Pacto de alma

Se a alma não suporta, o corpo nega. Quebrasse tudo, mas não minha ternura. Assistiu-me renascer faceira, longe de minha terra natal, o tolhimento.

Fez-me rir tanto que voltou minha escrita compulsiva com novas paisagens. Introduziu-me mais do que o sexo, mas o anseio do amanhã. Como teria sido desbravar as belezas do mundo com dois pares de olhos tristes?

Teríamos inventado palavra melhor do que inefável. Ressignificou minhas memórias desafetivas. Só não fui o bastante para esgotar sua fúria, de sonho romântico tornei-me piada.

Onde via força, obstinação e conservadorismo de mulher que sabe a hora exata de levantar a saia e oferecer submissão, me tornei alucinação, qualquer semelhança com algo que lhe doeu. Tornei-me alvo, numa implacável lógica interna, tão nítida para mim porque sou também tecida de abandonos. Quebrasse tudo, menos o patrimônio adquirido de mulher reavida.

Fui de beleza, mistério, poder e riso a ambições comezinhas. Fui de sentimento de completude a desprezo barato. Há várias formas de nomear vagabunda. Aceito ser amor doente, jamais objetal.

Minha escrita compulsiva agora é tristemente irônica. Celebrei cedo demais que ninguém mais ousaria sair pela porta como se deixasse um verme. Quebrasse tudo, menos o espelho que eram seus olhos limpos.

Recusou o pacto, é fato. O pacto de alma. E quando a alma não suporta, o corpo nega. Adoecemos porque não aceitamos nossas ambivalências.

Recusou o pacto, mas sabe que foi juntos que quebramos nossas agonias prolongadas. Trocamos mais do que suores, trocamos pulsões de vida e morte. Criamos um sexo particular, agressivo e afetuoso, porque é disso que se trata o vínculo amoroso.

Recusou-me e o pacto, debochou das gentilezas, quis ferir no desprezo. Tão rápido nos tornamos metáfora difícil. Mas foi juntos que queimamos o enraizamento familiar de pai e mãe embustes.

Negou o pacto de alma e ao negá-lo me negou eufórica, à beira, finalmente, de uma nudez primordial. Não confiou que eu sabia o antídoto desse veneno que o consome.

Recuso eu que se cumpra a fatalidade mais uma vez: quero admiração recíproca. Quis, no pacto de alma, o espetáculo da vida que é o seu gozo.

Quis a alegria que eram meus amavios até sua chegada: banho de sete rosas e vestidos transparentes, não havia custo para reter seu cheiro em tudo. Só não sei ser outra vez alvo.

Quis romper distâncias, suprir faltas, enchê-lo de novas palavras, ser leitura fluida, guardadora de seus silêncios. Quis ser sua Salomé, inspirar versos sinceros, encadeamentos livres de vã perfeição. Quis que passasse noites a fio em meus cabelos desgrenhados, indecisos se cheiram ou não a cigarro vencido. Quis tê-lo visto fumar pelo menos uma vez.

Quis ser varanda nesta casa turva onde mora, seu íntimo impetuoso. Ser um paraíso perdido, um gosto de sexo com o qual não se importa em ir dormir. Quis apenas ser um sentido verdadeiro.

Eliana de Castro Escrito por:

Idealizadora da FAUSTO, é ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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