalmente porque ela mesma não deseja ser uma esposa padrão. Ambos vivem para o pensamento e se amam à sua maneira.

A quem interessar, há disponível uma biografia com mais detalhes sobre a vida do matemático: Alan Turing: The Enigma, escrito por Andrew Hodges.

Benedict Cumberbatch é tudo em O Jogo da Imitação. É sua interpretação que segura o filme. Cumberbatch revela o lado genial, audacioso, egocêntrico e incapaz de se relacionar socialmente de Turing.

Solitário. Mesmo no canto mais seguro de sua arrogância, Alan foi solitário. Tanto que não suportou viver, dando fim a própria vida em 1954, quando injetou veneno de cianeto em uma maçã, aos 41 anos. Um dos motivos foi o processo de “castração química” que sofreu para “corrigir” sua homossexualidade, obrigado pelo governo inglês. Esse processo normalmente acontece por meio de medicamentos hormonais que reduzem a libido. Parte da vida de Turing que o filme não mostra.

O Jogo da Imitação vale a pena ser visto por este homem que mudou o rumo da guerra e foi um dos pioneiros na Revolução Tecnológica que hoje faz parte da vida de todos nós. Triste é ele sequer ter sonhado com isso, tendo morrido preso em si mesmo. De qualquer forma, uma homenagem.

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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