O que é ler?

Perguntaram-me os espíritos: o que é ler? Veio-me, na mesma hora, a certeza de saber a resposta, porque nela vivo conscientemente. Ler é, para mim, um sentido maior que o da própria vida, já que esse nem sempre basta – e porque não ignoro o trágico.

Contudo, dissecar o que é ler – poética e filosoficamente – é desafio dos grandes, mas sinto poder partir desse ponto de vista particular: a leitura é uma atividade cognitiva, mas que também transforma o corpo – como faz o amor quando presenteia com a sensação de termos, enfim, um lugar. Livro é um lar.

Sabe-se ser um leitor aquele que se vê emparelhando a si mesmo com um personagem; não olhando para ele como se fosse um espelho, mas um amigo. Enquanto na primeira suposição a experiência é solitária, na segunda é compartilhada – por isso o leitor nunca se sente sozinho.

Ler é estar em um lugar. Não em presença, mas em atitude. É, portanto, e antes de qualquer coisa, uma decisão. Não lê o indeciso, tampouco o impreciso. Só lê aquele que quer ler.

Para o leitor não basta uma única vida, aquela que é dele, de fato; muito menos fazer parte de um único universo. Ler é dar sentido a uma inquietude de pertencimento.

Posto isso, ler é uma virtude, porque precisa vencer a espontaneidade, que é vacilante – ainda que se possa contar com ela. Não é preciso ser implacável, a leitura busca o compromisso.

Conversa aquele que não presta atenção, mas não lê aquele que ignora a voz do autor. Ler é procurar, encontrar e definir a voz do autor. Embora esse processo não necessite ser consciente.

Ler é estabelecer uma relação de comunhão. Pede entrega. A conexão pode ser imediata, mas não serão poucas as vezes que acontecerá apenas por meio do comprometimento – e até de certo empenho físico e emocional.

Ato consciente, mas que melhor se realiza se puder contar com a imensidão da inconsciência, a leitura pode ser situada – orientada, que demanda compreensão e senso crítico – e assim serve melhor ao intelecto, enquanto a leitura livre – do acaso – pode ser encarada como uma resposta contingente aos anseios do momento.

Seja qual for o modelo, o leitor ocupa uma posição – posição essa que pode não ocupar em seu cotidiano. Neste caso, ler torna-se um ato de sobrevivência – ou de resistência, ou de persistência.

Dependendo do tipo de leitura, alternamos esses dois modos de ler ou lemos simultaneamente nesses dois modos quando o livro é catalisador. Quando é capaz de mudar o rumo da própria vida.

Em outras palavras, ler é mesclar experiências, as do autor dão vazão as do leitor e essa junção faz nascer outras perspectivas, que não precisam, necessariamente, tornarem-se novos livros. Terá sido bastante se essas perspectivas abrirem novos caminhos na trajetória do leitor.

Ler, por fim, não é um trabalho mecânico. Ainda que necessite da capacidade de decodificar as palavras e de extrair delas sentidos estritos – levando, assim, ao maneio de alguns verbos, como: perceber nuances, questionar posições, localizar dados, tecer relações e fazer comparações – ler exige uma postura indissimulável. Engana-se a si mesmo, mas não se engana um livro.

Faço uso do trágico durante a leitura – assim como do erotismo –, parto do não-sentido. Abro mão da necessidade de um pensamento finalista.

Quando dou início a um livro coloco-me, sincera e abertamente, sem desconfiança, à disposição do surpreendente, da profunda beleza das mentes e dos mundos que eu não conheceria de outra forma. Ler é exercitar a humildade e a gratidão.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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