O Livro e a Cidade: A Queda

O Livro e a Cidade é uma coluna de crônicas protagonizada pela personagem Nana. É fácil perceber a referência principal, difícil é saber o que é realidade.

 

Olá, sou Nana. Meu cheiro é Dior, meus sapatos vivem com respingos de vela. Acendo-a semanalmente para Oxum. Minha fé não é grande coisa, mas não cedo à prática porque creio que a força do hábito faz um chão. O cotidiano, apesar que o desprezamos, de alguma forma nos dá segurança.

Só existo em sua mente. Nada do que ler aqui é verdade. Mentir é uma forma de existir, todo mundo sabe disso. Estou pela cidade vivendo “experiências”, essa tal que faz tempo que vem determinando o quanto aproveitamos – ou não – nossos dias tristes. Como aproveitar dias tristes?

Com bons livros e xícaras de café. Pode ser comendo também, ou bebendo, cada um encontra o próprio vício conforme se projeta. Como sonho deter todo o conhecimento do mundo porque vivo entediada, meu vício é o livro.

Estou lendo A Queda, de Albert Camus. Onde estou? New York Doceria e Cafeteria. Um achado na Rua Três Rios, 221, próximo à Estação Tiradentes da Linha Azul do Metrô de São Paulo. O lugar é encantador! Mesas de madeira maciça, vasinhos de flores em todos os cantos, piso escuro de um verde musgo belíssimo, ambiente meio escuro, perfeito para sofrer em paz. Curiosamente, o cardápio é em chinês. Peça soboro de batata doce com soda italiana de maça verde. Tudo é servido com muito carinho e simpatia, e nada auto forçado.

É nesse café que me refugio das dores da cidade. A cidade me causa cólicas intestinais desesperadoras. Estações cheias são prenúncios do fim do mundo, salve-se quem puder, eu nunca me salvo; ao contrário, sou a primeira a ser engolida. Estações de baldeação então parecem purgatório, inferno e céu colidindo, e o céu ninguém sabe para que lado fica.

A cidade, hoje, sem dúvida, é minha definição de queda. Já foi cenário de uma época que eu me apaixonava três vezes ao dia: no metrô, na padaria, na livraria. Aliás, uma das vezes numa padaria foi mesmo o que podemos considerar “a” queda. Conheci pela voz rouca de um homem sedutor o que Camus quis dizer com ser a favor de qualquer teoria que recuse a inocência ao homem e a favor de toda prática que o trate como culpado. Romances mal sucedidos têm poder para tal desencanto do mundo.

Venho pensando também que Camus esteve em São Paulo no horário do rush quando escreveu que quando pensamos muito sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas, porque estes não tinham segundas intenções.

Enfim, o narrador de A queda tem fraqueza pelo imperfeito do subjuntivo. Eu tenho pelos superlativos. Acho que é a prova cabal dos meus exageros sentimentais – que não são mentiras porque são exageros, deixo dito. Ele gosta de roupas brancas e eu de roupas curtas. Diz o protagonista: “O estilo, como a popeline, dissimula muitas vezes o eczema.” Que gênio!

Ora leio o livro convencional, ora leio de e-readers, livros digitais ou Kindle. Engraçado que haja tantos nomes para a mesma coisa quando ainda não achamos um único nome que dê conta desse vazio que nos habita. Quase sempre acho que, encontrando a palavra certa, tudo passa. Quedas são definitivas sem palavra. Para se recuperar de uma dor é essencial um verbo no imperativo. Camus discorda disso nesse monólogo. Ele questiona o sentido da linguagem. Bom, Camus e eu nunca nos demos lá tão bem. Nada contra ele, claro. Afinal, quem teria algo contra ele? Além de Sartre, evidentemente.

O protagonista de A Queda diz que nunca teve necessidade de aprender a viver, uma vez que já sabia de tudo ao nascer. Esse é o cerne do romance. Compreenda essa parte e terá compreendido onde queria chegar o argelino. “A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto.”

Em algum dia do ano de 1960, aliás, Sartre disse que A queda é a obra mais bela e mais complexa de Camus. Pois bem. Mais complexa, concordo. Bela, não. Entretanto, é verdade que a leitura causa desconforto e leva à consciência. Fuja desse livro em dias de sofrimento, dias de metrô cheio ou dias que em bebe o café imaginando ser cianureto.

Seja como for, e pensando no personagem, me comparando a ele, porque literatura é isso, certo? Espelho? Nem sempre sou familiar quando é preciso. Sou mais silenciosa do que é necessário. Minha popularidade já foi melhor. Meus êxitos no mundo diminuíram, mas hoje são mais consistentes. Incansável dançarina e erudita discreta? Check! Check! Pratico esporte e belas artes. Se o personagem teve lá algum receio de parecer imodesto, eu não tenho. E, ah, não gostei do livro.

 

Crônica ficcional. Qualquer semelhança com a vida real é muitíssima coincidência.

 

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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