Onze de dezembro

Estava sem barba. E sem amargura. Vi, no entanto, a timidez que duas ou três vezes me dissera, mas não tomei a sério porque o animal que se lança em mim, como se fosse eu ave de rapina, é esfomeado.

Todo dia é um incêndio em mim, desde então, quando abriu a flor de meu ventre pouco a pouco, de tão molhada que ia sua língua. No começo como sutis beliscos, mas depois ambicioso de nunca mais me fazer esquecer de meu próprio desprendimento. Bebia-me com gelo.

Senti sua mão em meu pescoço, sutilmente, como se quisesse me tirar o ar e assistir se eu iria para nunca mais voltar, e então não teria mais de lidar com meus rótulos. A intenção pornográfica de nossos corpos nem sempre vence o medo que sentimos diante de nossas próprias salas escuras. Tirou a mão e o desejo de estar ali.

Vai, enfie forte até que expulse a palavra que o alça sobre o destino da infelicidade. Não para, não para. Enfie por completo até que a esperança o tome inteiro e jorre por entre os meus seios. Sente também na pele como entorpece a incompletude.

Deveríamos gargalhar dessa falta, porque ela some quando nos olhamos. Poderíamos dividir o mundo em dois: o mundo da vida, onde teríamos que fingir; e o mundo dos sentidos, onde nossas sombras fariam amor enquanto conversaríamos sobre os livros que nunca teremos a chance de ler.

Ou ponha de vez coragem nessa sua ânsia e livre-se de mim. Tire a vida da minha escrita. Errei em supor ser um tipo de resgate libidinoso, capaz de dissolver toda dor no sufoco de um gozo. Sonhei alto demais. Ponha o dedo onde pulsa meu melhor verbo e tenha força de ir até o fim. Apague a tecla G.

Não se deita mais em mim, não se deixa mais em associações aleatórias. Disse ser emotivo, mas me olha com desconfiança, como se a mentira que contaram um dia tivesse a cor de meus olhos. Estava sem barba e não quis me ver no espelho. Dissolveu-se a imagem daquela que treme e desfalece sozinha em pequenos espasmos, imaginando que são seus olhos o reflexo.

Amontoados de pavores e desejos, cada encontro tem sido guerra de conceitos vacilantes: desejo sexual, amor erótico, instinto carnal, amor romântico, louvor, culpa, raiva, estima. Conforte meus sentimentos morais pelo menos uma vez e me diga que sou abrigo. Tire o gosto acre que ficou: sou um mal?

Onze de dezembro, leia alto mitos gregos, sinta o meu coração bater nos versos de Antígona. Onze de dezembro, se enxergue através de meus olhos e desacorrente Prometeu. Onze de dezembro, torne minhas palavras suas novas memórias, cante comigo pânico, vertigem, obsessão. Onze de dezembro, escreva quatro frases sobre nós e traga-me no domingo. Onze de dezembro, goze dentro de mim.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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